A fotografia ao alcance de todos

Em dez anos de atividade, projeto Imagens do Povo, na Maré, já formou mais de 200 fotógrafos, democratizando o acesso à linguagem fotográfica

Formar e inserir fotógrafos moradores de espaços populares no mercado de trabalho, utilizando a técnica a serviço de questões sociais para, enfim, democratizar o acesso à comunicação. Este é o principal objetivo do Imagens do Povo. Nascido na Maré há dez anos a partir da iniciativa do fotodocumentarista João Roberto Ripper e sob a realização doObservatório de Favelas, o projeto conta, hoje, com oito áreas de atuação e mais de 200 fotógrafos formados: Escola de Fotógrafos PopularesAgência EscolaBanco de ImagensOficinas de Fotografia ArtesanalCurso de Formação em Educadores da FotografiaCurso de Capacitação: Fotografia, Arte e Mercado;Oficinas de fotografia para pessoas com Síndrome de Down e aGaleria 535. As imagens produzidas circulam em páginas e publicações de diversos locais do Brasil e do mundo, retratando costumes, manifestações culturais e o cotidiano das favelas com uma percepção crítica, a fim de desconstruir conceitos preconcebidos.

Ripper destaca o aprendizado constante dos moradores da Maré como um dos trunfos do projeto. “Procuramos dar oportunidades para as pessoas aprenderem a fotografia de uma forma profunda como não existia no Brasil há dez anos, com quatro horas de aula por dia durante um ano. Eles têm aulas de Psicologia, Filosofia, História da Cidade do Rio de Janeiro, História da Arte, tudo para exercitar o pensar e mostrar um lado da história que normalmente não é visto, quebrando a história única que estigmatiza a favela como um lugar de violência O objetivo é trocar o olhar da ausência pela presença. Não estamos formando pessoas para servir à classe média, e sim para pensar”.

Avanço tecnológico

Quando o projeto iniciou suas atividades, a fotografia ainda era predominantemente analógica. Facebook, Twitter, Instagram e diversas outras redes sociais não existiam, e a divulgação de imagens através da web era mais limitada. Neste contexto, alunos e professores precisaram se adaptar à realidade da época para fazer valer sua visão de mundo. Dez anos depois, o cenário é outro. “A fotografia analógica foi majoritária durante o primeiro ano. Aos poucos foi sendo substituída por sua versão digital. Os alunos se adaptam muito bem às novas tecnologias. Ao fim do projeto, eles se formam com três diplomas: fotografia básica, fotografia documental com olhar autoral e informática aplicada à fotografia, para cobrir todas as áreas de atuação possíveis”, esclarece Ripper.

Para o fotodocumentarista, outro aspecto importante em relação aoImagens do Povo é a dedicação dos alunos e sua vontade de aprender. “Trabalhamos com pessoas que têm momentos de dúvidas e de preguiça, como todas as outras, mas com muita gana. Os alunos são um exemplo de que investir e acreditar nas pessoas dá o retorno necessário e diminui a violência. Em toda a minha vida, este projeto foi a coisa mais bonita da qual participei. É um prêmio para mim ter tido a chance de criá-lo e ainda participar depois de tantos anos”, afirma.

AF Rodrigues, nascido e criado na Maré, se formou na turma de 2006 com mais trinta alunos de faixa etária variando entre os 18 e os 60 anos. Ele destaca a formação humanista que recebeu. “Além da formação técnica, que é muito boa, o que difere este curso de outros tradicionais é a preocupação mais humana. A fotografia é vista como instrumento de contestação do status quo”, pondera.

Programação especial de aniversário

Para comemorar sua primeira década de existência, o Imagens do Povo preparou uma programação especial para quarta-feira (14/01), a partir das 18h, no Galpão Bela Maré. Este dia marca o lançamento do livro Nós, que reúne 112 imagens produzidas por 33 fotófrafos ao longo dos anos de atividade, com curadoria de Antônio Paiva, Dante Gastaldoni, Joana Mazza, João Roberto Ripper, Kita Pedroza, Rovena Rosa e Tatiana Altberg. “A primeira peneira para a escolha das fotos que estão no livro foi coletiva. Os fotógrafos traziam uma pré-edição e, através do voto, escolhíamos as melhores imagens. Em um segundo momento, alguns fotógrafos foram convidados, eu, inclusive, para fazer a curadoria final do livro”, aponta Rovena, coordenadora geral do projeto. O DJ Guaxininjá e a banda Los Chivitos animam o evento.

Junto ao lançamento do livro, acontece a exposição homônima - com visitas disponíveis até 28/03 – que apresenta um pequeno recorte do que contém a publicação, com 50 fotos impressas no formato 60 x 90 cm selecionadas pela coordenadora. “Dentro desse acervo, fiz um recorte para a exposição, tentando contemplar todos os fotógrafos que participaram do livro. Estamos organizando também o Festival de Fotografia Popular, previsto para acontecer em março, com mesas-redondas, projeções em praças públicas e uma programação especial. A ideia é promover o encontro com outros grupos de artistas da periferia, um lugar de potência, que trabalhem questões como a relação da fotografia com a educação e a cidade”, conclui.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Aspectos da cultura popular são destacados por diversos fotógrafos do projeto (crédito: Edmilson de Lima)

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