20 anos entre a loucura e a disciplina

Deborah Colker comenta o legado de sua companhia, que encerra a temporada comemorativa de 20 anos esse mês

Ex-jogadora de vôlei, formada em Psicologia e por 10 anos estudante de piano, a coreógrafa e dançarina Deborah Colker tem muitas faces. Conhecê-las, porém, não é difícil: basta acompanhar os muitos trabalhos de sua Cia de Dança, que em 2013 comemora 20 anos de estrada com uma tempora especial. “Pelos meus espetáculos dá para ver direitinho quem eu sou, o que eu estudei. Está tudo ali”, diz a coreógrafa.

Depois da reencenação de Velox (de 1995), no Teatro Carlos Gomes, em maio, e Tatyana (2011), na Cidade das Artes, no mesmo mês, a temporada comemorativa se encerra com Nó, que entra em cartaz no Teatro João Caetano  nesta sexta-feira e permanece até o dia 20/10. No final de semana dos dias 12 e 13/10, em comemoração ao aniversário de 200 anos do Teatro, as apresentações serão gratuitas.

Além da apresentação de Nó, trabalho de 2005 que marcou uma virada temática nos espetáculos da companhia, será lançado em 3/10, quinta-feira, na Livraria Argumento (Leblon), o livro Companhia de Dança Deborah Colker, com imagens de Flávio Colker e três fotógrafos convidados: Cafi, Leo Aversa e Walter Carvalho. Os textos são assinados por Francisco Bosco e Donald Hutera, crítico inglês.

A publicação tem imagens de todos os espetáculos já criados pela companhia. “Se há um traço definidor da personalidade de Deborah Colker é a sua disciplina. Palavras como determinação, trabalho e comprometimento são frequentes em seu discurso, bem como evidentes no resultado do processo”, escreve Francisco Bosco no livro. “Esta disciplina se projeta e se materializa em restrições formais estabelecidas para seus bailarinos: dançar numa parede vertical, em antinatural plano perpendicular ao solo (Velox); dançar num espaço exíguo de cerca de um metro quadrado, limitado em dois ângulos por uma parede alta (Cantos, de 4×4); dançar numa grande roda em movimento (Rota); dançar por entre inúmeros vasos de porcelana a ocupar todo o espaço do palco (Vasos, de 4×4); entre outras”.

Na entrevista ao Cultura.rj, a incansável coreógrafa fala sobre a alegria de manter uma companhia de primeira linha durante duas décadas, e comenta também os desafios para sempre se superar nesse “delírio chamado vida”, como dizia Fausto, de Goethe.

Qual o seu balanço de 20 anos de companhia? O que significa manter um empreendimento artístico no Brasil durante duas décadas? 

É uma grande escalada – e não é à toa que começamos as comemorações com Velox (o espetáculo tem uma famosa cena que mistura alpinismo e dança). Não é fácil, porque fazer um trabalho de sucesso já é difícil, e manter a qualidade, a criatividade e o profissionalismo é sempre complicado. Até mais do que isso, porque minha meta não é manter, mas sim estar sempre se superando. É um trabalho árduo, diário, cotidiano. Todo dia, são 24 horas indo em frente com muita determinação, garra, foco e também muito prazer. Por estar nessa companhia que hoje em dia tem uma escola (o Centro de Movimento Deborah Colker), um filho muito importante, onde formamos novos profissionais unindo conhecimento com o experimentar, o ser artista, em busca de caminhos novos, sempre. Ter essa escola é um resultado desses nossos 20 anos, em que temos uma sede própria, um lugar para a companhia pensar, criar e também formar crianças, jovens, adultos; gente que quer fazer dança não só como profissão, mas também como saúde, lazer ou conhecimento.

Ao longo desses anos, a Cia Deborah Colker já se apresentou em países da América Latina, Europa e Ásia. Como foram as  apresentações e a receptividade no mundo? E aqui no Brasil – interior e capital?

Só falta a África, o único continente que a gente não foi, e estamos loucos pra ir. Nos outros quatro já fomos muitas vezes, em vários países e cidades, com espetáculos diferentes. Já trabalhei em outras grandes instituições como a Ópera de Berlim ou o Cirque Du Soleil. A companhia se apresenta e faz parte das grandes temporadas dos maiores teatros do mundo, faz parte do mercado de dança e arte internacional, mantendo nossa identidade como um grupo brasileiro de dança contemporânea, com muito orgulho e honra. Já se apresentar aqui no Brasil é muito bacana, porque é onde nossa história e nosso sucesso começam. E espetáculos como Vulcão, Velox e Mix (criado pela junção dos dois primeiros) foram consagrados no Brasil, não só no Rio, mas também em várias cidades de Norte a Sul, de Leste a Oeste, numa formação de público também muito importante.

‘Velox’, o segundo trabalho de Cia, foi reconhecido através de importantes prêmios e conquistando seu espaço entre os melhores de dança de 1995. Como foi para você voltar a subir ao palco com esse espetáculo, um marco na história da Cia? E como o público recebeu essa volta (Velox foi reapresentado no Teatro Carlos Gomes no mês de maio)?

