Por um norte comum

Rede de artistas da Zona Norte do Rio de Janeiro busca conectar bairros e estimular a produção cultural da região

“Quem não sabe de onde vem, não sabe para onde vai”. Esse é um dos lemas de uma turma que produz cultura na Zona Norte do Rio de Janeiro e mostra que o mapa das artes da cidade vai bem além do Túnel Rebouças. Unidos no Norte Comum, uma rede de articulação cujo objetivo é restabelecer meios de circulação e expressão cultural entre os bairros da região, cerca de 2 mil artistas propõem uma “inversão de rota” aos moradores que se deslocam para o Centro e para a Zona Sul em busca de diversão e arte.

A ideia nasceu da escassez de projetos e atividades relacionados à cultura nessa região. “O Norte Comum surgiu do interesse de diversas pessoas espalhadas pela zona norte  em se reunir para intervir no lugar onde moravam, inventando seu espaço na cidade, e assim fortalecendo o vínculo com o local onde vive”, explica Pablo Meijueiro, um dos articuladores da rede. “Em meados de 2011, criamos um grupo no facebook, que em pouco mais de 1 mês já tinha 700 pessoas, e dessas reuniões virtuais surgiu a necessidade de nos encontrarmos presencialmente. Toda semana então nos reuníamos na UERJ e pelas praças da Tijuca, Grajaú e Méier”, conta.

Hoje o movimento reúne cerca de 2 mil artistas, muitos integrantes de coletivos mais antigos que atuam na região: “CIAB, UPAC, Margens ClínicasMovimento Visão SuburbanaCopyfight… são muitos, que se formam juntos e a partir de outros. Dessa experiência comunitária começamos a pensar o Norte Comum como um espaço de encontro”, diz Pablo. O CIAB, por exemplo, é o Coletivo de Integração Artística de Benfica, que tenta fazer artistas de Benfica, Manguinhos, Jacarezinho, São Cristóvão, Mangueira e adjacências trocarem figurinhas. “Queremos pensar como esses artistas podem colaborativamente produzir coisas para a integração do bairro com a arte, para encaixar o subúrbio na paisagem a ser divulgada e explorada”, diz Virgílio dos Santos, coordenador do CIAB e colaborador do Norte Comum.

Além de artistas, o Norte Comum conecta também produtores, pesquisadores, estudantes, buscando diálogo com pontos de cultura, faculdades e favelas locais. “A escassez de canais de expressão para além do Túnel Rebouças é muito grande, e o único caminho para mudar esse cenário é pelas relações humanas, dando representatividade às lutas e as diferentes práticas. Devemos nos conhecer olho no olho, para em conjunto construir cenários futuros e novas formas de vida”, defende Pablo.

O projeto tem duas frentes gerais de atuação: a rede, que busca conectar todos aqueles “interessados em seu aprofundar em discussão a respeito do território, visando abrir espaço para a criação do comum”, e a produtora – coletiva e horizontal, que realiza manifestações artísticas na região. “Nessas duas frentes, nós nos dividimos em três núcleos de trabalho: design, articulação e produção. Fazemos de tudo um pouco, e na maioria das vezes trabalhamos para realizar projetos que criamos e desenvolvemos colaborativamente com outras pessoas. Quando fazemos algo por fora, são trabalhos vinculados a arte e a luta contra injustiça social, que quando remunerados, guardamos para manter nossa luta”, explica Pablo.

As ações impulsionadas pela rede suburbana vão de ocupações de ruas e praças com eventos artísticos – como o Geringonça – a passeios fotográficos pelos bairros com o projeto Um outro olhar, que realiza percursos pela Zona Norte buscando registrar facetas desconhecidas dos bairros. Recentemente o Norte Comum marcou presença no Ocupa Nise, o III Congresso da Universidade Popular de Arte e Ciência, a UPAC, sediada no Hotel da Loucura – parte do Hospital Nise da Silveira, antigo hospício localizado no Engenho de Dentro. “A UPAC traz a possibilidade de uma Universidade sem paredes, sem pré-requisitos… vem da visão de educação que toma a vivência como caminho e considera o saber/experiência como ponto de partida e base da produção do conhecimento. Ocupamos o Hotel da Loucura tendo a cultura como remédio e a arte como possibilidade”, conta Pablo.

As propostas se multiplicam e incluem a criação de um calendário com todos os eventos realizados na região, a realização de mutirões ecológicos para “esverdear” as praças locais, a luta pela reabertura de extintos cinemas de rua, a criação de cineclubes, a produção de documentários sobre os bairros, etc. Metas audaciosas, mas que têm sido abraçadas por cada vez mais gente bacana e disposta a pôr a mão na massa para dar visibilidade e vitalidade à cultura pulsante de bairros tão diversos e inspiradores como Madureira, Méier e São Cristóvão.

“Quem faz cultura é o povo e a Zona Norte sempre foi um dos expoentes da criação artística na cidade. O pulo do gato se dá na expansão das tecnologias de informação que aos poucos reverte a desigualdade e o preconceito que a Zona Norte sofre em despeito do resto da cidade. As práticas sociais que eram marginais ou tidas como “secundárias” tomam uma nova dimensão quando se utilizam das tecnologias em rede. Dando uma representação mais completa da cidade, onde o sentimento de pertencimento de cada cidadão se faça presente”, conclui Pablo.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Varal fotográfico no Largo do Pedregulho, em Benfica: fruto do projeto Um outro olhar.  (Crédito: Divulgação)

 

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