Tal qual um alquimista
Obra do artista plástico mineiro Domingos Tótora é tema de livro a ser lançado nesta terça-feira
Mesas, cadeiras, vasos e fruteiras de papel. A obra de Domingos Tótora, artesão, artista plástico e designer mineiro, desafia nossas expectativas ao apostar em uma matéria-prima inédita e exclusiva: a “DT”, matéria dobrável feita da aglutinação de massa de papel com cola. O processo criativo e sustentável que transforma lixo em objetos de design já lhe rendeu prêmios como o conferido pelo Museu da Casa Brasileira/SP na categoria mobiliário e o reconhecimento como um dos melhores profissionais do ano pelo Design Museum de Londres, em 2011. Seu trabalho ganha registro no livro Domingos Tótora, que Maria Sonia Madureira de Pinho lança nesta terça, dia 10, na Livraria Argumento, no Leblon.
Com prefácio de Adélia Borges e fotos do próprio artista, o livro não só percorre a obra de Tótora, mas destaca também seus fundamentos e origens, focando seu processo de fabricação, totalmente orgânico e inovador. “Percebi que uma quantidade imensa de papelão era descartada em Maria da Fé, minha cidade, e decidir experimentar criar essa massa com o papelão. Quando secou, percebi que estava muito próxima de uma madeira”, conta Domingos, que não gosta de ser chamado de designer. “Não sou designer, sou um mix de artista plástico, artesão e designer. Acredito que arte e design podem andar de mãos dadas”.
A tamanha fluidez entre a natureza e suas criações faz com que Tótora seja uma referência como artista e em ecodesign. Em suas peças resistentes e de extremo apelo tátil – cantoneiras, bancos, centros de sala, aparadores, estantes, poltronas, estatuetas, molduras para quadros, entre muitos outros – desenham-se sinuosas formas em tonalidades terrosas. Segundo Maria Sonia Madureira de Pinho, arte e natureza se completam na obra do artista.
“A coisa mais bonita do trabalho dele é essa relação com a natureza”, diz a arte-educadora, que conhece Tótora e sua obra há vinte anos. “Conheci o Domingos quando fui fazer um trabalho em Maria da Fé. Uma amiga já havia dito que eu tinha que conhecer aquela pessoa e o encantamento realmente foi imediato. Desde então nossa amizade vem se consolidando, muito baseada em trocas. Cada vez que eu ia lá levava alguma novidade, alguma revista com tendências, coisas sobre moda, design, etc”, conta.
Para a organizadora do livro, a criação e o talento do artista plástico são singulares. “Poucas pessoas têm a capacidade de transformar lixo em beleza. O Domingos faz isso, e sempre com o olhar muito atento àquilo que ele quer fazer”, diz Maria Sonia, que compara o artista a um alquimista na apresentação do livro. “Quando ele trabalha com caixotes de papelão que encontra na rua e os transforma em algum objeto, ele faz isso com uma linearidade muito grande: tem uma intenção desde o primeiro olhar. Ele me diz sempre que quer tentar fazer o papel virar de novo madeira. Essa é uma busca constante”, acrescenta.
Relação com a própria terra e suas gentes
Domingos, que dedica o livro aos artesãos da sua equipe que materializam as suas ideias, está atento também à ressonância social de seu trabalho. O artista mantém uma parceria com as artesãs de Maria da Fé, cidade onde vive e produz, no sul de Minas Gerais. Ele sempre deu aulas e quis transmitir seu conhecimento na cidade. “O grupo Gente de Fibra, de artesãs da cidade que trabalham com fibra de bananeira, foi fundado por ele”, conta Maria Sonia.
“Domingos uniu esse grupo de mulheres e deu um sentido à sua produção, juntando a sua massa com a fibra de bananeira. Esse grupo foi vigoroso e tem 15 anos de funcionamento, é considerado a cooperativa mais estável do país na área de artesanato. Até hoje são colaboradores”, explica Maria Sonia. Domingos atua como apoiador do grupo, que hoje caminha sozinho: “O trabalho do Gente de Fibra tem a cara de Maria da Fé”, diz Domingos.
Formado em artes plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Domingos define o seu trabalho como “o contemporâneo que vem do interior de Minas “, e mistura saberes do design, da arte e do artesanato, sempre retomando a terra de que partiu: “Hoje faço um trabalho contemporâneo vivendo em uma cidade de 15 mil habitantes no alto da Serra da Mantiqueira. Tenho um espaço próprio, amplo, onde a luz é matéria palpável. Viver lá e poder fazer esse trabalho contemporâneo sossegado, com tempo para criar, com qualidade de vida, é muito bacana”.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Design sustentável e orgânico: Domingos Tótora e sua matéria-prima (Crédito: Divulgação)