Roda, roda, roda e avisa!
Chacrinha – O Musical homenageia um ícone da televisão brasileira
Antes de ser Chacrinha, José Abelardo Barbosa de Medeiros, pernambucano da cidade de Surubim, estudava para se tornar médico. O espírito irreverente, porém, falou mais alto, a ponto dele largar os estudos e vir para o Rio de Janeiro, local que o consagrou como o maior comunicador do rádio e da televisão brasileira. Mesmo tendo morrido há 26 anos, o Velho Guerreiro, como ficou conhecido, continua presente no imaginário popular e ainda é lembrado por seu espontâneo domínio de palco, suas chacretes rebolativas, roupas extravagantes e pelos bordões criados, como “Alô, Alô Teresinha”, “Quem não se comunica se trumbica”, “Alô, dona Maria, seu dinheiro vai dar cria” e “Na televisão, nada se cria, tudo se copia”. Ironicamente, nenhum outro apresentador conseguiu os mesmos feitos. Por seu concurso de calouros, em que era oferecido o Troféu Abacaxi, passaram nomes da música nacional hoje consagrados, como Raul Seixas, Gonzaguinha, Titãs e Sidney Magal. Com sua inseparável buzina pendurada ao pescoço e atirando, sem cerimônia, diversos tipos de objetos ao público, com o inesquecível “Vocês querem bacalhau?”, Chacrinha se tornou um ícone pop e, agora, é homenageado com a superprodução Chacrinha, o Musical, que chega ao palco doTeatro João Caetano, no Centro, nesta sexta-feira, às 20h. A temporada segue até março de 2015.
Montagem milionária
A montagem, com orçamento de R$ 12 milhões, é assinada pelaAventura Entretenimento e marca o fim da trilogia Uma Aventura Brasileira, que se iniciou com Elis, a Musical, em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, e Se Eu Fosse Você, o Musical. “Começamos produzindo grandes clássicos da Broadway, como A Noviça Rebelde, Um Violinista no Telhado, O Mágico de Oz e Hair. Há aproximadamente três anos, entendemos que era chegada a hora de investir na cultura do nosso país e de começar a dar luz às figuras que de fato são importantes para a nossa história. Foi quando decidimos construir essa trilogia que se encerra com Chacrinha, que foi um grande revolucionário. Se ele estivesse vivo e atuando, seria, ainda, muito à frente de seu tempo. É o maior ícone da TV brasileira, sem nenhuma dúvida”, comenta Luiz Calainho, um dos sócios da produtora.
O jornalista Pedro Bial e o dramaturgo Rodrigo Nogueira assinam o texto do espetáculo, que marca a estreia de Andrucha Waddington, a mais de 30 anos se dedicando ao cinema, na direção teatral. “Assim como no cinema, ficou claro que, no teatro, não se faz nada sozinho. Quando eu fui chamado para tocar o barco como diretor, fiquei muito nervoso até começar a ensaiar. Me tranquilizei colocando na cabeça que faria dois planos-sequência, um para o primeiro ato e outro para o segundo, e isso eu se fazer. Quando começamos a trabalhar dessa maneira, passei a me sentir em casa em um ambiente que era novo, mas com uma matéria-prima que é a mesma, ou seja, o material humano e a dramaturgia”, afirma Waddington.
“Para mim, assim como para o Andrucha, foi entrar em um território novo. Acho que fui convidado também porque tenho o gosto pela biografia. Havia um compromisso inicial em dar um sentido àquela trajetória às vezes enigmática, pois o Abelardo não deixou pistas muito claras de como ele criou o Chacrinha. Primeiro houve, então, a pesquisa no sentido clássico e convencional para se armar a biografia e, depois, com esse panorama mais claro, procuramos cenas, momentos e eventos da vida que poderiam se tornar cenas de um espetáculo musical e que tivessem potencial de encantamento. Senti que precisava de alguém mais profissional e rodado na área, por isso chamei o Rodrigo Nogueira. O texto foi ganhando a sua forma definitiva nos ensaios”, explica Bial. “Teremos a chance de ver o lado humano de um mito, que foi a proposta que o Bial trouxe desde o início. Acho que é isso que o espetáculo tem de mais interessante, vamos ver o lado que todo mundo conhece, que é o da alegria, do oba oba e da felicidade, mas também o lado humano. Antes e depois dele se tornar o Chacrinha, ele continuou sendo Abelardo e o conflito entre os dois lados é o mais interessante que trazemos em termos de dramaturgia para esse espetáculo”, acrescenta Nogueira.
Da infância sofrida à consagração como apresentador
O espetáculo se divide em dois atos, com espaços para episódios biográficos e momentos líricos e fantasiosos. O primeiro acompanha a infância, a juventude e a fase adulta, dos dez aos 40 anos. São retratados a perda do pai, o começo da carreira no rádio e, posteriormente na televisão. Neste momento ficam claros alguns transtornos de personalidade, como o perfeccionismo, a obsessão pelo índice de audiência e a bipolaridade. As ações iniciais acontecem principalmente em Pernambuco e a cultura nordestina ganha destaque nos cenários criados por Gringo Cardia. “Foi bacana resgatar, em um primeiro momento, a infância do Chacrinha. Fomos ao Nordeste buscar as raízes da cultura nordestina, da xilogravura e da estética de cordel. Fizemos uma homenagem a esse tipo de imaginário e a um grande xilogravurista da região, que é o J. Borges e que tem muito a ver com as loucuras que podemos observar mais à frente no espetáculo, quando o apresentador ganha fama, já na cidade. Procuramos traçar um paralelo entre a infância dele, a cultura nordestina e o visual que todos nós conhecemos, mais recente, pop, explosivo e psicodélico”, pondera o diretor de arte e cenografia. O segundo ato retrata a consagração do apresentador e todo sucesso conquistado, em um palco repleto da mais vasta gama de cores. Os transtornos continuaram se agravando, a ponto dele chegar a usar, em uma ocasião, sete cuecas, uma por cima da outra, tamanho o nervoso que o tomava antes de entrar no palco e temendo que o intestino o traísse.
