O dia-a-dia da arte em cartuns
Mexicano Pablo Helguera apresenta na Casa Daros críticas divertidas ao mercado de arte
Uma mulher sai feliz de uma galeria, com um quadro debaixo do braço. Sorrindo, explica a uma amiga por que decidiu comprá-lo: “primeiro eu achei a obra simplesmente horrível, mas depois eu vi o preço”. Este é um exemplo do humor crítico de Pablo Helguera, mexicano radicado nos Estados Unidos que exibirá parte de seu trabalho sobre o universo e o mercado das artes na mostra Artoons, que a Casa Daros recebe a partir de sábado, 30/11. No dia de abertura, Helguera estará presente para conversar com o público no auditório.
A exposição reúne cerca de 40 cartoons feitos pelo artista em 2009. As pequenas charges fazem parte de uma pesquisa do autor, que atualmente é diretor dos programas acadêmicos e para adultos do Museu de Arte Moderna de Nova York. Desde o lançamento de seu Manual de Estilo Del Arte Comtemporâneo, um compilado de regras de etiqueta do universo artístico, em 2005, Helguera vem trabalhando com temas que envolvem os muitos personagens deste universo. “Artoons é apenas uma exploração mais além desses mesmos temas, mas num gênero diferente. Me interessei pelo fato de que os cartoons sobre o mundo da arte, feitos a partir de uma perspectiva interna, são uma raridade, e há muito para explorar aí: estava cansado das percepções ingênuas e clichês da grande mídia que reduz os artistas a um universo povoado por insanidade ou depravação. Ao mesmo tempo, eu queria fazer desenhos que apontam para os estranhos detalhes sociais que geralmente são bem familiares para nós artistas, mas também trazendo questões mais amplas à conversa”, explica.
A mostra Artoons acontece simultaneamente à exposição Le Parc Lumière – Obras cinéticas de Julio Le Parc, inaugurada em outubro. O trabalho de Pablo dialoga diretamente com o pequeno vídeo Historieta, parte da exposição de Le Parc. O curta de 2011, dirigido por Gabriel Le Parc, filho de Julio, se baseia no livro Petite Histoire En Images Interrogeant La Face Cachée De L’Art, De L’artiste et de Son Contexte Social (“pequena histórias em imagens questionando o rosto escondido da arte, do artista e de seu contexto social”, em português), lançado nos anos 90 por seu pai. No filme, os desenhos de Le Parc contam uma história de crítica bem humorada ao circuito de artes contemporâneo.
“Entre múltiplas afinidades e um fio de continuidade desde Historietas até Artoons, ressaltamos alguns contrastes que revelam outras ‘regras do jogo’ da arte hoje, outra escala de valores ou, como afirma Helguera, outros processos que emergem do apego à encenação de um roteiro”, diz Eugenio Valdés Figueroa, diretor de Arte e educação da Casa Daros. “Com paixão de sociólogo, Helguera nos chama a atenção para esses ritos e os papeis que cada ator desempenha neles. Dentro do mundo que Artoons nos apresenta, até a crítica institucional resulta algo previsível e ajustado a certa dramaturgia, internalizado, cooptado pelos próprios agentes do circuito: curadores, críticos, colecionadores, galeristas, socialites”.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Ilustração: Mundo da arte visto com humor (crédito: Divulgação/Pablo Helguera)