Chegou pra ficar

Segundo edital do funk é lançado no mesmo dia que o livro 101 Funks Que Você Tem que Ouvir Antes de Morrer, na Feira de Arte Urbana do Rio

Hoje, não há carioca que não conheça – e admire – o gingado dosdançarinos no Passinho. No festival Rio Parada Funk mais de 200 mil pessoas dançaram até o chão em suas três edições. O funk (e suas muitas ramificações) chegou para ficar, mas nem sempre o cenário foi tão positivo. Em 2011, a visão dessa cultura tipicamente carioca ainda estava em fase de reconstrução, e a Secretaria de Estado de Cultura (SEC) teve um papel fundamental em acelerar esse processo com o lançamento de um primeiro edital voltado especificamente para a comunidade funkeira. Agora, neste domingo, 15/12, a SEC continua nesta jornada, com o lançamento de um segundo edital, englobandoProjetos de Bailes e Criação Artística no Funk. O evento acontecerá dentro da programação da 1ª Feira de Arte Urbana do Rio (FAU), nos Arcos da Lapa.

A abertura do edital coincidirá com o lançamento do livro 101 Funks Que Você Tem Que Ouvir Antes de Morrer, um dos 25 projetos apoiados pelo pioneiro edital de 2011. “Eu me senti na obrigação de participar. Ainda que não tivesse uma ideia para entrar no edital, teria arrumado uma”, diz Júlio Ludemir, autor da obra. “O funk, apesar de representar tanto para o Rio de Janeiro, sempre foi vítima de uma perseguição. Me deixa muito honrado e feliz ver a cultura, a instituição do governo que efetivamente deve tomar conta dele, abraçando o movimento funk e apresentando uma política de estímulo e produção que, mais importante ainda, é construída junto com a comunidade funkeira”.

“O funk é uma manifestação popular que dinamiza as comunidades do Rio, e, com esse movimento, conseguiu atingir também uma outra camada, mesmo sendo historicamente marginalizado, associado a um lado muito negativo da sociedade. De alguma forma até inexplicável o funk acabou seduzindo a população de tal maneira até chegar às últimas consequências, de ser tratado dentro de editais onde toda uma dimensão de saber é obrigatória”, diz Marcelo Gularte, um dos beneficiados pelo primeiro edital, com o projeto do documentário Mc Magalhães, Uma Lenda Viva do Funk. “Por mais que queiram insistir que compor funk é fácil, que a letra é uma besteira e o ritmo sempre igual, acho que há também uma ciência muito grande em fazer um funk, não é pra qualquer um. Porque precisa ter uma sensibilidade de viver aquele universo, estar subemergido naquela cultura das favelas e das comunidades de tal forma, que o cara da bossa nova por exemplo não vai saber fazer”.

Este segundo edital tem aporte de R$ 650 mil, que serão divididos entre projetos de produção musical, circulação artística, audiovisual, memória e comunicação. Além disso, uma parte significativa do apoio é destinada à produção de bailes funk – o edital se destina à montagem de 60 deles. “A Secretaria de Estado de Cultura entende que o funk é uma das principais manifestações culturais do estado e, por isso, é de fundamental importância o fomento, assim como o apoio do governo para que os bailes funk aconteçam”, diz a Secretária de Estado de Cultura, Adriana Rattes.

“Não existe funk sem baile. Ainda que tenha sido maravilhoso a aposta no meu livro e nos demais projetos do primeiro edital, o funk só vai se renovar se o baile sobreviver. Enquanto não encontramos essa saída, essa alternativa para manter os bailes, vai acontecer com o funk o que aconteceu com o samba, que foi apropriado pela classe média – hoje temos uma cena extraordinária do samba na Lapa, certamente, mas ele não se renova com  a qualidade que poderia ter se estivesse dialogando nas comunidades populares, onde é seu ninho”, compara Júlio Ludemir. “Espero que haja uma sensibilidade nesse segundo edital de perceber que o funk precisa da favela para não morrer”.

Antes mesmo de o segundo edital ser lançado, o movimento instigado pelo primeiro já começa a dar novos frutos. Influenciado pela experiência de recuperar histórias de Mc Magalhães, figura que estourou nos anos 90 com o Rap do Trabalhador e que até hoje é envolvida em muitos “causos”, Marcelo Gularte conta que está escrevendo um romance, intitulado A Lenda do Funk Carioca, com previsão de lançamento para 2014. “Na época em que havia um funk muito violento – um reflexo da sociedade perversa da década de 90 no Rio -, com bailes com barreiras, o Magalhães atravessa o corredor dos bailes e ninguém levantava uma pena. Porque ele é emblemático, representa a diplomacia, a hombridade e o carisma no funk, está no imaginário popular. Isso tudo me inspirou para criar esse romance, uma ficção sobre o universo do funk, porque temos livros lindos sobre o movimento, mas são estudos ou acadêmicos, faltava uma criação artística, de literatura”, diz.

Outros projetos apoiados pelo primeiro edital foram o Funk Móvel,Batalha do Passinho – Giro na Baixada, Alô Funk Digital e a História do Funk em Graffiti, entre outros, englobando trabalhos da capital, da Região Metropolitana e outras regiões do Estado do Rio.

Resgatando o baile todo

O livro 101 Funks Que Você Tem Que Ouvir Antes de Morrer, que será lançado neste domingo, 15/12, mais até do que um guia definitivo dos “melhores” funks já criados, serve como registro de toda a história desse movimento que explodiu na cidade a partir das décadas de 80 e 90. “Uma característica do funk é que essa turma faz um grande sucesso e some na poeira da estrada. Por exemplo, quem era o cara do Créu? E o cara do ‘ah! Eu to maluco’, onde ele está? A gente sabe qual é o funk mas não sabe o artista, porque o funk é mais importante que tudo”, conta o autor.

Entre os resgates do livro, está o Mc Bob Rum, do até hoje lembrado Rap do Silva. “Ele está meio sumido, só sem tem acesso a ele por intermédio dos bailes que investem no que a gente chamaria hoje de funk de raiz. Tem uma velha guarda que participa dos bailes da favorita, das rodas de funk, e é somente nesses espaços que podemos encontrá-la”, diz Ludemir.

Nesse trabalho, o livro acaba também mostrando toda a variedade, tanto temática quanto de sonoridade, encontrada hoje no funk carioca. “Temos, por exemplo, o Sany Pittbul, que faz um tipo de funk muito particular, explorando toda sua riqueza sonora e o aproximando da música eletrônica mundial. São poucas as pessoas ainda que exploram esse potencial do funk, de ser a música eletrônica por excelência do Brasil”.

Como síntese dessa elasticidade do funk, o autor cita o Rap da Diferença, outro clássico da velha guarda, dos Mcs Dollores e Marquinhos. “Essa música faz uma crônica muito interessante da pluralidade que existe talvez só na favela carioca, onde a convivência harmônica chega a tal ponto de caber na mesma música o funk e o charme, que apontam para dois pontos de vida absolutamente diferentes”, diz Júlio. “O funk é muito ligado à vadiagem, a uma juventude que não tem compromisso de falar ou ser aceito por uma cidade formal, e o charme aponta o tempo todo para uma comunidade do trabalho. No Rap da Diferença eles se encontram, sem atritos, como duas formas de ser de uma comunidade negra”.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Capa do livro, editado pela Aeroplano: história do funk carioca registrada (crédito: Divulgação)

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