Cinema do real
Festival É Tudo Verdade apresenta 77 documentários de 26 países de hoje a 13 de abril
“No mundo todo o documentário é um lixo pequeno”, disse o Eduardo Coutinho a uma estudante que o entrevistava em 2011, comentando o espaço reduzido do cinema documental no mercado audiovisual. A ácida crítica do mestre não combina com os grandes tesouros que ele legou ao cinema nacional nem com o É Tudo Verdade, festival que chega à 19ª edição homenageando Coutinho e pondo em pauta a diversidade e a vitalidade do documentário, mostrando que o gênero vem conquistando um reconhecimento cada vez maior.
O evento exibirá 77 documentários de 26 países em sessões gratuitas no CCBB, no Espaço Itaú, no Oi Futuro Ipanema e no Instituto Moreira Salles, de hoje a 13 de abril. “É um ano de renovação e de homenagens”, destaca Amir Labaki, fundador e diretor do festival. “Há um inédito predomínio nas mostras competitivas de cineastas que jamais haviam antes disputado o É Tudo Verdade. Nota-se ainda uma safra que aposta em novas estratégias narrativas não-ficcionais. As retrospectivas celebram pela primeira vez uma cineasta brasileira, Helena Solberg, e um diretor de origem asiática, o japonês Shohei Imamura”, diz.
As homenagens não param por aí: “Não poderíamos deixar de celebrar o legado de Eduardo Coutinho. E temos o privilégio de com um único filme,Posfácio – Imagens do Inconsciente, homenagearmos duas grandes personalidades da cultura brasileira do século 20, a doutora Nise da Silveira e o diretor Leon Hirszman”. A obra de Coutinho será celebrada com a exibição de Sobreviventes da Galileia, que mostra o retorno de Coutinho a Galileia quase 30 anos após o lançamento de Cabra Marcado para Morrer, e de A Família de Elizabeth, que mostra a personagem central do mesmo clássico com 88 anos.
No evento, 19 produções farão sua première mundial. Entre elas, destacam-se De Gravata e Unha Vermelha, de Miriam Chnaidernamm, sobre a afirmação da identidade transexual no Brasil.Los Hermanos – Esse é só o começo do fim da nossa vida, de Maria Ribeiro, que mostra os bastidores da turnê de retorno da banda,Ruptura (EUA), de Pamela Yates, que retrata um grupo de economistas que se une a mulheres pobres da América Latina para aplicar projetos para erradicar a pobreza e 20 centavos, de Tiago Tambell, que registra as manifestações de rua que aconteceram em São Paulo em junho de 2013.
Segundo Labaki, o Brasil passa um momento positivo e promissor para o cinema documentário: “O documentário ficou mais próximo de todos nós, como espectadores e eventuais realizadores, muito devido ao impacto democratizante da tecnologia digital. A produção cresceu e ampliou sensivelmente sua presença em salas de cinema, com cerca de um terço das estreias nacionais dos últimos cinco anos sendo de documentários. Também nas universidades aumentou enormemente o interesses pelos estudos em torno do cinema não-ficcional. Em suma, o documentário brasileiro alcançou merecidamente um novo patamar”.
O Festival É Tudo Verdade – que pela primeira acontece sem a presença de Coutinho e suas “baforadas”, lamenta Labaki – é um dos grandes responsáveis pelo aumento do público e do reconhecimento do gênero. “Acho que ao criarmos, há quase duas décadas, uma janela nobre anual para a nata da produção de documentários do Brasil e do mundo e colaboramos para tornar mais acessível o gênero e ajudarmos a fixar a imagem do documentário com um gênero cinematográfico tão diverso e sedutor quanto o filme de ficção. Além disso, por meio das retrospectivas, buscamos auxiliar na formação pelo público de um repertório histórico documental mais amplo”, diz Labaki.
O evento acontece simultaneamente no Rio e em São Paulo e no Rio. Em seguida, começam as sessões em Campinas, de 22 a 24 de abril, Brasília, de 30 de abril a 4 de maio, e Belo Horizonte, de 24 a 27 de julho.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: “Esse encantador mês de maio”, de Chris Marker, é um dos longas do festival. (Crédito: Divulgação)