Verão de veteranos
Temporada de estreias de 2014 leva atores consagrados aos palcos cariocas
“O teatro para mim é uma coisa sagrada. Ele pertence ao ator”. São essas as palavras escolhidas por Eva Wilma para reverenciar sua segunda casa, os palcos, que a acolheram há 60 anos. Comemorando o marco de sua carreira e também o aniversário de 80 anos, a atriz é a estrela de Azul Resplendor, peça em cartaz no Sesc Ginástico a partir do dia 9/01. O espetáculo, com texto do peruano Eduardo Adrianzén, é apenas uma das muitas estreias do começo de 2014. No verão desse novo ano, destacam-se espetáculos com a participação de atores veteranos, com décadas de estrada, e a celebração de aniversário das companhias Dos à Deux e PeQuod, ambas comemorando 15 anos de criação.
Em Azul Resplendor, que teve temporada de sucesso em São Paulo, Eva Wilma vive Blanca Estela, grande dama afastada dos palcos há 30 anos. Quando Tito Tápia, um apaixonado fã vivido por Renato Borghi, surge implorando para que a estrela retorne ao teatro em uma peça de sua autoria, Blanca começa a recordar toda sua trajetória. Entre uma e outra memória, surgem personagens típicos do mundo da atuação, como o eterno coadjuvante cheio de mágoas, o diretor arrogante e prepotente, os jovens atores ambiciosos e esperançosos de um dia alcançar a fama. “Adrianzén transmite com graça e extrema agudeza os conflitos que se desenrolam no competitivo universo dos atores. Em uma época de culto às celebridades, o espetáculo trata de maneira crítica e bem humorada o ávido interesse que o público tem dedicado à vida privada dos artistas”, diz Borghi, que dirige a peça junto com Élcio Nogueira Seixas.
Outra homenagem ao árduo, mas apaixonante, mundo do teatro é o espetáculo O Canto do Cisne, que estreia em 3/01 no Espaço Sesc. Com texto original do russo Anton Tchekhov, a peça coloca o experiente Ednei Giovenazzi – cuja carreira se iniciou em 1953, com a peça O Sábio, de Joracy Camargo – na pele de Vassíli Vassílitch Svetlovíd, ator com 78 anos de vida, sendo 55 deles dedicados à arte de interpretação. Giovenazzi, que também celebra 60 anos de carreira, encontrou na peça dirigida por José Henrique a chance de renovar seu fascínio pela profissão. “Trata-se da história de um velho ator, em fim de carreira, com suas mágoas e suas alegrias. É um balanço de uma carreira de 55 anos. Fazer o personagem nos leva ao entendimento da sua alma e do mundo que o cerca, de suas aspirações e seus desencantos”, diz.
Em cena, o Giovenazzi tem a companhia de Pietro Mário, outro veterano, de 74 anos, no papel do ponto, o responsável por “soprar” as falas aos atores no teatro. “Além de servir como orelha para o protagonista, existe uma reflexão sobre as carreiras paralelas do teatro, dos profissionais que o público desconhece, mas que são tão essenciais à arte quanto o elenco. O Ponto nunca recebe aplausos ou flores, mas sua vida também se constrói de sucessos e fracassos, em paralelo a dos artistas. É um servidor anônimo da arte, quase um equipamento do teatro”, compara o diretor.
Mais aniversários
Duas importantes companhias de teatro, cada uma numa vertente própria, fazem aniversário em 2014. A comemoração começa no dia 8/01, com a estreia de Irmãos de Sangue no Centro Cultural Banco do Brasil. Assim, a Cia Dos à Deux traz para o país um espetáculo que angariou elogios em sua passagem por festivais internacionais – a crítica do francês Le Monde, por exemplo, qualificou a obra como um “teatro gestual, inventivo e poético que alcança um grande sucesso”. Irmãos de Sangue celebra os 15 anos do grupo.
No espetáculo, a companhia – conhecida pelo trabalho calcado nos gestos e movimentos, onde a palavra é apenas acessória -, conta a história de uma mãe e seus três filhos, numa celebração de laços fraternos e da memória. “Todas as memórias e lembranças dessa família fazem emergir os conflitos enterrados. A historia é feita de idas e vindas, de alternâncias entre o passado e o presente. A música original, de Fernando Mota, como nas criações anteriores de Artur Ribeiro e André Curti, vem alimentar e se fundir na dramaturgia gestual, sublinhando o não-dito e o amor fraternal incondicional”, diz o diretor André Curti. No palco, estarão André Curti, Artur Ribeiro, Cécile Givernet e Matías Chebel.
Também comemorando 15 anos, a Companhia PeQuod, de teatro de bonecos, se lança numa dupla aventura: Peh Quo Deux é um espetáculo adulto – pouco usual na trajetória da companhia, conhecida pelo trabalho infantil – e o primeiro com foco na dança. O novo trabalho estreia em 10/01, no Oi Futuro Flamengo.
Para montar essa experiência inédita, cinco artistas foram convidados para criar coreografias a partir de temas propostos pelo escritor Italo Calvino em Seis Propostas Para o Próximo Milênio. “A certa altura, a investigação da movimentação cotidiana nos pareceu sem grandes atrativos, ainda que não tivesse sido esgotada. A partir daí buscamos um trabalho que libertasse a companhia da simples gestualidade do dia a dia, e nos conduzisse a um estudo do movimento poético, o que nos levou à Dança. Assim nasceu o projeto Peh Quo Deux, um trocadilho com o nome da companhia e pas de deux”, explica o diretor Miguel Vellinho. Assim, Paula Nestorov fala sobre multiplicidade; Regina Miranda, sobre visibilidade; Cristina Moura debate a exatidão; Márcia Rubin, a leveza; e coube a Bruno Cezario traduzir em movimentos o tema rapidez.