O Velho Guerreiro é interpretado por dois atores em momentos distintos de sua vida. Leo Bahia, recém saído do espetáculo universitário The Book of Mormon, sucesso de público e crítica, assume o papel do jovem Abelardo, ao passo que o veterano Stephan Nercessian, afastado dos palcos por mais de dez anos, interpreta o Chacrinha no auge de sua carreira como apresentador do programa O Cassino do Chacrinha. “Eu sempre disse que só voltaria se fosse para participar de um projeto muito especial. É uma atividade que requer muita dedicação, esforço e disciplina. Falei desde o início que não sou um imitador. Vou criar o meu personagem através emoção que ele me provocar”, explica Stephan.
Leo Bahia foi escolhido durante as audições que reuniram mais de 400 atores e comentou a transição do teatro universitário para uma superprodução. “O amor com o qual eu faço é o mesmo. No Book of Mormon começamos sem pretensão de nada, era uma peça universitária que foi crescendo. Neste musical já vamos estrear com todos querendo saber, então o que muda é a expectativa das pessoas”, afirma ele que, com 23 anos, não chegou a acompanhar a carreira do apresentador, morto em 1988. “O Chacrinha permanece vivo, mesmo para a geração que não acompanhou sua carreira. Ele representa grande parte da história da televisão brasileira. O que me chamou a atenção em sua história foi a parte que não conhecemos, representada pelo Abelardo. Ele tem um personagem super irreverente, que é o Chacrinha, que eu vejo como alter ego do Abelardo, um homem que amava o que fazia com todas as forças e isso é uma coisa incrível”, aponta Bahia.
Outros 22 atores completam o elenco, dando vida a familiares e a personalidades que fizeram parte da vida de Chacrinha, como José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que aparece como um anti-herói por ter demitido e recontratado o apresentador em outra ocasião. A apreensão por conta do que Boni acharia do espetáculo era grande. “Procuramos falar com todos os retratados que estão vivos, inclusive com o Boni, que é uma espécie de vilão e antagonista. Eu e o Andrucha fomos jantar com ele para explicar como a história seria retratada. O que aconteceu foi que ele escreveu três cenas, além das que nós já tínhamos. Ele virou uma espécie de co-autor”, comenta Bial.
73 canções em pouco mais de duas horas
A trilha sonora é composta por 73 canções consagradas na história da música nacional. Muitos desses sucessos fizeram parte do repertório do Cassino do Chacrinha e dos artistas que o comunicador ajudou a consagrar. “Vamos reunir músicas desde o fim dos anos 30, de cantores da rádio, até meados dos 80, apresentadas nos últimos programas. O Chacrinha, que tem essa questão nacional da música, abordando todos os estilos possíveis. O grande barato para mim, a grande alegria de estar fazendo isso é ter acesso a todas as possibilidades musicais”, comenta Delia Fischer, diretora musical. “E ainda ficou muita coisa de fora. Não é um espetáculo longo, tem duas horas de duração. Isso foi uma preocupação nossa, desde o início quisemos fazer um espetáculo ágil e compacto”, esclarece o diretor Andrucha Waddington. “É o musical da Aventura Entretenimento que mais teve música. O Rock in Rio, que era um musical especificamente de música, tinha 60. E, curiosamente, é também o mais curto”, completa o dramaturgo Rodrigo Nogueira.
Sem papas na língua
Chacrinha se consagrou na época do politicamente incorreto. Não media palavras: falava o que vinha à cabeça e pronto. Será que existiria espaço para o Velho Guerreiro atualmente, quando as pessoas precisam tomar muito cuidado ao se expressar? “Se ele estreasse hoje, seria tão moderno que não poderia ir ao o ar. O mundo está tão politicamente correto, temos que medir cinco palavras cada vez que vamos falar dez, porque podemos falar besteira e nos dar mal. Ainda bem que teremos a chance de reviver o mundo politicamente incorreto do Chacrinha de uma maneira muito divertida”, afirma Waddington. Pedro Bial, por sua vez, acredita que Chacrinha daria um jeito de fazer valer toda sua irreverência. “Para se afirmar e fazer o que ele fez, teve que brigar com Deus e o mundo. Tudo o que ele dizia era: ‘tanta gente já faz a mesma coisa, deixa eu fazer do meu jeito’. Mas, para isso, o sujeito tem que ter um desejo inabalável, forte e ele tinha, foi e fez, mas ninguém facilitou. O mundo não era mais simples antes. Aliás, até por ser politicamente incorreto, às vezes era mais difícil”, conclui. Aliás, como dizia o próprio Chacrinha, com seu jeito anárquico, não era sua intenção se explicar ou agir como bom samaritano, e sim provocar e confundir seu público.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Stephan Nercessian caracterizado como Chacrinha e cercado pelas chacretes (Crédito: Robert Schwenck)