De artista e louco, todo mundo tem um pouco

Projetos culturais ganham força e renovam o Instituto Nise da Silveira

Palestras, oficinas de teatro e dança, apresentações e o XV Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR) são algumas programações que acontecem na edição 2014 do Ocupa Nise, no Hotel e Spa da Loucura, no Engenho de Dentro, até o dia 7 de setembro. O evento é organizado pela Universidade Popular de Arte e Ciência (UPAC), rede sediada no Hotel Spa da Loucura que trabalha com formação de agentes de cultura e de saúde buscando realçar os pontos comuns entre a arte e a ciência defendidos nos trabalhos da psiquiatra Nise da Silveira.

Até meados do século XX, os tratamentos utilizavam eletrochoque, intervenções cirúrgicas e imposição da disciplina. Com a reforma proposta por Nise da Silveira, os métodos coercitivos aos quais os pacientes eram submetidos no antigo Hospital Psiquiátrico Pedro II foram abolidos. Ateliês de pintura e modelagem foram criados com o objetivo de resgatar vínculos emocionais e sociais. Hoje o antigo hospital atende pelo nome de Instituto Nise da Silveira e abriga cerca de 200 internos, a maioria abandonada pela família.

Desde 2012, a realidade desses pacientes mudou com a chegada de Vitor Pordeus, médico imunologista e ator. Teatro, dança e diversas expressões artísticas passaram a fazer parte do tratamento oferecido. As melhoras são visíveis, a ponto de Vitor conseguir o apoio da direção do Instituto, que cedeu um andar desativado para a continuidade dos trabalhos culturais.

Cultura, diversão e arte no coração da Zona Norte

E assim nascia o Hotel e Spa da Loucura, como explica Gisele Andrade, uma das colaboradoras do projeto. “Em uma parte da ala, temos beliches e camas individuais, como em um hotel mesmo, onde artistas brasileiros e estrangeiros podem se hospedar. Em troca, devem fazer uma contribuição na forma de shows, debates e oficinas, por exemplo. Em uma outra parte da ala, coletivos de artistas começaram a desenvolver suas atividades. Eles podem ocupar o espaço à vontade mas, em contrapartida, devem compartilhar seu conhecimento com a casa”, afirma.

Desde então, o hotel funciona como um chamariz para os projetos culturais da região, atraindo não só os próprios pacientes, chamados de clientes, mas também toda a comunidade do entorno. “O objetivo do Hotel e Spa da Loucura não é a atenção exclusiva à saúde mental. Se focarmos só nisso, os pacientes não estarão sendo incluídos socialmente, e sim excluídos. Então os trabalhos artísticos realizados são voltados para todo e qualquer ser humano, seja ele interno ou morador da comunidade”, explica Gisele, que comemora a conquista de mais um andar para o hotel. “Este novo andar foi, recentemente, grafitado por mais de oitenta artistas, muitos dos quais conhecidos internacionalmente, como Toz, Marcelo Ment, Bruno Bogossian e Carlos Bob. Antes éramos só mais um hospício, mas hoje somos um centro cultural super pulsante em Engenho de Dentro, no coração da Zona Norte”, afirma.

A cultura como remédio

Gisele relata que a melhora dos pacientes é significativa. “Temos um paciente que há cerca de um ano não falava e tinha dificuldades para se locomover. Na primeira vez que estive com ele, tentou me agredir. Hoje ele caminha com muita desenvoltura, fala várias palavras, abraça e beija as pessoas, coisas que há pouco tempo não conseguia fazer. A convivência, o amor e o acolhimento são os grandes trunfos deste projeto, pois dão resultados”.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Paredes do Instituto ganham cores  (Crédito: Divulgação)

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