Estão chegando os reis
Festejos de folias de reis começam a partir do dia 24/12, com representantes no interior e na capital
Era 25 de dezembro quando um pequeno menino nascia numa manjedoura, há 2013 anos atrás. Guiados por uma estrela, três magos seguiam ao encontro da criança, sabendo que ela mudaria o mundo. Em todo o Rio de Janeiro, todos os anos, grupos de Folia de Reis recriam, simbolicamente, a jornada dos reis magos para dar boas vindas a Jesus. A festa tradicional, de origem portuguesa, tem grande representação ainda hoje em áreas rurais, mas, na capital, o festejo religioso ainda se mantém graças ao trabalho de Mestres, palhaços, músicos, cantores e outros representantes apaixonados.
“Com três anos, em 1952, eu já saía na folia bebê, no colo de minha mãe. Guardo foto até hoje, muitas com meus avôs e bisavôs ainda na folia”, conta o mestre Milton Lerci Gomes, da Manjedoura da Mangueira. A folia, que sai todos os anos com as cores verde, branco e rosa, foi criada por sua família em 1855, ainda em Minas Gerais. Quando Milton veio para o Rio de Janeiro, nos anos 40, trouxe o festejo com ele, e saía pelas ruas da Mangueira. Há cinco anos, o mestre se mudou para Vila Kennedy, em Bangu, zona oeste do Rio, onde mantém a tradição. No dia 29/12, sua folia sai em cortejo pelas casas da comunidade, e volta a alegrar as famílias com seu espetáculo de fé nos dias 5, 6 e 20/01, dia de São Sebastião e data oficial de fim das jornadas de reis.
Ainda no dia 29/12, a Manjedoura da Mangueira vai até Vila Valqueire, Zona Oeste do Rio, onde sairá em procissão junto com a Folia Estrela do Oriente, do mestre Rui Reis. O grupo já sai há mais de 60 anos, e está sob o comando de Rui desde 1989. O mestre, capixaba, também conheceu a tradição ainda pequeno, e desde 1964 participa dos festejos, atividade pela qual a cada ano se encanta mais. “Como diz o ditado, ‘quem tem fé move montanhas’, e com isso seguimos com essa nossa cultura da folia de reis, uma cultura religiosa. As pessoas seguem e recebem nosso cortejo, e fazem seus pedidos aos reis, e somos sempre atendidos. Seguimos com a folia para agradecer essa graças, todo ano mais bonitas. É sempre uma emoção”, diz o mestre. No dia 24/12, o grupo anima o Natal da cidade de Cambuci, Noroeste Fluminense. Já em janeiro, a Folia Estrela do Oriente sairá por Vila Valqueire em todos os finais de semana, até o dia 20/01.
O mestre Waldyr João de Faria, da Folia Jornada da Estrela Guia, de Campo Grande, é outro que credita à devoção a felicidade de sua vida. “Acredito em Deus e nos reis magos, e a gente vai seguindo nessa festa e as coisas vêm dando certo. Nós fazemos parte da família sagrada, e essa união das festas de reis só nos traz alegrias”, conta o mestre, que ainda aos cinco anos saía pelas ruas de Itaocara, no Noroeste Fluminense, onde nasceu, acompanhando a folia de sua família. No Rio, criou a Folia Jornada da Estrela Guia em 64, e nunca deixou de sair – com a peculiaridade de, a cada ano, mudar as cores dos uniformes dos cerca de 20 membros do grupo. A jornada da folia começa no final da noite do dia 24/12, com cortejos por Campo Grande, zona oeste do Rio. No dia seguinte, 25/12, o grupo começa a manhã na comunidade da Mangueira. Em 28/12, será Pedra de Guaratiba o palco da celebração de fé de Waldyr. A partir daí, a Jornada da Estrela Guia realizará cortejos nos finais de semana, em Campo Grande, até o dia de São Sebastião.
Além de receber a visita da folia de mestre Waldyr, a Mangueira estará aberta para toda a alegria do violão, da sanfona e dos batuques da procissão da Sagrada Família da Mangueira, folia tradicional comandada pelo mestre Hevalcy Silva. Na madrugada do dia 24/12, o grupo sai pelas casas da favela, partindo na manhã do dia 25 para a Vila Cruzeiro, na Penha. No dia 5/01, a folia segue para um encontro de folias em Rio das Flores, no Centro-Sul Fluminense, que todo ano reúne até 15 folias de todo o Rio. Em 12/01, a Sagrada Família vai até Belford Roxo, como convidada de outro encontro. No meio dessa agenda cheia, o mestre Hevalcy comemora a atenção maior dada às folias nesse final de ano. “A escola de samba da Mangueira em 2014 vai falar de festas populares, então terá uma ênfase bacana também nos festejos de reis”, conta o mestre, que tem dado entrevistas sobre a tradição de sua folia para jornais impressos e da televisão.
