Dançando no limite
Triz, novo espetáculo do Grupo Corpo, chega ao Theatro Municipal a partir de domingo
Com 10 canções inéditas de Lenine nas mãos, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras tinha uma missão: criar, a partir da trilha do pernambucano, o novo espetáculo do consagrado Grupo Corpo, de Minas Gerais. Pederneiras passou, no meio do processo, por duas cirurgias, que, se por um lado atrasaram o andamento da montagem, por outro serviram como a inspiração que faltava para encontrar o tema do espetáculo: a superação de limites. Triz, essa experiência de dançar estando por um fio, chega ao Rio de Janeiro para quatro apresentações no Theatro Municipal, a partir de domingo, 8/09, depois de uma elogiada estreia em Belo Horizonte. Além de Triz, novo espetáculo do grupo, Parabelo, coreografia de 1997, também será apresentada.
“Em fevereiro, quando devia estar começando a criar a peça, tive um problema repentino no ombro, e precisei ser operado às pressas. No meio da minha recuperação, em abril, surgiu outro problema, desta vez no joelho esquerdo. Desse jeito, fui começar a criar a peça no final de maio, começo de junho, quando ela já devia estar mais ou menos pronta”, conta o coreógrafo. Ainda se recuperando, Rodrigo entrou em cena com dificuldades para se locomover. “Sempre faço as peças criando os movimentos no meu próprio corpo, mas, como praticamente não andava, precisei encontrar uma maneira de compor completamente nova para mim. Tive que verbalizar os movimentos, compartilhar meu raciocínio com os bailarinos, que foram muito geniais e abraçaram essa ideia”.
Foi deste esforço para criar formas novas de contornar um problema que o tema principal da coreografia foi sendo desenhado. Da barreira do tempo causada pelo atraso na montagem até a questão física do coreógrafo, toda a criação de Triz foi envolta pela necessidade de encontrar formas de vencer desafios. Esta questão guiou não só os movimentos dos bailarinos, mas também a criação do figurino, do cenário e da iluminação, e acabou estabelecendo um diálogo muito preciso com as músicas de Lenine. “No final o trabalho todo deu tão certo, ficou de uma simplicidade tão coesa, que estou muito feliz”, diz Rodrigo.
A Lenine, com quem o Corpo já havia trabalho em Breu (2007), foi dada total liberdade para criar a trilha do novo espetáculo. Antes mesmo de toda a questão de superação surgir na coreografia, o compositor impôs a si mesmo uma limitação: só trabalharia com instrumentos de cordas. Berimbau, balalaica, violino, violão, cítara, rabeca, tambura, bandolim e outros instrumentos são explorados através de subversões rítmicas e experimentações sonoras ao longo das 10 faixas, que se complementam como se fossem uma única longa música.
Inspirado pelas cordas de Lenine, Paulo Pederneiras criou um cenário em que cabos de aço formam uma espécie de “gaiola” em volta dos bailarinos. No chão, uma série de grafismos indica até onde os dançarinos podem ir. “São cortinas de aço com três entradas e saídas assimétricas com apenas 1 m de largura, e esses grafismos saem dessas aberturas, criando vários limites no palco, que são, no entanto, às vezes extrapolados”, diz Rodrigo. “Por exemplo, podemos ter cenas acontecendo na frente dos cabos de aço e uma atrás, mas a lá atrás é mais importante, e dependendo da forma que a gente ilumina dá para ver pelas frestas desse cenário”.
Já o figurino de Freusa Zechmeister buscou traduzir de maneira simples e direta o tema principal do espetáculo, ao dividir o corpo dos bailarinos em duas metades, delimitadas pelo jogo entre as cores preto e branco das vestimentas. Em todos os detalhes, Triz busca aludir à capacidade humana de ultrapassar barreiras, incluindo os momentos de tensão diante desses riscos. “Mais uma dificuldade que eu criei para mim foi pensar coreografias para trios, composição que eu nunca tinha feito. Mas criei esses trios na verdade quase como algo inacabado, porque eles têm uma dinâmica muito estranha. Antes de terminar um movimento esse trio já parte para outra coisa, ou deságua em trios também inacabados, numa sensação de urgência que passa por todos os atos do balé”, conta o coreógrafo.
Diálogo por contrastes
Juntamente a Triz, a companhia trará para o Rio de Janeiro o espetáculoParabelo, um dos carros-chefes de suas apresentações internacionais, mas pouco montando no Brasil desde sua estreia em 1997. Parabelo, criado em cima da trilha composta pelo baiano Tom Zé e pelo paulista José Miguel Wisnik, segue até hoje um dos mais “brasileiros” trabalhos do grupo, influenciado pelos toques regionais das músicas da dupla convidada. “Tudo que se passa neste espetáculo tem essa visão de sertão nordestino, com muito xaxado e música de forró, por exemplo. E, como tudo no Nordeste, é uma apresentação envolta em muita cor, num cenário todo de ex-votos, o que estabelece um contraste muito grande com Triz”, diz Rodrigo Pederneiras. “Triz é feito de cores neutras, e Parabelo é um mar de cores numa explosão de movimentos mais solta, até mais sensual”.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Figurino também brinca com a questão do limite (crédito: Divulgação)