Todas as fases de Ione Saldanha

Gaúcha ganha retrospectiva no MAM, que também inaugura coletiva com Efrain de Almeida, Volpi e outros

Nascida em Alegrete, Rio Grande do Sul, em 1919, Ione Saldanha era uma menina inquieta: passava as horas desenhando e inventando histórias – o primeiro romance seria escrito aos 11 anos. Mas foi nas artes que a gaúcha, que passaria a maior parte da vida no Rio de Janeiro, onde faleceu em 2001, encontrou o meio principal para compartilhar suas narrativas.  Esses contos construídos primeiro em telas e depois em objetos estarão reunidos em Ione Saldanha – O Tempo e a Cor, retrospectiva de sua obra que o Museu de Arte Moderna inaugura no domingo, 8/09. São mais de 100 peças, entre desenhos, estudos, pinturas e experimentações em variados suportes.

“A exposição, retrospectiva, procurará realizar um recorte panorâmico em sua trajetória, desde suas figuras e fachadas das décadas de 1940 e 1950, desdobrando-se pelo flerte construtivo no começo da década seguinte, até sua grande aventura de liberação da cor do final dos anos 1960 até a década de 1990”, explica o curador Luiz Camillo Osorio. Neste panorama, o ano de 1969, qualificado pela própria Ione como a “fase em que pintou os últimos quadros”, tem papel chave. A partir daí, a artista passou a se aventurar com intervenções tridimensionais, processo criativo que daria origem às séries BambusBobinas e Empilhados, algumas de seus trabalhos mais conhecidos. “Sua obra talvez seja uma síntese da passagem do moderno para o contemporâneo – da busca de uma cor local para a experimentação radical com cores e com os materiais do mundo cotidiano – bambus, ripas, bobinas, etc”, diz Osorio.

Bambus foi apresentada pela primeira vez em 1969, na 10ª Bienal de São Paulo. Na série, a planta era o suporte para a artista criar padrões e estampas coloridas abusando de cores. Já Bobinas surgiria anos mais tarde, em 1973, série inaugurada no próprio MAM Rio e no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e é lembrada como um dos trabalhos mais emblemáticos de Saldanha. “A bobina é limitada, um material nítido, um material de indústria. Talvez minha intenção, ao pintar uma bobina, tenha sido exatamente a de destruir a ideia industrial, e de brincar de modo diferente, tirar a bobina de sua condição material (…) e transformá-lo num brinquedo”, afirmou a artista. Por fim, Empilhados é uma série do final da década de 80, constituída de pequenos paralelepípedos de cedro, organizados um em cima do outro de maneira a dialogar com Bambus, a primeira incursão de Saldanha nesse mundo tridimensional.

A exposição tem foco sobretudo no período de maturidade da arte de Saldanha, entre os anos 60 e 80, permitindo que se acompanhe o desenvolvimento da artista em busca de uma linguagem própria que “consegue combinar o rigor formal da tradição concreta com a experimentação constante de novos materiais e suportes, sem abrir mão, entretanto, da dimensão lírica da cor”, avalia o curador.

Arte popular e contemporânea juntas

Paralelamente à exposição de Ione, o MAM inaugura a mostra Mundos Cruzados, formada de cerca de 50 obras do acervo do próprio museu e de parcerias com as coleções Gilberto Chateaubriand e Joaquim Paiva. A seleção mistura trabalhos de artistas populares com obras de renomados nomes da arte contemporânea. “Uma das funções do museu é mostrar regularmente as suas coleções através de olhares renovados, que possam acrescentar múltiplos pontos de vista à história da arte brasileira. Esta história não deve ser apenas contada por aqueles que viram as suas carreiras privilegiadas, mas também por muitos artistas que, mesmo fora do circuito, continuaram fazendo o seu trabalho, em condições adversas ou inesperadas. Artistas populares como Véio, Bezerra, GTO, Francisco da Silva ou Heitor dos Prazeres criaram universos de uma força poética muito contundente, e esta mostra é uma homenagem a sua universalidade”, diz Marta Mestre, que divide a curadoria com Luiz Camillo Osorio.

A exposição engloba fotografias, instalações, pinturas, esculturas e gravuras, datadas do século XX até hoje. Entre os artistas selecionados, estão Alfredo Volpi, Aluísio Carvão, Djanira, Efrain Almeida, Emmanuel Nassar, Ernesto Neto, Farnese de Andrade, Glauco Rodrigues, Heitor dos Prazeres, José Bezerra, Marcone Moreira, Marcos Cardoso, Mestre Didi, Tarsila do Amaral, Véio, entre outros. “É através de alguns exemplos desta mostra que podemos entender que a arte não vive num circuito fechado, que as hierarquias deixaram de fazer sentido, e que arte popular e arte contemporânea são ‘mundos’ comunicantes”, afirmam os curadores.

Como exemplo desse diálogo entre esses dois universos, Marta Mestre indica as obras do cearense Efrain de Almeida e do maranhense Marcone Moreira. “Ambos são artistas que atuam no circuito contemporâneo e expõem em mostras importantes o seu trabalho, sem perderem, no entanto um trânsito com referencias populares”, qualifica. O trabalho de Almeida, com forte predominância da manipulação da madeira, remete a símbolos regionais e religiosos típicos do Nordeste. “A técnica do artesanato em madeira reveste este trabalho de carga afetiva da infância e das memórias de um tempo passado e mitológico que nos lembra as lendas populares”.

Já Marcone Moreira se inspira no colorido vibrante e nos padrões geométricos que adornam as carrocerias de caminhões do sudeste paraense para criar sua arte. “O artista interessa-se pela apropriação desta visualidade e pela memória que estes materiais carregam. No seu trabalho é frequente um trânsito entre diferentes realidades culturais, onde o contato entre erudito e o popular não se aniquilam, mas se contaminam. Talvez por isso ele tenha visto, no colorido e na geometria que decora os caminhões, fortes reminiscências do construtivismo brasileiro, ainda que essa referência possa ter sido alheia para os artesãos que os pintaram”, diz Mestre.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Bobina transformada em “brinquedo” por Ione Saldanha  (Crédito: Divulgação)

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