Na Zona Sul carioca, é a Folia Penitentes do Santa Marta que há mais de três décadas cria um Natal mais animado graças aos cortejos pela comunidade, em Botafogo. No dia 25/12, a folia sai pelas ruas do morro no período da manhã, com o mestre Riquinho e mestre-palhaço Ronaldo Silva à frente. Nos dias 29/12 e 5/01, o grupo vai para a Rocinha, também na manhã. O dia 20/01 terá um encerramento especial, com cortejos pelas casas do Santa Marta, seguido, no período da tarde, por uma procissão em homenagem a São Sebastião.
A folia continua
O início da festa em Valença, a maior do estado, está marcado para 25/01 no Jardim de Cima, na Praça Visconde do Rio Preto. A comemoração transpassa o nascimento do menino Jesus. O encontro dos Reis Magos marca o início de 12 dias de caminhada e peregrinação pelas ruas da cidade na região norte do estado. Os dias 5 e 6/01 serão repletos de fé e folia para saudar o início de mais um ciclo. São 22 folias divididas em dois dias de apresentação que reúnem de 18 a 20 mil pessoas.
O diretor do Projeto de Integração dos Movimentos Culturais e Afrodescendentes de Valença, Francisco José, conta que o momento é de confraternização e adoração aos Magos da boa nova. Ele participa da festa desde 1978, quando tinha 12 anos. “Insisti muito para participar e um dos mestres da época me deu as passagens bíblicas para decorar. Foram 21 dias de estudo, depois disso, não parei mais”. Com primos e irmãos, ele também está à frente da Folia Irmãos Ferreira.
A preparação é trabalho para o ano todo. São realizadas oficinas com as crianças da cidade de música, com aulas de acordeon e sanfona, e de palhaço, além da catequese. O resultado emociona. “É uma festa muito bonita, com as crianças de máscara e os mais antigos, todos juntos na tradição”, conta Francisco.
Na Região do Lagos, Cabo Frio inicia os festejos a partir do dia do nascimento de Cristo. Durante o período, as folias passam nas casas cantando e no dia 6/01 todas se reúnem na Praça das Águas, na Praia do Forte.
Mestre Dercy, há 65 anos na bandeira da folia de São Cristóvãojustifica que, apesar da idade, as caminhadas valem devido à fé. “Passamos dias nas ruas em peregrinação, deixamos nossas famílias, como Jesus fez para transmitir os ensinamentos”, explica.
Em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Mestre Sabará carrega a bandeira da Irmandade Estrela Luminosa e dá continuidade a tradição do Natal que já repete há 50 anos. Começou como palhaço, aos 14 anos, versando de improviso na casa de fiéis palavras inspiradoras. Foram 40 folias, ano após ano, e uma de suas trovas autorais preferidas é “o homem é o verso ambulante feito de riso e amor”. Acabou virando mestre, estudou a Bíblia com afinco e em 2014 leva a festa para o menino Jesus pelo município mais uma vez, numa festa iniciada em 2004. “Um dia não estarei mais aqui, mas fico feliz em saber que meus filhos e netos vão preservar a tradição, o meu caçula, por exemplo, guia as sanfonas”, orgulha-se.
A Irmandade começará as comemorações se repetindo todos os finais de semana. O ponto de partida é na casa do Mestre, na Estrada do Carro Quebrado, no bairro Figueira, antes do sol do dia 25/12 raiar. No dia 12/01, o encontro das folias da região será no Largo da Baiana, em Belford Roxo.
A folia Flor do Oriente, com sede em Duque de Caxias, se reúne às 22h na noite de Natal para dar início às peregrinações. A bandeira se mantém durante cinco gerações da família Vicente de Moraes, desde 1944, vinda de Minas Gerais. Durante as noites de janeiro, a folia passará por Duque de Caxias, Belford Roxo e Nova Iguaçu.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Folia Estrela do Oriente é tradição em Duque de Caxias (crédito: Diadorim Ideias/ Isabela Kassow)