O desejo em forma de arte de Fernando de La Rocque
Individual do artista na Galeria Artur Fidalgo debate o sagrado e uso subversivo do corpo e do sexo
Uma das 30 obras do artista Fernando de La Rocque, que compõe a mostra Tudo que é mais sagrado, em exposição a partir desta sexta-feira (08/08) na galeria Artur Fidalgo, em Copacabana, é uma colorida mandala aparentemente trivial. Ao longe, parece simples como um mosaico, mas de perto, o traço dá forma à corpos de homens e mulheres em uma orgia de cores e surubas camufladas conforme o olhar passa e se aproxima da pintura.
“Sexo é lindo. Toda forma de sexo é linda.”, diz De La Rocque, que recebeu no mês de junho o prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio pelo Paço Imperial do Rio de Janeiro pelo trabalho no azulejo “Mulheres São Flores, Homens são Borboletas”. O pintor é uma das grandes apostas das artes plásticas no país. Além das obras de De La Rocque, também estarão em exposição as obras de Cabbet Araújo, na Retrospectiva – Retratos da Noite Carioca e Estado de sítio, do poeta e artista visual Omar Salmoão. Sob a curadoria de Vanda Klabin, a individual de De La Rocque se estende até o dia 29 de agosto e reúne pinturas em azulejo e telas, um bordado e uma escultura que são desdobramentos da série “Colônias”, iniciada em 2007.
A liberdade e a expressão da coragem por meio da subversão sexual, explica Fernando em entrevista, são temas recorrentes dos trabalhos que estarão em exposição. ”A liberdade está em cada um, que se permite ser e fazer o que quer. Não podemos ser apenas o que esperam que sejamos, é preciso forçar limites, mostrar personalidade, ou nos tornamos clones, a serviço da máquina industrial. A autocensura é a pior censura que um artista pode sofrer.”
Como você definiria o conjunto de obras selecionadas que compõem a mostra ‘Tudo que é mais sagrado’?
São obras que, vistas de longe percebem-se padrões orgânicos geométricos que lembram biomorfologia, cosmogonia, coisas invisíveis aos olhos por serem muito grandes ou muito pequenas, e quando nos aproximamos das obras, percebemos em todas elas orgias coloridas com formas humanoides. Escolhi esse título para a exposição porque essa coisa de sagrado, popularmente nem sempre é relacionado a religião, embora alguns quadros como “de perto todo ponto é irregular”, “maria-sem-vergonha” e “explosão de explosões” lembrem ícones bizantinos, arte sacra, religião. “Jurar por tudo o que é mais sagrado”, que é dito popular, sugere uma conotação que coloca o termo como sinônimo de “importante”. Arte é a religião do artista, porque é uma entrega total, e é cheia de rituais que reúnem pessoas com um propósito nobre. Sagrados são os encontros de pessoas, de linhas, de materiais.
Quando esta série começou a ser produzida?
Eu desenho orgiazinhas desde criança, mas acho que posso considerar o início “intencional” da série, batizada “Colonias” em 2007, quando produzi o azulejo “Colonias”. Depois deste, em um período de 6 anos, fiz outros 4 azulejos com desenhos diferentes, pinturas, poemas, anotações, videoarte, bordado e cerâmica, tudo bem amarrado com o tema, são desdobramentos de uma obsessão aplicada.
No mês passado, seu novo azulejo “Mulheres São Flores, Homens são Borboletas” ganhou Prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio pelo Paço Imperial, no Rio de Janeiro, onde ficou em exposição ao lado de seus outros trabalhos em azulejos. Como você avalia o reconhecimento da sua obra por conta desse prêmio?
É bom para o trabalho, é bom pra mim. Bom ver meu trabalho ao lado de obras de denso conteúdo, de artistas que admiro. Lamento que o Paço tenha ficado fechado em 90 % do tempo que essa riquíssima exposição ficou hospedada. Prêmios, exposições institucionais, internacionalização, projeção midiática, tudo isso impulsiona o trabalho, e consequentemente o artista precisa dar conta da demanda, isso é estimulante, nos obriga a pensar, e produzir mais, e nos aprimorar. Foi meu primeiro prêmio, pretendo me inscrever em outros editais.
Ao longo dos anos, você vem fazendo um passeio por um caminho que une a desconstrução que propõe a arte contemporânea e as possibilidades de erotismo do corpo humano. Em Blow Job foi assim, e agora também com as figuras dos azulejos em “Tudo o que é mais sagrado”. A escolha pela estética erótica foi proposital ou surgiu naturalmente durante o processo criativo destas obras?
É natural. O que eu faço é o que flui em mim, e eu só faço o que consigo fazer. Para aprimorar, e expandir as possibilidades do trabalho, é preciso buscar técnicas novas, aprender. O processo criativo é isso, é descobrir como se faz, e fazer. O “fazer” é a coisa em si. Obras são o resíduo desse processo. Interessante você falar de duas obras diferentes e categorizar como “erotismo”, porque a série Blow Job, apesar do nome, não tem o erotismo em sua temática, mas tem algo de erótico na técnica: “trabalho de sopro”, a técnica é transferir para o papel de algodão a tinta que está suspensa na fumaça, e aproximando a boca do papel, soprar a fumaça das flores em brasa. E é arte corpórea, tem meu dna ali, minha saliva, a conotação está presente. Já a série Colonias, tem o erotismo na representação, nas formas das “surubas”, e quando eu estou trabalhando nisso, fico viajando nas orgias, me excito, meu corpo reage. Mas essa estética flui, eu apenas procuro não me autocensurar. A autocensura é a pior censura que um artista pode sofrer.
O uso do sexo na arte é ao mesmo tempo libertador, porque invade um conceito ainda compreendido como sujo ou subversivo; e também banal, porque é há séculos descrito em obras de arte, pinturas, escrituras etc. Como você avalia essa contradição?
Sexo é lindo. Toda forma de sexo é linda. Eu diria que desde os tempos das cavernas já existiu no Homem a necessidade da afirmação disso. Nosso condicionamento educacional, cultural e religioso nos dá uma visão amendrontadora daquilo que é mais simples e belo na natureza, que é nossa natureza erótica. Arte no erotismo, erotismo na arte, isso sempre existiu e continua forte. E ao mesmo tempo, um moralismo crescente no comportamento social da massa, via mass media, via religiões. Mas dá pra ser “subversivo” e sutil, sem estardalhaço, na “maciota”, contextualizando bem as ideias.
De que forma o sexo e maconha, já utilizados nos seus trabalhos, representam e se relacionam à ideia de subversão e a busca pela liberdade?
Viver no Brasil me proporciona liberdade de criar arte com maconha e com representação de sexo, o que não aconteceria se eu estivesse na Arábia Saudita ou na China, ou pelo menos seria bem mais difícil, eu poderia sofrer ataques de radicais políticos ou religiosos, poderia ser censurado, ou preso. O Brasil é um campo propício para o exercício da beleza, e dessa tal liberdade. Mas a liberdade está em cada um que se permite ser e fazer o que quer. Não podemos ser apenas o que esperam que sejamos, é preciso forçar limites, mostrar personalidade, ou nos tornamos clones, a serviço da máquina industrial.
———-
Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: A obra O cortejo do pavão, de Fernando De La Rocque, é uma das mandalas em exposição na Galeria Artur Fidalgo, em Copacabana (Crédito: Divulgação)