A cultura do Rio ganha novos territórios

Edital de Difusão e Intercâmbios, que está sendo realizado pela Secretaria de Estado de Cultura, amplia horizontes de projetos fluminenses

Entre este mês de fevereiro e o próximo mês de abril, artistas do Rio de Janeiro estão viajando para diferentes destinos do mundo. O objetivo é mostrar o que vem sendo produzido em solo fluminense e promover a troca cultural entre criadores. Ao todo 37 projetos nas áreas de artes plásticas, música, audiovisual, teatro, dança e literatura foram selecionados pelo edital da Secretaria de Estado de Cultura Difusão e Intercâmbios Culturais 2013/2014. Conheça alguns dos projetos selecionados e suas respectivas histórias.

Conexão Rocinha – Nova York

A perseverança da bailarina Ana Lúcia Silva fez com que ela e mais sete pessoas da companhia viajassem quase 8 mil quilômetros de distância de sua sede, uma escola de dança Afro na Rocinha. Com projeto contemplado, alunos de 12 a 19 anos tiveram a oportunidade de conhecer a Alvim Ailey American Dance Theater, pioneira em dança negra em Nova York. Foram dez dias enfrentando um frio de três graus abaixo de zero para o intercâmbio cultural entre jovens brasileiros que frequentaram uma das principais escolas de dança americana.

Fundadora da Cia. Livre de Dança da Rocinha, há 15 anos, Ana vive para a dança e sonha em ver as crianças da comunidade terem oportunidades na área. “Na viagem, os alunos puderam entender como funciona uma escola de dança estruturada. Ao conhecerem o outro lado, passam a dançar não mais como segunda opção e sim como objetivo.”

Com as malas cheias da viagem que terminou esta semana, dia 17/02,  Ana trouxe uma carta da escola Alvim Ailey com duas conquistas: uma bolsa para Lara Vitória, de 14 anos, fazer intercâmbio de dança no verão e uma bolsa pedagógica para ela se especializar no estilo moderno Horton, criado pro Lester Horton.

Ana tem em Lara a sua nova aposta. Premiada com o título de Bailarina Revelação do Movimento Art Carioca, “a menina tem a dança no sangue”. A avó de Lara dançou com Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra do Theatro Municipal. “A Lara é incrível e linda. Uma loira de sardas dançando Afro com movimentos precisos e muito talento”, conclui a professora.

Uma outra porta que foi aberta durante a viagem foi a possibilidade de trazer professores americanos para a Rocinha. “Eu não vou medir esforços para isso”, diz entusiasmada.

Zé Ninguém no velho continente

Um homem nordestino sem camisa e de chinelo chega no Rio de Janeiro, perdido, com seu cão viralata, à procura de sua amada. Zé Ninguém é uma criação de Alberto Serrano, conhecido como Tito, que está estampado nas ruas da cidade em forma de quadrinho grafitado. Virou livro em 2011, vai virar aplicativo para celular em breve e ainda ganhará uma nova publicação até o final de 2014.

O projeto ganhou o edital para tornar viável a participação do personagem na London Book Fair, em abril, uma feira de livros britânica. É na sessão de quadrinhos que o livro Street Comics Rio de Janeiro, de Tito, se encaixa. “Grande parte do problema é distribuição, fazer o livro chegar nos lugares. O meio digital alcança o mundo de forma instantânea. Quero criar uma rede de fãs do Zé Ninguém”, explica. Com versões em inglês e português, o app será gratuito na AppleStore.

A feira servirá para fazer contatos, mostrar o trabalho e absorver conhecimento. “É um passo importante para carreira do Tito. Depois de Nova York e Rio, é legal estar na Europa”, apoia Flávia de Oliveira, esposa, designer e produtora do projeto. Em 2010, a revista Time Outpublicou uma matéria sobre o quadrinho. Assim, Paul Gravett, jornalista e curador na área,  conheceu o artista e abriu um espacinho na galeria para expor o trabalho de Tito.

“Quando vou a eventos fora, gosto de aproveitar e pintar na cidade, fazer algo ativo. Não sei como são as leis para desenhar nos muros de lá, mas seria perfeito bombar na feira e ainda deixar um Zé Ninguém, no mínimo”, conta Tito. Na manga, ele guarda um personagem inédito, o Poor Paul, inspirado no maestro belga Stromae. O artista revela que foi feito para a capital da Bélgica, mas pode adaptar para Londres.

Tito saiu de Nova York para morar no Rio de Janeiro em 2001, onde está até hoje, ao lado da esposa. Ele é filho do Bronx, lugar do hip hop e, claro, do grafite.

Não deixe o samba ‘mourir’

Na música, o edital ajudou a levar a nova geração do samba de raiz para França. Os cantores e compositores Leandro FregonesiJoyce Cândido e Renata Jambeiro se apresentaram no MIDEM, evento do comércio musical de Cannes, que este ano homenageou o Brasil. No início de fevereiro, a equipe estava em Paris de mala, cuíca, repinique, cavaquinho, animação e cheia de vontade de fazer acontecer.

Responsável pelo projeto, Lizete Fregonesi trabalha há 10 anos com música e diz que a ideia é antiga: “Acho que o samba não ganhou lá fora a mesma repercussão que a bossa nova. Acho importante mostrar esta nova geração que respeita as tradições de um rítmo tão rico e importante da nossa cultura”. Os shows de 45 minutos (cada) fizeram com que os gringos caíssem no samba. Leandro Fregonesi, que tem músicas gravadas na voz de Beth Carvalho, como Chega e Samba Mestiço, entre outros intérpretes, diz que, em 10 anos de carreira, poucas vezes viveu momentos tão especiais.  “É difícil se apresentar para um público que conhece o mercado e é crítico, mas ultrapassamos a barreira da língua e o som original e o Brasil moveu o nosso coração.”

O refrão “o couro come no terreiro de sinhá maria”, da música inéditaSinhá Maria, de Leandro, foi cantado por pessoas de inúmeras nacionalidades com empolgação de quem entende a letra. “Voltei muito feliz, o samba tem um ritmo tão envolvente que animou todo mundo. A nova geração de sambistas é muito profissional, entende que o mercado da música mudou e são sempre muito bem recebidos”, sintetiza Lizete.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Depois de Nova York e Rio de Janeiro, personagem Zé Ninguém, de Tito, vai para Londres.  (Crédito: Divulgação)

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