Um clique para o conhecimento

Oficina de fotografia na Rocinha vira exposição na Biblioteca Parque

Um feirante segurando o peixe, alguém descansando, crianças jogando bola. Estas três situações podem ser imaginadas de várias formas, mas, na exposição Clique Popular, elas têm enquadramento, cor, foco e zoom assinados por moradores da Rocinha e próximos à comunidade. São 40 imagens de trinta alunos da oficina conduzida pelo fotojornalista João Roberto Ripper. O resultado de um mês de trabalho preenche as paredes da Biblioteca Parque da comunidade, a partir desta sexta-feira, dia 31/01.

O projeto surgiu de uma conversa entre Mariana Marinho, produtora da Dona Rosa Filmes, e a diretora da biblioteca Daniele Ramalho. “Existia uma demanda imensa de fotógrafos interessados em mostrar seu trabalho na biblioteca. Por isso, criei este projeto com o Ripper, com quem trabalho há muito tempo. É um espaço para a produção artística e talentos latentes”, revela Mariana.

Fotógrafos experientes e iniciantes participaram de um curso que abordou a comunicação como um direito humano e a fotografia como instrumento de informação. A grande reflexão se baseou na palestra da nigeriana Chimamanda Adichie, no TED de 2009, sobre o perigo de uma história única. Esteriótipos sobre a favela e áreas de risco e o cotidiano dos moradores  foram esmiuçados pelo professor a fim de construir novos olhares.

“As vezes um fato irreal é tão repetido que acaba virando verdade. O trabalho procurava buscar histórias diferentes, longe do erro e do defeito. Exploramos o belo, que é, na verdade, a realização do sonho”, explica João Ripper. Para chegar ao resultado, foram três horas de teoria diárias e saídas práticas nos finais de semana. O resultado, para Mariana, é gratificante e inspirador.

Trabalho em equipe

O sentimento que paira sobre a oficina é de companherismo e admiração. Alunos que admiram o mestre e mestre que admira os alunos. “Nessa galera, nem a felicidade é o limite. Foi uma atitude de ajuda mútua”, descreve Ripper que reconhece o processo de aprendizado interativo e em progresso.

Fernanda Muniz, 30 anos, teve a sua primeira câmera aos cinco, mas deixou de fotografar com o passar dos anos. A comerciária abriu mão do emprego e redescobriu a paixão pela fotografia. “Minha câmera estava guardada no armário, eu estava perdida na fotografia. No curso, aprendi com o Ripper que é mais do que linguagem técnica, é respeitar o fotografado e estabelecer proximidade. É mesmo a filosofia do bem-querer”, diz. Em sua obra entitulada Desapego, ela aparece com a cabeça raspada deitada no antigo cabelo.

Em outro autorretrato, a fotógrafa Rosângela se fotografou de batom vermelho atrás de um véu bordado transparente. Aos 60 anos, Rosângela criou a obra Além do Véu: Sensualidade e Mistério na Maturidade. Para ela, a diferença de idade, foi apenas mais um fator de crescimento no intercâmbio de experiências do curso.

Além de autorretratos, foi proposto um ensaio sobre pessoas amadas. Luan Citele registrou a avó feliz se exercitando em sua bicicleta. Felipe Paiva captou seu pai brincando dentro de casa. Renan Otto fez um “recorte de um novo cotidiano” ao fotografar o pai a caminho da sessão de fisioterapia.

“Uma oficina tem a função de despertar, mas também de provocar àqueles que querem dar continuidade. Esse aprendizado profissionaliza e tem o compromisso de abrir caminhos. Na favela, tudo é intenso, tem bastante diversidade e cultura, funciona como um terreno fértil para a criatividade. Quem quiser seguir a profissão, está com o caminho bem estruturado”, sintetiza João Roberto Ripper que, nas aulas, recebeu ajuda de Adriano Rodrigues, fotógrafo e seu ex-aluno no projeto Imagens do Povo, na Maré.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Flávio Carvalho fotografa quem ele diz ser o peixeiro mais feliz da feira. (crédito: Flávio Caravalho)

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