Calçada do samba

Samba de Benfica leva cerca de 200 cariocas ao bairro da zona norte todo segundo e quarto domingo do mês

No seu Dicionário da Hinterlândia Carioca, Nei Lopes, compositor e pesquisador do espírito suburbano carioca, chama a atenção para as riquezas de Benfica: além da Cadeg e da Rua dos Lustres, mais conhecidos, também fica lá o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, apelidado de Conjunto do Pedregulho, que foi decorado por Portinari e Burle Marx e é considerado um clássico da arquitetura moderna, inclusive tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. As pérolas do bairro ainda vão bem além. Uma delas é o Samba de Benfica, roda de samba que acontece todo segundo e quarto domingo do mês, cada vez mais cheia e animada.

Samba de Benfica resgata uma tradição que vem de longe: “A conhecida roda de samba que acontecia no Bar Adônis na década de 80 foi um evento que marcou a história do samba no bairro – muitos sambistas consagrados frequentaram essa roda, como Camunguelo e  Moacir Luz. Mas a tradição do samba em Benfica é muito mais antiga. O bairro fica estrategicamente localizado entre 4 escolas de samba, Mangueira (1928) e Tuiuti (1954), na divisa com o bairro de São Cristóvão e ainda Jacarezinho (1966) e Manguinhos (1964) do outro lado, um verdadeiro “Quadrilátero do Samba”, e inevitavelmente a troca cultural entre as escolas se fazia também pelas ruas a arredores do Bairro”, conta Virgílio dos Santos, um dos idealizadores da roda e também do CIAB, Coletivo de Integração Artística de Benfica.

Benfica sempre foi terra de bambas e os músicos da roda têm inspiração farta. “Alguns músicos já fizeram morada no bairro, Paulão e Carlinhos 7 cordas são dois exemplos. Rodas de sambas “caseiras” sempre estiveram no cotidiano do bairro. E isso tudo nos influenciou em nossa iniciativa, tudo isso serve de inspiração”, diz o sambista. Na hora de enumerar os grandes mestres, Virgílio perde a conta: “Dos grandes compositores das velhas guardas da Portela, Império Serrano, Mangueira, como Manacea, Casquinha, Monarco, Cartola, Xangô da Mangueira, Wilson das Neves, passando pelas referências primordiais e indispensáveis na nossa roda como Roberto Ribeiro, João Nogueira, Roque Ferreira, Paulo Cesar Pinheiro, o Pessoal do Fundo de Quintal, Almir Guineto, Luis Carlos da Vila, Jorge Aragão, Beto Sem Braço, Nei Lopes, Wilson Moreira, Zeca Pagodinho, Jovelina e por aí vai!”.

O repertório do Samba de Benfica, porém, vai além das velhas guardas. “Temos a premissa de não ser um “samba de museu”, isso quer dizer não tocar apenas os clássicos; as músicas autorais são super valorizadas. Eu sou compositor, Rodrigo Mendes (um dos percussionistas) também, nossa músicas sempre são tocadas na roda. E além de músicas dos sambistas que já têm recentemente um trabalho reconhecido como João Martins e Luciano Bom Cabelo, sempre grandes amigos e compositores aparecem e cantam suas canções, o que nos deixa muito felizes. Sambistas como Bruno Cordeiro, Leandro Partideiro e JP Ribeiro sempre nos presenteiam com verdadeiras pérolas”.

Com tanta inspiração e bons músicos, só faltava o lugar ideal. Virgílio e seus amigos estavam em busca do “boteco ideal perdido” até encontrarem o bar Tô à Toa. “Um dia eu, que moro em Benfica, consegui achar o que a gente precisava: um bar tranquilo, uma calçada larga e cerveja gelada!”. Assim, desde 6 de fevereiro de 2011, a Rua Professora Ester de Melo vira sede do samba todo segundo domingo do mês. “Hoje somos dez músicos e temos em média uma frequência de 150 a 200 pessoas a cada samba”.

Antes de ser um movimento pelo samba, o Samba de Benfica é um grupo de amigos. Léo Rosário, um dos integrantes, explica o sentimento envolvido no encontro: “Sabe quando, depois de uma semana agitada, você fica torcendo para que chegue aquele domingo quando, na maior boa vontade, você chega cedo, monta o som, deixa tudo arrumadinho, pede aquela cerveja bem gelada para curtir aquele finalzinho de manhã típico de subúrbio? E, ansiosamente, aguarda cada um da rapaziada chegar para dar aquele abraço apertado em que se transmitem boas vibrações, para começar aquele samba sem compromissos, sem deturpações, e ver os sorrisos estampados em cada um dos rostos?”.

O clima é tão contagiante e a roda dá tão certo que o Samba de Benfica volta e meia extrapola os limites do bairro. “Nesse período de 2 anos e meio de existência nós recebemos alguns convites muito importantes: já tocamos algumas vezes na Estudantina, no Trem do Samba, em um evento do Clube do Samba. Já fomos ao MUF (no Cantagalo) fazer duas homenagens – uma ao Bezerra da Silva e outra a Clara Nunes – , no Amostra Grátis (Sesc/Norte Comum), no Curta Botequim (no Vidigal), no Centro Cultural Cartola e na Arena Carioca Dicró. Já tocamos em um verdadeiro terreiro de bamba que muito nos honra: o GRANES Quilombo, escola de samba criada pelo Mestre Candeia, um lugar mítico do samba”, conta Virgílio.

Um Rio de rodas

Os sambistas de Benfica já se conheciam de outras rodas que se espalham pela cidade e que também os inspiram, como as doRenascença ClubeBeco do Rato, o Samba da Feira da Glória, o Samba do Curvelo e a Criolice. A já clássica roda de samba da Pedra do Sal é apontada como uma “semente” do Samba de Benfica: “Nós temos uma relação de muito carinho e fraternidade com o pessoal da roda de Samba da Pedra do Sal, o samba que acontece as segundas, não só por acompanhar a trajetória da roda na militância em prol do verdadeiro samba, o samba justo, valorizado por todos os seus valores poéticos, musicais e históricos, pela manutenção de um discurso que preserva a essência do que a comunhão do samba é capaz. Cada vez que vou é uma verdadeira aula de samba. Sempre será uma ótima referência para todos nós”, diz Virgílio.
De roda em roda, o que se afirma é a identidade cultural carioca, especialmente a suburbana, que tira do samba não só o ritmo, mas um modo de ser. Virgílio explica com propriedade: “O samba é uma das matrizes culturais de maior relevância nos subúrbios cariocas. A cultura do samba; que expressa não só a musicalidade e a poesia, mas os usos e costumes, a culinária e também a religião; é um relicário importantíssimo da nossa forma carioca suburbana de ser. Ela nos ajuda a nos reconhecer, ter o sentimento de pertencimento, entender o passado e projetar o futuro. O samba é como uma crônica fidedigna da nossa gente. Ele é essencialmente primordial”.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Todo segundo domingo do mês é dia do Samba de Benfica.  (Crédito: Divulgação)

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