Daqui ninguém me tira

Turistas sul-americanos que vieram para Copa do Mundo e estão alojados no Terreirão gostaram tanto que não querem deixar a cidade

Desde 20/06, os rostos de Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Donga e Tia Ciata ganharam a companhia de ídolos da seleção latino-americana. Com a Copa chegando ao fim, o sentimento que paira entre as mais de 200 barracas de camping no Terreirão do Samba, na Praça Onze, Centro do Rio, é de saudade antecipada. Chilenos, uruguaios e argentinos não querem voltar para casa.

O argentino Miguel Perez, de 55 anos, estava com o trailer estacionado na praia de Copacabana. Passou o aniversário lá, fez churrasco, com música e futebol, e acabou realocado para o Terreirão. Nada a reclamar. Gostou tanto que montou base e só fez pequenas viagens durante os jogos. Em uma delas, esteve em Arraial do Cabo. Durante um passeio de barco, reencontrou, por acaso, um velho conhecido da região, irmão de uma namorada que teve por seis meses em 1979.

Da primeira vez, Perez embarcou para o Brasil um ano depois de sair do serviço militar argentino e foi parar na Baixada Litorânea. Sem dinheiro para voltar para seu país, trabalhou como pescador e se enamorou. Quando juntou dinheiro, voltou para casa, mas prometeu retornar. Voltou, 35 anos depois – ainda por amor, mas pelo futebol. Como em 78 estava no quartel, não pôde assistir à Copa na Argentina e esperou por muito tempo para realizar seu sonho.

“Sou apaixonado por futebol. Sonhava em poder acompanhar uma Copa do Mundo, como acompanho meu time na Argentina. Todos estão juntos aqui com a mesma energia, não dá nem vontade de ir embora”, confessa Perez que torce para Juventud Antoniana e já aglomera mais de dez novos amigos argentinos ao redor de seu pequeno trailer. Apesar da vontade de ficar, ele parte logo depois do que acredita ser “a vitória”, já que três filhos e esposa o esperam em Salta, sua terra natal.

Os mais jovens, sem filhos e sem laços matrimoniais, não querem nem saber como e quando a Copa acaba. A Colômbia saiu nas quartas de final, contra o Brasil, mas o colombiano Johan Camilo Pinilla, de 22 anos, não saiu do Rio de Janeiro. A Venezuela nem para Copa veio, mas o venezuelano Italo Zavata, de 35, marcou presença no Terreirão. Os dois costumam jogar altinha, com mais dois argentinos, Ezequiel Castellano, 27, e Ramiro Mingorane, 23.

“Não temos rivalidade nenhuma. É muito bom poder fazer novos amigos e assistir os jogos em clima de descontração. Não comprei nenhum ingresso, aproveitei o evento para conhecer o país. Quando o Terreirão fechar, sou capaz de voltar para praia”, brinca Castellano que assistiu as partidas na televisão de vinte polegadas em uma das lanchonetes do espaço.

O lugar é equipado com vendas, para oferecer aos turistas desde o café da manhã até às festas pós-jogos. A vendedora e vice-presidente finaceiro do Terreirão, Kátia Barbosa, recebeu reforço uruguaio em sua cozinha. O gastrônomo Giani Caregnani, de 23 anos, saiu de Colônia do Sacramento acompanhado de um amigo e em cima de uma bicicleta.

Demorou seis dias para chegar na fronteira com Rio Grande do Sul e mais outros cinquenta e cinco para chegar ao Rio de Janeiro. “É interessante perceber o caminho climático do sul ao sudeste do país. Passei por muitos lugares, mas o que fica mesmo é o carinho das pessoas que encontro no percursso.”

É o caso de Kátia, já chamada de mãe, pelo uruguaio. Ele chegou manso e pediu um papelão para dormir – sem documento, perdido no caminho, sem a bicicleta, deixada em Búzios com o amigo, e sem muito dinheiro. Ela adotou na hora. Hoje, Giani ajuda na comunicação em espanhol com os campistas. As habilidades gastronômicas são diferencial também. Em pouco tempo, ele aprendeu a fazer feijão do jeitinho carioca, mas o que quer mesmo é preparar o prato Guiso de Lenteja, típico do Uruguai.

Quando o passaporte chegar, Caregnani seguirá viagem. A ideia é continuar subindo o Brasil para descer pela América Latina até chegar em casa. Muito chão pela frente e tudo de bicicleta. Apesar da longa jornada que ainda está por vir, ele já escolhe Trindade, em Paraty, como um dos lugares mais bonitos que viu na vida.

O Rio de Janeiro encantou também os peruanos da família Ventura. Os cinco formam a banda Generacíon Papacha e são artistas de rua em São Paulo, onde vivem desde 2009. Sem seleção na Copa, eles vieram para a cidade com vontade de mostrar o trabalho nas ruas da Lapa, praças e calçadões da praia. Os instrumentos típicos charangocajónquena ezamponha encorpam músicas de The Beatles, Creedence, Alceu Valença, Roberto Carlos, Zezé de Carmago, entre outros.

O vocalista é Awky Mynay, caçula de 11 anos da família. “Eu gostei de vir pro Rio porque é a chance de mostrar nosso talento pro mundo que está aqui. Fomos muito bem.” Depois de 20 anos expondo nas ruas a cultura peruana, o pai Isidoro Ventura e a mãe Elizabeth Castillo dizem que acharam no Rio a receptividade e alegria que não haviam encontrado em São Paulo. Ainda estão na dúvida, mas cogitam a possibilidade de mudança para as terras cariocas.

O Terreirão encerra suas atividades como camping com o fim do Mundial, no próximo domingo 13/07,  e todos vão precisar sair dali, seja para onde for.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Diferentes nacionalidades convivem sem rivalidade e aproveitam o clima de futebol.  (Crédito: Yzadora Monteiro)

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