Do musical ao texto clássico, teatro para todos os gostos
No começo de 2014, o Centro Cultural Banco do Brasil se destaca, sendo palco ainda de mais três estreias. Em 3/01, o público terá a chance de conhecer um pouco mais da trajetória de Cyro Monteiro, cantor cujo sucesso foi iniciado ainda nos anos 30, ao se apresentar no pioneiro programa de rádio do comunicador Ademar Casé. A carreira de Monteiro, falecido em 1973, se confunde com a história da música popular brasileira e será apresentada através de suas muitas canções no musicalAmigo Cyro, Muito Te Admiro!, espetáculo de Rodrigo Alzuguir com direção de André Paes Leme.
Os atores Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Milton Filho e Rodrigo Alzuguir se revezam no papel do personagem-título, mostrando desde sua infância em Niterói até o sucesso ao cantar na televisão com Elizeth Cardoso, e marcos como o dueto com Carmem Miranda e a conhecida implicância com o compositor Ary Barroso. “Cyro era um homem simples e um cantor refinado. O espetáculo pretende desenhar através da composição dos quatro atores esta personalidade discreta e meiga e, acima de tudo, destacar os sucessos que marcaram toda a sua trajetória”, diz o diretor. A dramaturgia foi toda escrita a partir de entrevistas do músico. “Cada palavra que o público ouvir em cena, portanto, saiu da boca de Cyro. O peso narrativo de cada episódio vivido, a gratidão pelos amigos, o afeto, as fobias, o humor, os devaneios – está tudo lá, do jeitinho que Cyro gostava de contar”, complementa Alzuguir.
No dia seguinte, 4/01, estreia Casarão Ao Vento, texto do jovem Francisco Alves que se sagrou vencedor da 6ª edição do projeto Seleção Brasil em Cena, voltado para a revelação de novos dramaturgos. A peça se centra em três irmãs, que, reunidas num velho casarão no final dos anos 1880, se preparam para seus casamentos, arranjados por seu pai. Presas devido a uma forte tempestade, as mulheres começam a questionar sobre sua vida e destinos. A direção é de Marcos André Nunes. Em clima mais lúdico, Fonchito e a Lua, adaptação do livro homônimo de Mario Vargas Llosa, estreia em 25/01. A trama, a primeira infantil assinada pelo vencedor do prêmio Nobel de Literatura, fala da descoberta do primeiro amor através do apaixonado Fonchito, que decide agarrar a lua para conquistar sua querida Nereida. A direção é de Daniel Herz, e a dramaturgia ficou a cargo de Pedro Brício.
No Teatro do Jockey, o universo masculino é a estrela da peça Homens, estreia do dia 10/01. Com base em textos do popular Caio Fernando de Abreu e dirigido e adaptado por Delson Antunes, o espetáculo coloca Romulo Estrela, Thiago Chagas, Marcelo Cavalcante, Hilton Vasconcellos, Kiko do Valle, Rogério Mendes, Iuri Saraiva e Pedro Queiroz no palco discutindo inseguranças e questões muitas vezes pouco abordadas pela ótica masculina. “Ninguém fala sobre o amor dos homens. Juntar amor e homens não é assim tão simples, parece que o homem não ama, não chora, não sofre, e isso não é absolutamente verdade. Pra mim é um orgulho trazer novamente a cena um espetáculo com um discurso tão rico”, diz Thiago Chagas, também produtor da montagem.
Ainda no dia 10/01, o Espaço Sesc abre seu palco para um clássico de Shakespeare, com a estreia de Ricardo III. Gustavo Gasparani encara o desafio de encenar o monólogo, em que passagens históricas da Inglaterra são o pano de fundo para debater questões muito atuais como a luta pelo poder e as intrigas e hipocrisias da política. “Quando o Sergio me propôs contar essa história para o público, sozinho em cena, me senti instigado pelo desafio. Todos os meus instrumentos de ator estão sendo exigidos no seu máximo, além da proposta remeter ao processo de criação dos meus textos e personagens”, diz Gasparani.
O espetáculo é dirigido por Sérgio Módena, que acredita que um monólogo é a única forma de contar apropriadamente a trama de Ricardo III. “A proposta de um único ator encenando uma história épica nos remete à infância, estágio poderoso onde nossa imaginação não conhece limites e nos permite criar todo um universo a partir da utilização dos objetos mais cotidianos”, diz. “E o teatro elisabetano é o teatro das convenções por excelência. É a palavra que leva o público aos mais diversos lugares e provoca toda a gama de sensações que o autor deseja. E acredito que essa proposta em Ricardo III serve muito bem a essa natureza lúdica de Shakespeare. Um único ator, ora conta a história e ora interpreta os personagens. Ele se transforma em rei, rainha, servo, carrasco e príncipe, num piscar de olhos. O ator indica o caminho e o público aceita a brincadeira”.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Os veteranos Ednei Giovenazzi e Pietro Mario em cena de O Canto do Cisne (crédito: Guga Melgar)