Cultura na roda
Programa democrático e para todas as idades, o Circuito Carioca de Ritmo e Poesia, CCRP, mobiliza a cultura independente de diversos bairros
Quem mora no Méier, além de não bobear, bate ponto toda quarta-feira na Roda Cultural que começa às 19h na “Mini Ramp”, na esquina da Rua Silva Rabelo com a Rua Medina. O encontro, que acontece há três anos, reúne batalha de rimas com MCs, rap e poesia – e a arte de quem quiser mostrar – e integra o Circuito Carioca de Ritmo e Poesia, CCRP, que espalha há três anos a cultura urbana e independente em rodas que acontecem em vários pontos da cidade.
“Nossa roda é o encontro das tribos que fazem e mobilizam a cultura independente do Méier e da zona norte. Essa ação propõe organizar localmente um circuito independente, onde artistas, produtores e coletivos culturais possam trocar ideias, mostrar seus respectivos trabalhos, além de levar informação, cultura e entretenimento gratuito de qualidade de forma democrática ao público”, diz Allan Santos, conhecido como MC Don Allan Marola, um dos responsáveis pela organização do encontro. “Não temos artistas só do Méier: quem vier de onde for é bem vindo”, enfatiza.
“Realizamos apresentações musicais, de dança, recitais de poesia, batalhas de MCs… há uma infinidade de opções, a gente não estabelece barreiras nem limites, somos abertos à arte de rua e ao artista independente. Fazemos também a roda cultural de livros: arrecadamos livros por doações e disponibilizamos para trocas e empréstimos”. Quem quiser se apresentar deve enviar um email pararodaculturaldomeier@gmail.com, com uma foto do trabalho ou uma música. A roda cultural do Méier vai até meia noite e reúne aproximadamente 250 pessoas.
O encontro vai além da “Mini Ramp” e muda de endereço às vezes: “A roda cultural do Méier faz também dois eventos no Imperator: o ‘Arte Urbana no Teatro’, agendado segundo a grade do espaço, e o ‘Arte Urbana no Terraço’, no penúltimo domingo de cada mês. São eventos focados nas batalhas de MCs, só que em um ambiente diferente, e reúnem um público grande”, conta Allan.
Circuito Carioca de Ritmo e Poesia
Até 2009, o endereço das batalhas de MCs era a sede do Centro Interativo de Circo – CIC, na Fundição Progresso, na Lapa. Após um incêndio no local, surgiu a ideia de realizar as rodas de rimas em espaços públicos de diversos pontos da cidade. Nasceu então o Circuito Carioca de Ritmo e Poesia – CCRP, que celebra três anos em dezembro. O CCRP é uma rede independente de produção cultural que transformou as rodas de rima em rodas culturais e as levou para o Méier, Bangu (aos domingos), Manguinhos (às segundas), Botafogo (às terças), Freguesia (às quartas), Vila Isabel (às quintas), Recreio (às quintas) e Lapa (aos sábados).
Apesar de ter nascido entre rappers, as rodas abrigam todo tipo de manifestação cultural. “As rodas culturais são uma teia de artistas e trabalhadores independentes, como poetas, fotógrafos, MCs, músicos, grafiteiros, artistas plásticos, artistas circenses, atores, profissionais do audiovisual, esportistas urbanos, etc”, conta Allan. A ideia é aproximar esses artistas e promover sua circulação entre os bairros, gerando um intercâmbio e levando atrações variadas para o palco mais democrático de todos: as ruas.
Mais rap no Rio e a ocupação do espaço público pela arte
O circuito chamou a atenção de Rôssi Alves, professora da Universidade Federal Fluminense que decidiu mapear as rodas culturais do estado. Doutora em Letras e pós-doutoranda em Estudos Culturais, Rôssi lança seu livro Rio de Rimas nesta terça, dia 3, pela Editora Aeroplano, na roda cultural de Botafogo que celebra o terceiro aniversário do CCRP. “Como professora de literatura, eu achava interessante a garotada rimando nas praças e quis entender o que levava esses jovens a rimar. Então fui para as praças e descobri a roda cultural”, conta a pesquisadora.
“No livro que estou lançando consegui listar 42 rodas de rimas, mas sempre descubro outras”, diz Rôssi. “As rodas existem há cerca de 3 anos e estou nessa pesquisa há um ano e meio. No último ano elas cresceram muito, e atribuo isso a alguns fatores diferentes. Primeiro, ao crescimento do movimento rap no Rio. As rodas e batalhas são uma plataforma importante para esses rappers mostrarem seus trabalhos e depois gravarem e se tornarem conhecidos”, diz Rôssi.
Além disso, as rodas são uma maneira de ocupar o espaço público com arte e sem custo, de uma forma horizontal. Quem tem sua arte, seja rima, fotografia, grafite, malabares, skate, ocupa a praça sem ter que buscar legitimação de uma instituição, sem ter que pagar. E o público tem a oportunidade de ter contato com diversas expressões. E tudo isso ao ar livre. É muito congregador”.
Segundo Rôssi, cada roda tem suas particularidades de acordo com os bairros ondem acontecem. “A do Méier reúne muitas famílias, pois o Méier é um bairro muito família. Você encontra crianças, casais, pessoas de mais idade. Já a de Botafogo atrai mais jovens e adolescentes. As rodas também surgem por uma necessidade de alguns bairros que têm poucos espaços culturais. Na zona sul, por exemplo, há poucas rodas – apenas a de Botafogo e uma no Horto – porque há mais oferta de espaços culturais”.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Rapper na roda cultural do Méier, que acontece toda quarta-feira com rodas de rima, batalhas de MCs, poesia, música, etc. (Crédito: Erick Araújo)