Tesouros de Acari

Mapeamento das manifestações culturais da favela da zona norte carioca revela diversidade da arte produzida na comunidade

“Parque proletário, mangue, mocambo, mas pode me chamar favela”. Assim o poeta Hélio de Assis começa a recitar seu poema Favela, inspirado na comunidade de Acari. “Vela acesa, rabo de cobra, pé de chinelo, raia miúda”, continua, no Cachassarau Torresmo à Milanesa, que desde 2011 funciona na sede do Centro Cultural Popular Revolucionário Poeta Deley de Acari. Hélio, o Cachassarau e o Centro Cultural são alguns dos registros do Acari Cultural, projeto que realizou um mapeamento das manifestações culturais da favela da zona norte carioca.

Coordenado por Adriana Facina, professora do Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da UFRJ, o mapeamento foi realizado por uma equipe de sete pessoas com apoio do CNPq, da Faperj e do Itaú Cultural. O levantamento gerou um vídeo e um livro, que está em fase de editoração e vai reunir artigos de todos os pesquisadores envolvidos.

“O mapeamento é uma iniciativa que pretende tornar visível a rica e diversificada vida cultural de Acari, local com um dos mais baixos IDH da cidade e estigmatizado como território da violência armada. Apesar do baixíssimo investimento estatal em cultura nesse território, a produção cultural é intensa e faz parte do cotidiano da favela”, diz Adriana Facina, historiadora e doutora em Antropologia Social, que atualmente se dedica ao mapeamento cultural de favelas do Complexo do Alemão.

A produção artística de Acari vai do funk ao samba, do reggae ao hip hop, da poesia ao grafite e além. Adriana cita algumas das principais iniciativas mapeadas: “O baile funk da quadra da Escola de Samba Favo de Acari, o desfile desta escola, as quadrilhas de festa junina, o grupo Solteirinhos do Forró que ensaia numa fábrica de gaiolas de passarinho, a poeta Maria da Penha e o artista plástico José Luís que dedicam suas obras ao filho pequeno morto pela polícia, diversos artistas de funk e samba e também os grupos musicais gospel”.

Todas são iniciativas dos próprios moradores que movimentam o dia a dia de toda a comunidade.  A ideia do projeto é conhecer, fazer um calendário das manifestações e dar visibilidade a elas, estimulando uma economia da cultura já existente na favela que pode ser opção de emprego e renda para seus produtores culturais e artistas. “Os recursos ainda não são distribuídos de forma democrática e não chegam às iniciativas mais cotidianas  e de menor escala, mas que realmente, em seu conjunto, têm mais impacto na vida das favelas”, diz a coordenadora.

Articulação e resistência

Um espaço central onde se articulam muitos artistas e agentes culturais da favela de Acari é o Centro Cultural Popular Revolucionário Poeta Deley de Acari. Sua sede foi uma base policial por 16 anos. Após o prédio ficar vazio durante muitos anos, um grupo de mcs do funk e do hip hop e ativistas culturais decidiram ocupá-lo com atividades culturais – música, dança, poesia, etc. “A ocupação se propôs a transformar esse prédio em uma coisa radicalmente oposta ao que era antes”, explica o poeta Deley. O homenageado, Deley de Acari, divulga sua produção literária – sua “poesia de crioulo”, como diz – nos saraus locais e também na internet, onde mantém um blog. Segundo Adriana, a criação e a divulgação literária via web é algo muito comum entre escritores de favelas e periferias. “Mesmo muitas vezes sem acesso doméstico à internet, eles fazem das lan houses o território de criação e divulgação de suas obras”.

A intensa produção artística e cultural da favela é também uma prática de resistência, como destaca a historiadora: “Produzir arte e cultura nesse contexto, no qual pesa ainda um processo de criminalização das culturas populares, sobretudo as identificadas com estilos de vida de jovens negros, é ao mesmo tempo resistência e reexistência. Resistência em se manter vivo e manter viva a cultura dos subalternizados. Reexistência, pois a cultura ressignifica a vida, dá sentido ao cotidiano, é a afirmação da criatividade mesmo em meio à adversidade, é a liberdade de sonhar”.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: O artista plástico José Luiz é um dos personagens identificados no Acari Cultural. (crédito: Divulgação/ Acari Cultural/ Daniel Chaves)

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