Um Rio de leitores
1ª Festa Literária da Zona Oeste começa nesta segunda-feira, refletindo o bom momento da literatura no Estado
No ano em que a Bienal do Livro do Rio de Janeiro recebeu mais de 650 mil visitantes e a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) comemorou a entrada numa nova década com sua 11ª edição, um novo porto da leitura acaba de ser criado na cidade: a partir de hoje, 30/09, começa a 1ª Festa Literária da Zona Oeste (FLIZO). Até 1º de novembro, mais de 70 escritores da região participarão de saraus, mesas redondas e outras atividades em nove bairros: Santa Cruz, Sepetiba, Guaratiba, Campo Grande, Senador Camará, Bangu, Realengo, Jacarepaguá e Barra da Tijuca. As atividades acontecerão em 16 escolas municipais e oito universidades, além do Espaço Ser Cidadão em Santa Cruz, da Cidade das Artes e da Escola Sesc Nacional de Jacarepaguá. Música, teatro e dança também estão incluidas nos 32 dias de intensa programação.
“Sempre tive o sonho de realizar um evento literário. Em 1998, fundei uma biblioteca, dez anos depois, um centro cultural. Em 2012, ao participar da Festa Literária das UPPs (FLUPP), e inspirado nos meus amigos e padrinhos literários Júlio Ludemir e Écio Salles, percebi que era um sonho possível”, conta o idealizador e escritor Binho Cultura. Nessa primeira edição, o homenageado é José Mauro de Vasconcelos, natural de Bangu e autor do clássico infantojuvenil Meu Pé de Laranja Lima. A abertura da festa, no Espaço Ser Cidadão, terá uma leitura dramatizada da obra.
Ao lembrar um grande nome da nossa literatura nascido na região, a FLIZO abre o caminho para mostrar a potência da produção cultural da Zona Oeste. “Este encontro vem para iluminar a produção literária e a voz de cidadãos que até pouco tempo atrás não tinham nenhuma atenção das mídias e das políticas públicas. É reflexo de uma mudança profunda na forma de a população do Rio de Janeiro construir a cidade que quer”, diz Vera Saboya, superintendente de Leitura e Conhecimento da Secretaria de Estado de Cultura (SEC).
Ciente de que as crianças são essenciais na construção dessa nova cidade, a festa tem um foco muito grande na programação em escolas, e contará até com uma “embaixatriz mirim”: a menina Ana Clara, de apenas oito anos. Aos cinco, escreveu seu primeiro livro, A Casa da História Feliz, seguindo os passos da mãe, Elaine Cristina Marcelina Gomes, autora de duas obras publicadas. Para Elaine, exemplos como o de sua filha são fundamentais para mudar a relação dos pequenos com a leitura e a escrita – coisa que já vem acontecendo em Campo Grande, onde moram. “Eu distribuía o livro da Ana para os coleguinhas dela, e um dia ela veio me dizer que um amigo de outro prédio queria aprender a escrever com a gente. Aí eu juntei uns cinco meninos, dei caderno e lápis, e eles se reuniam aqui. Eles perceberam que, se uma colega tinha feito, eles também podiam escrever, num processo que vai assim ganhando força”, conta a escritora.
Palavras sem fronteiras
A FLIP foi um marco importantíssimo para nosso Estado: ao ser criada, 11 anos atrás, conseguiu mostrar que eventos focados em literatura tinham uma receptividade com o público muito maior do que velhos conceitos de que “brasileiro não lê” podiam levar a crer. Hoje, a Superintendência de Leitura e Conhecimento da SEC contabiliza mais de 10 municípios onde Feiras Literárias acontecem pelo menos uma vez por ano, e, seguindo o exemplo da Bienal do Riocentro, as cidades de Campos dos Goytacazes, Volta Redonda e Quissamã também organizam encontros semelhantes. Petrópolis, Santa Maria Madalena e Iguaba Grande realizam anualmente festas literárias, que se espalharam também por vários cantos da capital, em edições em Santa Teresa e em comunidades pacificadas, por exemplo.
Para Vera Saboya, a expansão dos eventos focados em literatura é uma resposta organizada a algo que, informalmente, já vem sendo reconhecido: a imensa variedade da produção literária fluminense. “O que acho extraordinário é que esses livros que estão surgindo na Zona Oeste e em outras regiões da Baixada, por exemplo, alcançam vendas significativas mesmo sem poder contar com uma rede forte de comércio. Eles são vendidos em feiras, de mochila em mochila, de conversa e conversa, de mão em mão”, percebe.
Justamente para discutir esse cenário, a FLIZO programou para 1º de novembro, em seu encerramento no salão nobre do Bangu Atlético Clube, a mesa O Fenômeno das Festas Literárias no Rio de Janeiro, que contará com representantes da FLIP, da FLUPP, da Festa Afroliterária (FLIAFRO) e da Festa Literária da Diáspora Africana de São João de Meriti (FLIDAM), cuja primeira edição acontecerá em novembro.
“Creio que o primeiro legado da FLIDAM está na reflexão de por que nossa cidade e a Baixada possuem poucos locais para o contato mais próximo com a leitura e o conhecimento, para além do espaço formal da escola. Outro legado está no fato de que aqui em São João, somos seguramente mais de 51% da população de afrodescentes, e não nos reconhecemos como autores, parece algo muito distante. E não precisa ser, é uma questão relacionada à identidade e à autoestima”, diz o organizador, o educador e membro da Academia de Letras e Artes de São João de Meriti Rodney Albuquerque.
Ainda segundo Rodney, a chegada de eventos como festivasis literários criam “espaços de educação não formal”, através do qual as pessoas têm a chance de se formarem através da leitura. “Nossos jovens precisam ler muito mais, e especialmente encontrar o prazer nesta ação. Cresci em São João de Meriti e não tive acesso a isso de forma plena em meu processo de educação formal, tive que encontrar caminhos para superar minhas próprias limitações. Hoje, sei que este caminho poderia ter sido abreviado”, diz.
Para a escritora Elaine Cristina Marcelina Gomes, o surgimento da FLIZO e de outros eventos dedicados à literatura em espaços periféricos é sinal de que este caminho está aos poucos ganhando atalhos. “Costumo participar de saraus no Sesc Santa Luzia, ou seja, acabo tendo que sair da Zona Oeste para apresentar meus trabalhos. Com essa festa, vamos mostrar para a cidade que, independente do lugar, o escritor é capaz de produzir”, diz.
———-
Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: A Zona Oeste em foco: mais de 70 escritores da região participam da festa (Crédito: Mônica Parreira)