Criatividade universal
O trabalho do chinês Cai Guo-Qiang chega ao Rio de Janeiro com exposições simultâneas no Centro Cultural Banco do Brasil e no Centro Cultural Correios
A criatividade do homem comum é a matéria prima para a exposição Da Vincis do Povo, que se divide entre o Centro Cultural Banco do Brasil e o Centro Cultural Correios a partir de quarta-feira, 7/08. Assinada pelo chinês Cai Guo-Qiang, um dos maiores nomes da arte contemporânea do país, a mostra chega ao Rio de Janeiro depois de ser vista por mais de 700 mil pessoas em passagens por Brasília e São Paulo.
Em sua primeira individual em solo brasileiro, o artista que tem no currículo um Leão de Ouro na Bienal de Veneza de 1999 e um Praemium Imperiale de 2012 (prêmio semelhante a um “Nobel das artes”), apresenta 14 instalações de grande porte, feitas a partir de invenções de moradores da zona rural da China. “Pode-se dizer que sou um contador de histórias, onde a arte contemporânea é a minha linguagem e os camponeses e suas criações são os protagonistas e tema principal desta narrativa”, define Cai Guo-Qiang.
Com suas invenções, esses Da Vincis rurais mostram sua reação à rápida modernização chinesa e a questões políticas e sociais de sua terra natal, ao mesmo tempo em que falam de temas universais. “A mostra evoca o desejo inato das pessoas de buscarem o prazer a partir do ato humano da criação. Ela combina o charme do artesanal com a coragem de mostrar a importância das circunstâncias de um indivíduo. Em suma, representa a nossa curiosidade, eterna ingenuidade e nossos sonhos de liberdade”, continua o chinês.
Nas palavras do curador Marcello Dantas, Cai Guo-Qiang é um “escultor de cenários”. Em cada nova parada de Da Vincis do Povo, o artista criou novas intervenções pensadas a partir de cada um dos locais que receberia seus trabalhos. No Rio, o espaço central do CCBB será emoldurada por submarinos, aviões, helicópteros e discos voadores, suspensos em volta de um porta aviões erguido verticalmente, com 25 m de comprimento, numa espécie de obelisco em homenagem à criatividade dos inventores amadores.
A união de todas essas invenções num local só foi influenciada por características que Cai percebeu na vida do carioca. “Pessoas jogam flores no mar para Iemanjá enquanto ambulantes vendem biquínis na praia. Não muito longe dali, milhares de barracos se amontoam nas favelas, onde, ao entardecer, grande parte dos moradores empinam pipas em suas lajes e quintais”, declarou o artista, encantado com os muitos mundos que encontrou em passagem pelo Rio.
Destruição que gera arte
Cai Guo-Qiang se tornou conhecido pelas obras feitas com resíduos de explosões e pelas instalações pirotécnicas, e esse lado de seu trabalho também poderá ser visto na exposição. Produzidas a partir da queima de pólvora sobre papel ou tela, algumas das obras incluem referências ao Brasil. Carnival Rehearsal é uma ilustração de grandes proporções inspiradas no nosso Carnaval, e que se relaciona diretamente com o tema central da exposição: a criatividade das pessoas comuns. “Estrangeiros normalmente percebem o carnaval meramente como uma cerimônia ritualística, embora aos olhos dos brasileiros a comemoração seja uma arte. Esta ‘arte das pessoas’ é mágica e fantástica, sem perder a noção de realidade”, diz Cai.
A maioria das obras com pólvora estarão em exposição no Centro Cultural Correios, incluindo Alberto Santos Dumont, grande desenho que mostra imagens de aeronaves e homenageia o pai da aviação brasileira.
Para o curador da mostra, a exposição, nos dois espaços, é uma chance de viajar nos limites da arte e da imaginação. “A prática de Cai Guo-Qiang conseguiu fundir e confundir as fronteiras entre o espetáculo, a escultura e a instalação. A obra de Cai é a ponte entre mundos reais e imaginados. Estar nessa ponte é estar no equilíbrio entre esses mundos”, diz.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: A pólvora de materiais explosivos é usada para criar desenhos, na técnica que tornou o chinês conhecido (http://www.smithsonianmag.com/)