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Tensões políticas e sociais contemporâneas e a influência dos meios de comunicação estão presentes emHistórias Frias e Chapa Quente, que reúne trabalhos da dupla Dias & Riedweg
Um passeio pela história recente, incluindo Guerra Fria, a ditadura militar e manifestações de junho de 2013, entre outros acontecimentos, é o que propõem os artistas Maurício Dias e Walter Riedweg na exposição Histórias Frias e Chapa Quente, que começa nesta terça-feira (07/10) na Casa França-Brasil. Em uma das emblemáticas obras da dupla carioca-suíça, Che Guevara, Mao Tsé-Tung, Nikita Kruschev e John Kennedy, símbolos da disputa ideológica que dividiu o mundo em meados do século passado, são transformados em marionetes, cada um deles sob um velho baú, representando o anacronismo de seus respectivos governos. A exposição, que segue em cartaz até 30/11, reúne obras inéditas e mais recentes dos artistas: Cold Stories (Histórias Frias), Chapa Quente, Sob Pressão,Evidência, Blocão e Throw (Tiro) que, apesar de ser de 2004, foi incluída por ser o primeiro trabalho de Dias e Riedweg feito com imagens de arquivo.
Para o dinamarquês Andreas Brøgger, que assina a curadoria, a exposição “destaca a constante preocupação dos artistas com o modo como histórias, identidades e memórias coletivas e individuais são fabricadas e preservadas. Mas também como estas histórias podem ser revividas ou reencenadas para interagir com o nosso presente e desafiá-lo. A história é, sob essa perspectiva, não só aquilo da qual somos feitos. Não apenas determina quem somos como também pode ter a chave do que podemos individualmente ver, sentir, lembrar e coletivamente imaginar e nos tornar”, explica. Dias e Riedweg questionam o público sobre as grandes figuras da História. “O que se coloca é se esses personagens aparecem aqui tão manipulados quanto foram manipuladores. A própria História aparenta ser um jogo de fragmentos expostos em um dado lançado no espaço e fica a desconfortável pergunta: afinal quem ou quê faz então a História?”.
Parceria entre Brasil e Suíça
Walter Riedweg, suíço que imigrou para o Brasil, e Maurício Dias, brasileiro e carioca que emigrou para a Suíça, já trabalham juntos há 21 anos, atualmente em terras tupiniquins com projetos que investigam como a psicologia privada afeta o espaço público e vice-versa. “Trabalhamos juntos pela primeira vez em 1993. Walter era o diretor de uma peça e eu intervinha em seu trabalho, reposicionando-o no espaço. O espetáculo se passava nas fachadas das casas, nas calçadas, pontes, becos e parques. Acho que nesse dia não só personagem e público saíram de seus lugares tradicionais, mas Walter deixou o ‘teatro’ e eu deixei ‘a pintura e o desenho’ para trabalharmos juntos, juntos com o público em novos suportes, novos projetos e novas categorias que nos possibilitaram, aos poucos, um novo tipo de obra, mais dialógica e interrogativa”, afirma Dias, que acha fundamental esse intercâmbio para o pleno desenvolvimento artístico. “Somos artistas e os artistas precisam imigrar entre os diversos contextos da vida para refletir e aprofundar suas visões de mundo. Para nós o ato e o direito de imigração é uma qualidade poética que deveria ser vista como um direito humano. Não estamos no mundo para representar uma região e sim para entendê-lo e vivê-lo com intensidade”.
Saiba mais sobre a exposição
A obra Cold Stories (Histórias Frias) ocupa o espaço central da Casa França-Brasil com um gigantesco cubo de 5,5 metros de lado e de altura, no qual serão projetados mais de seiscentos arquivos de vídeos coletados exclusivamente da internet, que cobrem os anos da Guerra Fria, de 1944 até os dias de hoje, com trechos de séries de TV, comerciais, discursos históricos, fatos políticos e imagens de conflitos e guerras. Juntos a esta estrutura central, as quatro marionetes de Guevara, Tsé-Tung, Kruschev e Kennedy citadas anteriormente.
A videoinstalação Chapa Quente mostra em quatro telas objetos utilizados pela polícia, como capacetes, cassetetes e ampolas de gás lacrimogêneo. A cada vez que os objetos se repetem em sequência, surgem imagens de arquivos dos protestos que sacudiram o Brasil em junho e julho de 2013, associadas a fotos históricas da ditadura militar e a fenômenos naturais de grande intensidade, como vulcões, deslizamentos de terra e tsunamis.
No trabalho Sob pressão, criado este ano, trinta barômetros, de 14 centímetros de diâmetro, mostram a pressão atmosférica do espaço, mas contêm discretas intervenções gráficas que inserem nomes de favelas do Rio de Janeiro: Maré, Mangueira, Rocinha, Alemão, Fogueteiro, Cidade de Deus, dentre outras.
Também de 2014, Evidência traz um termômetro de três metros de comprimento que mede a temperatura ambiente, mas que na sua escala entre 40 graus Celsius negativos e 40 graus positivos, revela inscrições com datas do período entre 1944 e 2014.
Blocão, realizada este ano em colaboração com a crítica de arte Glória Ferreira e a artista Juliana Franklin, reúne, em 30 mil folhas de um bloco de aproximadamente um metro quadrado, uma seleção de 80 frases diferentes, uma por página, ditas por políticos e personalidades da mídia. O público poderá escolher uma frase, e destacar a página para levar consigo.
Na obra mais antiga em exposição, Throw (Tiro), de 2004, os artistas convidaram pessoas a atirarem, diretamente no olho da câmera, uma série de objetos dispostos no chão. O gesto das pessoas ganhou maior potência sob o efeito da câmera lenta e da inclusão de imagens de arquivo de manifestações políticas que aconteceram na Finlândia durante o século XX.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Pessoas são convidadas a atirar objetos na lente da câmera na mostra Throw (Tiro)(crédito: Divulgação)