A Flip pelo olhar de quem faz arte em Paraty

Artistas que vivem no balneário contam quais as suas melhores lembranças da festa, e enumeram o que mudou – para melhor e para pior – desde que o burburinho dos livros se instalou, há 11 anos

Salman Rushdie batendo perna alegremente pelas ruas em pé de moleque, Adélia Prado levando a plateia às lágrimas, António Lobo Antunes sabotando sua fama de ranzinza com piadas irresistíveis. Os turistas que costumam participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) partem, ao fim do evento, repletos de momentos como esses, inesquecíveis. E também de queixas, claro. Filas nos restaurantes, preços altos, a dicção dos debatedores e até a dificuldade de encontrar uma festinha para balançar o esqueleto ao lado de seu escritor predileto (os rega-bofes durante a Flip, em geral, são restritos a convidados). Todos os anos, nas declarações para os jornais e nos botequins, nas ruas e no transporte de volta, os visitantes desfilam suas alegrias e lamentos, enquanto deixam a cidade. Mas, e quem vive e trabalha no balneário? Como os artistas paratienses enxergam a trajetória da festa literária? Quais momentos elegem inesquecíveis?

“A primeira Flip, quando tudo começou.” Dalcir Ramiro, o ceramista mais conhecido da cidade, tem na ponta da língua sua memória favorita dentre as 11 edições da festa. Paratiano legítimo, ele estava lá quando centenas de pessoas se espremiam no auditório da Casa de Cultura, para a surpresa aliviada do grupo de idealizadores, que ainda não estava convicto de que aquilo poderia dar certo. O historiador britânico Eric Hobsbawm provocou furor equivalente a um popstar, naquele que é considerado um dos momentos-símbolo da festa. O carinho de Ramiro por aquela primeira edição, no entanto, passa ao largo das palestras – o que o encantou foi como a ocasião “esbanjava esperança”. “Tinha uma expectativa enorme na comunidade paratiana sobre o que aquele evento iria representar para nós. Havia uma espécie de gana. Todo mundo queria ver o que estava acontecendo, e nos espremíamos na Casa de Cultura, sentados até no chão [na primeira edição da festa, era lá que aconteciam os debates]”.

O escritor Júlio César de Jesus Freire, conhecido como Júlio Paraty, é outro a citar com alegre nostalgia a primeira Flip, naquele longínquo 2003. Sua memória preferida da Flip é o discurso inaugural da agente literária Liz Calder, mentora do evento. “Ela anunciava uma grande novidade. Ouvir uma estrangeira falando daquele jeito da nossa cidade, com tanta graça e sensibilidade, foi um momento inesquecível.”

Das quentinhas para os poemas

A lembrança que o cantor, compositor e violonista Luís Perequê elege como especial é mais recente. Na edição 2013, ele abriu o show de ninguém menos que Gilberto Gil. “Não dá para esquecer, não é?”, brinca.

Mas é provável que ninguém tenha história mais fantástica que a de Flávio Araújo. Nascido na comunidade caiçara de Praia do Sono, trabalhava como motoboy quando soube que a Flip seria lançada. Aficionado por literatura, deu um jeito de conseguir conciliar as entregas às palestras, ao menos em parte: mudou o itinerário que fazia com sua moto, para conseguir passar perto da Tenda do Telão e espiar as palestras. A tática funcionou até 2006, quando um pequeno acidente mudou o rumo da história. Na pressa, acabou quase atropelando o artista bitânico Benjamin Zephaniah, cujo escopo de trabalho é difícil definir: romancista, performer de dub, autor de poesia infantil, DJ de reggae, dramaturgo, apresentador, ativista etc. “Por pouco não atropelei um dos nomes mais importantes da Flip. Imagine: eu ia ficar famoso por passar por cima de um cara que é tanta coisa”, comenta Araújo.

O episódio acabou se revelando “iluminado”. “Desisti de tentar atropelar escritores com minha moto cheia de quentinhas”, brinca o morador de Paraty. No mesmo ano conheceu o escritor Ovídio Poli Junior, que o incentivou a lançar seu primeiro livro. A coletânea de poemas Zangareio foi o livro de estreia do selo Off Flip. Hoje, Araújo já usa “poeta” como crédito principal: fez leituras em Cuba e no México, participou de eventos em Pernambuco e no Amapá. Além disso, seu livro está sendo vertido para o inglês pela poetisa americana Rachel Morgenstern-Clarren.