Reapresentar Velox foi sensacional. É um espetáculo divertido, energético, que segue sem intervalo. São 53 minutos e quando você olha já acabou! E foi muito bacana voltar com ele, porque as pessoas me perguntavam, “vem cá, você mexeu na coreografia, mudou os figurinos?”. Mas não mexi em nada, e a graça foi exatamente trazer a memória e a história de Velox, que tem uma força atual e uma assinatura da companhia muito destacada. E foi muito emblemático, o responsável não só pelo início de sucesso da companhia, mas também por levar um público que não é o de dança para ver dança, com uma plateia jovem e diversificada, indo ao teatro ver dança. Velox é muito importante, para a dança e para o teatro no Brasil, o que também gera uma responsabilidade muito grande. Nós todos temos que agradecer muito a ele, por causa dele muita gente que não tinha a tradição, até por desinformação mesmo, de ir ao teatro passou a ir.

Você declarou que ‘Nó’ foi o primeiro trabalho em que passou a se perguntar “quem é esse sujeito que dança”. O que motivou essa nova percepção da coreografia, e como aparece no espetáculo? 

É muito bacana voltar com esse espetáculo no Teatro João Caetano, que é uma casa onde dançamos muitos trabalhos da Cia, um maravilhoso espaço ao mesmo tempo sofisticado e popular – como é também o nosso grupo. Em , penso na condição e na alma humana, depois de muito tempo desenvolvendo uma linguagem muito focada na relação do movimento com o espaço. Criava uma dramaturgia da dança, construindo um repertório de movimentos e linguagem relacionados com vários assuntos do mundo contemporâneo, mas comecei a sentir que era importante falar um pouco da alma humana também, trazer o sentimento e a condição de existência humana para os espetáculos. Então, passo a falar um pouco dos seres humanos e suas questões de amor, vida, morte, as dores e os prazeres de se estar vivo. Como dizia Fausto, (o personagem de Goethe) entre o nascimento e a morte existe um grande delírio, que é a vida. Quis falar um pouco desse delírio, dos sentimentos e existências de quem nós somos, nossas inquietações, desejos e paixões, que às vezes são tão difíceis de serem reconhecidos.

Você é formada em psicologia, foi jogadora de vôlei e estudou piano por 10 anos. Quando surgiu a paixão pela dança? E como essas múltiplas experiências influenciaram e continuam influenciando as coreografias que cria? 

Acho que a gente é resultado de todas as nossas experiências. A música, o esporte e a psicologia estão contidos no meu trabalho, e venho usando muitos desses conhecimentos para dirigir uma companhia durante 20 anos. Quanto à paixão pela dança, estudei quando era pequenininha, depois parei porque era muita atividade para uma pessoa só. Com 16 anos, voltei a dançar com força total e foi muito importante. Acho que a dança uniu, sintetizou toda minha energia física com a paixão pelas artes. Foi ela quem conseguiu juntar a arte – no formato da música, do teatro, de todas as influências artísticas de um pai que estudou música, de um irmão e um ex-marido fotógrafos – com toda a energia física de um trabalho muito energético e vigoroso que é a dança. Quando você olha meus espetáculos, você vê direitinho quem eu sou, o que eu estudei. Está tudo aí.

Poderia adiantar os futuros projetos e atrações da Cia Deborah Colker nos próximos anos?

Depois de passar, com esse grande Festival Colker 20 anos, por várias cidades (Aracaju, Belo Horizonte, Uberlândia, Recife, Salvador, entre outras), temos projetos para fora já em andamento e um trabalho novo, que é a adaptação  do livro La Belle Du Jour, de Joseph Kessel, para o ano que vem.

Qual a maior conquista e qual seria ainda a maior fragilidade da Cia de Dança Débora Colker, na sua opinião?

Ter sido a primeira mulher a assinar a direção de coreografia de um espetáculo do Cirque Du Solei (Ovo, de 2009, ainda inédito no Brasil) com certeza foi um passo largo na minha vida. Além disso, teve também o prêmio que ganhamos em Londres, o Laurence Olivier com o Mix em 2001 (na categoria Oustanding Achievemente in Dance). Foi muito surpreendente que um lugar  como Londres desse o Oscar das Artes Cênicas a um espetáculo brasileiro, se você pensar que é uma cidade que tem 450 espetáculos por noite.  Falando em fragilidade, não vejo nada específico, mas talvez haja a dificuldade de manter a qualidade técnica dos bailarinos, trabalho às vezes envolto em contradições. Você tem que manter muito vigor, muita disciplina, mas, ao mesmo tempo, cultivar a inspiração, sua veia artística. Isso pode ser complicado, porque o artista precisa enlouquecer para se inspirar, abrir portas e janelas, mas, ao mesmo tempo, viver com uma disciplina fervorosa para manter sua técnica.

———-

Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Questionamentos da condição humana a partir dos movimentos dos bailarinos é a grande característica de  (crédito: Divulgação)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>