Frida Kahlo, a deusa tehuana

Espetáculo com fragmentos da vida da artista estreia amanhã, no Teatro Glaucio Gill

Símbolo da luta feminista, intensa, autêntica, política, patriota, cheia de cores e apaixonada pela vida. Estas são algumas das características atribuídas à artista mexicana Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon, mais conhecida como Frida Kahlo, morta há 60 anos. Sua obra, porém, continua mais atual do que nunca, e seu rosto estampa diversos objetos, de camisetas a artigos de decoração. Por sua força e superação, ela se tornou um ícone, como pretende mostrar a dupla Luiz Antonio Rocha, diretor, e Rose Germano, atriz, no monólogo Frida Kahlo, a Deusa Tehuana, que estreia neste sábado (25/10) no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana. A temporada segue até 14/12.

“Quando começamos a fazer a pesquisa para montar o espetáculo, descobrimos o quanto Frida era maior do que sua pintura. Tivemos a dimensão de uma mulher que superou tanta coisa e com uma força de vida, que é realmente desconcertante. Ela se reinventou e se transformou em uma das maiores pintoras do século XX”, explica Rocha, que optou por um texto não biográfico, levemente inspirado nos diários pessoais e na obra da artista. “Ela deixou um diário íntimo com poesias belíssimas, muitas cartas e fotografias. É um legado impresso de uma grandiosidade que eu desconhecia, com uma escrita muito mais rica do que sua pintura”, afirma o diretor.

A montagem

Fundada basicamente na comunicação entre atriz e plateia, o cenário da peça é minimalista: ocupam o palco apenas uma mesa alta e três cadeiras, réplicas dos modelos que Frida mantinha em sua casa no México. “As cadeiras se transformam em vários objetos durante o espetáculo. Em uma das cenas, são usadas como pernas de pau. Descobrimos que, na infância, a artista era chamada de ‘Frida perna de pau’ porque mancava devido à poliomielite que teve com seis anos de idade e que deixou sequelas em seu pé esquerdo”, comenta Rocha.

Frida Kahlo, a Deusa Tehuana começa com um pró­logo em que a mecenas Dolo­res Olmedo, grande rival de Frida e tam­bém interpretada por Rose Ger­mano, fala da pintora com desdém e ironia, relembrando suas expe­ri­ên­cias com Diego Rivera, grande amor da vida de Frida. “Dolores é uma mulher muito interessante que poucas pessoas conhecem. Milionária e poderosa, era embaixadora da cultura mexicana e defendeu muito o patrimônio histórico de seu país e a tradição do Dia dos Mortos. Ela foi modelo do Diego e o conheceu antes da Frida, mantendo, acredito eu, um envolvimento com ele. Além disso, Dolores Olmedo possui a maior coleção de Frida Kahlo e Diego Rivera do mundo”, esclarece o diretor Luiz Antonio Rocha.

Deusa tehuana

Em seguida, com uma troca de roupa, a atriz protagoniza Frida Kahlo. A nar­ra­tiva começa pelos últimos momentos da vida de Frida, com o sofri­mento e a deca­dên­cia física. Ao longo da peça, a ação tran­sita para uma cena mais leve e colo­rida, simbolizando as fases mais feli­zes e sau­dá­veis da pintora. “Nós mostramos uma Frida em construção que vai sendo montada durante o espetáculo. Começamos com uma roupa negra, mais dramática. As cores aparecem aos poucos e o espetáculo termina com ela vestida de deusa tehuana, com um traje típico das índias mexicanas, uma espécie de bata quadrada e bordada. As flores, que são uma característica, só aparecem na última cena quando ela é coroada. As pessoas saem do teatro com aquela imagem forte da Frida que todos conhecem”, acredita Rocha. O vio­lo­nista Pedro Silveira está todo o tempo em cena, alternando can­ções tra­di­ci­o­nais mexi­ca­nas com tri­lhas que pon­tuam a ação.

Contra o vento e a maré

As adversidades por conta de graves problemas de saúde acompanharam Frida Kahlo desde a infância, quando teve poliomielite, doença que deixou uma lesão em seu pé esquerdo e lhe rendeu o apelido de “Frida perna de pau”. Mais tarde, aos 18 anos, sofreu um acidente que mudou o rumo de sua vida. O ônibus em que estava com seu noivo à época chocou-se de frente com um trem e Frida, que estava no meio do veículo, recebeu todo o impacto da batida. Um vergalhão de ferro atravessou seu abdome, a coluna e a pélvis, fazendo com que sofresse múltiplas fraturas e intervenções cirúrgicas com o passar dos anos: 35 ao todo, além de um colete que a acompanharia até o fim. Outra grave sequela foi a impossibilidade de sustentar uma gestação, o que provocou três abortos e um enorme pesar, já que seu maior desejo era ser mãe.

“E a sensação nunca mais me deixou, de que meu corpo carrega em si todas as chagas do mundo”. Para Frida, seu corpo era a representação da má sorte. A fim de se recuperar do acidente, precisou ficar vários meses de repouso em uma cama. Para se distrair, começou a pintar. Seu corpo e sua dor eram retratados com frequência. Frida tinha, inclusive, um espelho em cima de sua cama, que servia de auxílio para pintar os detalhes com mais precisão. Foi o marido Diego Rivera, outro ícone da cultura mexicana e com quem manteve um conturbado relacionamento durante 25 anos, que a ajudou a divulgar seus quadros nos Estados Unidos, através de trabalhos e exposições. Tanto Diego quanto Frida mantinham inúmeros casos extraconjugais e juntos formaram um dos casais mais originais do início do século XX. A pintora viveu intensamente até os 47 anos, quando, por conta de complicações que resultaram em uma perna amputada, não resistiu. “Esta foi a pior fase de sua vida, que foi quando ela realmente se entregou”, acredita Rocha. Em seu diário pessoal, deixou as seguintes palavras: “espero alegre a minha partida – e espero não retornar nunca mais”.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Rose Germano em cena como Frida  (Crédito: Renato Mangolin)

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