A cultura como resistência
Exposição na Zona Portuária relembra momentos do golpe militar no país
Em abril de 1964, o Brasil amanheceu sob um regime militar que durou vinte anos e implantou uma ditadura que marcou a história do país. Passado meio século, no Cais do Porto, a exposição O Golpe-50 anos depois traz uma retrospectiva do período com filmes, peças, fotografias e regisros nos meios de comunicação. Até o dia 13 de abril, o visitante é transportado para a atmosfera cultural dos anos 60 no Brasil e no mundo, dentro do Armazém da Utopia.
Os cineastas Silvio Tendler, Camilo Tavares e Renato Tapajós são alguns dos nomes que estarão no centro da roda para debater, em prol da memória, seus documentários. Em destaque, O Dia que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares, volta os olhos para a preparação dos Estados Unidos, desde 1962, do golpe de estado, no Brasil. O filme, premiado na França, nos Estados Unidos e no Brasil, traça uma linha que parte da deposição do presidente Jânio Quadros até o sequestro do embaixador americano, Charles Burke Elbrick, em 1969. Os Militares da Democracia, Jango e Os Advogados Contra A Ditadura, de Silvio Tendler; e Em Nome da Segurança Nacional e O Fim do Esquecimento, de Renato Tapalós, também fazem parte da programação com mais de vinte títulos.
Para o curador do projeto, Luiz Fernando Lobo, “é preciso lembrar dos nomes dos mortos e desaparecidos da ditadura. Passem quantos anos for, eles não podem ser esquecidos. É uma homenagem a estes e também aos que acreditaram que era possível e necessário transformar o mundo, que morreram lurando por um sonho.”
A censura à movimentação artística do período atingiu várias produções, não só no cinema e na música, como também no teatro. Zé Keti, Nara Leão e João do Vale entraram em cena em dezembro de 1964 para a montagem de Opinião, do grupo homônimo. Na mostra, os atores Renato Brás, Camila Costa e Maurício Tizumba revivem o que ficou conhecido como referência de teatro político. Considerada como a primeira reação cênica, a peça é filha do Teatro de Arena, que encenouEles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1958 – também no palco da exposição.
Luiz Fernando Lobo revela que a escolha foi difícil. “Existe muito material bom da época. É quando percebemos que não se produz uma cultura tão rica por acaso. Aquela geração foi muito fértil porque se colocou na luta. Tempos de crises são tempos de contradições e crescimentos. A arte ganhou um novo significado como instrumento de comunicação forte com a sociedade.”
Memória, justiça e verdade
Sobre estes três pilares, a Companhia Ensaio Aberto monta o espetáculo inédito no Brasil Sacco e Vanzetti para a exposição, dia 12/04. Sob direção de Luiz Fernando, a encenação parte do célebre caso de Nicola Sacco e Bartolomeu Vanzetti, sapateiro e peixeiro, imigrantes italianos, acusados e condenados injustamente por assassinato, em 1921, e mortos na cadeira elétrica em 1927, nos Estados Unidos.
Nos sete anos que Sacco e Vanzetti permaneceram no presídio americano, a classe operária brasileira se manteve solidária. No Rio de Janeiro os portuários e os operários têxteis sempre estiveram à frente destas mobilizações, realizando atos e greves. Um dos atos públicos aconteceu nas escadarias do Theatro Municipal, reunindo mais de 5 mil manifestantes.
“Não por acaso escolhemos Sacco e Vanzetti para ser nossa primeira criação a ser realizada na nossa nova sede. Tem muito a ver com as questões da verdade e justiça, além de reabrir certos dossiês do passado para pensar nas lutas no futuro”, diz Lobo.
———-
Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Imagens de acontecimentos importantes no período da ditadura fazem parte da mostra. (Crédito: Divulgação)