Quem também tem uma história de reviravolta associada à Flip é o fotógrafo italiano Giancarlo Mecarelli. Ele estava voltando de uma temporada na Europa, em 2004, quando foi passar dois dias no balneário, que conhecera de forma breve, alguns anos antes. Ele não imaginava que a cidade estava em plena festa literária. Mas adorou. Tanto que decidiu morar lá.

“Havia um clima de efervescência, algo de especial no ar”, justifica. Em 2005, inaugurou a galeria Zoom, que logo passou a concentrar badaladas exposições de fotos. No ano seguinte, lançou o Paraty em Foco, considerado um dos principais festivais de fotografia do país e um dos dez mais importantes eventos no mundo, segundo a revista Art Time.

Nem todos, porém, guardam com carinho sua lembrança inesquecível de Flip. Ovídio Poli Junior, que organiza a programação literária da Off Flip, não esquece o ano em que teve de viajar a trabalho, na véspera da festa. “Foi muito triste para mim pegar o ônibus de madrugada e deixar a cidade. Hoje fico contente em estar todos os anos em meio a toda essa movimentação em torno da palavra, arte que sempre ficou relegada ao esquecimento no Brasil.”

O melhor e o pior

A forma como a Flip vem amadurecendo, em suas últimas edições, a articulação com os artistas de Paraty é alvo de elogios dos entrevistados. Alguns deles, porém, reivindicam mais espaço, na festa, para os artistas locais. “Eu já expus obras minhas e de outros artistas nos jardins próximos à Tenda Principal, o que deu grande visibilidade ao nosso trabalho. Mas conquistar esse espaço não foi fácil. A Flip deveria abraçar com mais força esse tipo de iniciativa”, aponta Ramiro.

Já Perequê narra como a festa tem ampliando, a cada ano, o diálogo com as artes paratienses. “No passado, eu fiz muitas críticas à Flip. Mas a verdade é que os artistas locais, hoje, sabem que se trata de um evento maravilhoso. Vários outros festivais surgiram a reboque dele, ampliando o turismo, que é uma de nossas principais atividades econômicas. Os problemas que persistem em Paraty não têm nada a ver com a Flip, e sim com a gestão política e o comportamento equivocado dos empresários.”

Mecarelli tem opinião parecida. “A Flip tem colaborado muito para a cidade. Paraty se voltou para o mundo com a autoestima renovada depois que passou a sediar a festa, que serviu de estímulo a outros festivais. O que falta em Paraty é um trabalho social mais profundo. Mas isso não tem a ver com o evento literário, que já faz sua parte.”

Araújo destaca as atividades que a Flip mantém, de forma contínua, com as escolas da região. “São as crianças que darão, em algum tempo, as melhores respostas sobre o está sendo construído agora. Acredito que a parceria com o poder público na promoção da leitura e da distribuição de literatura há de criar uma cidade de leitores, pois é uma construção lenta, porém duradoura e cíclica.”

“A Flip inseriu a cidade no calendário cultural internacional e desencadeou em âmbito local e nacional uma transformação decisiva no que se refere ao reconhecimento social do escritor”, descreve Ovídio. “Em nosso país, a literatura sempre foi a mais desprezada das artes, e a Flip contribui de forma impactante para mudar esse cenário. A afluência de pessoas é muito grande nesse período e às vezes há problemas na infraestrutura da cidade: lembro de uma vez em que fizemos a entrega do Prêmio Off Flip à luz de lampiões porque um transformador explodiu. Aqui a gente sempre dá um jeito de contornar os problemas. A terra é de piratas, indígenas, quilombolas e caiçaras, teve de se reinventar para conseguir sobreviver com parte de suas características originais até os dias atuais.”

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: O músico Luis Perequê (acima), o artista Júlio Paraty e outros moradores da cidade relembram momentos marcantes da edições do festival literário  (Crédito: Diadorim Ideias)

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