Celebração do hibridismo
Festa Literária Internacional de Paraty começa nessa quarta-feira, 3/07, com programação onde a convergência de saberes é a atração principal
Uma festa que avance nos limites da linguagem literária. Seja misturando prosa e poesia ou adentrando no mundo do cinema, da música e de outras formas de arte, a Festa Literária Internacional de Paraty desse ano tem nas muitas possibilidades do hibridismo sua maior inspiração. A 11ª edição da FLIP começa nessa quarta-feira, 3/07, com uma seleção de 41 convidados, sendo 23 brasileiros e 18 estrangeiros.
O Centro Histórico de Paraty vai receber uma vasta mostra de grandes pensadores das mais diversas áreas do conhecimento e arte: entre os convidados, estão as cantoras Maria Bethânia e Miúcha, os cineastasEduardo Coutinho e Nelson Pereira dos Santos, o historiador de arte britânico TJ Clark, o arquiteto Eduardo Souto de Moura e o crítico de arquitetura da New Yorker Paul Goldberger. A escolha dos escritores, figura mais naturalmente associada à FLIP, também reflete em muitos momentos a busca de convergência de linguagens que guiou a montagem da programação de 2013. “Em muitos autores presentes nessa edição, vemos um traço comum, que é um desejo de uma exploração dos limites do discurso ficcional e literário. Autores comoJérôme Ferrari ou Lydia Davis têm livros em que há uma aproximação entre ficção, poesia, pesquisa histórica, autobiografia, enfim, uma exploração de um hibridismo que é sempre muito estimulante”, diz o curador da FLIP 2013 Miguel Conde.
Na lista de autores, estão ainda o poeta Tamim Al-Barghouti, figura central na primavera árabe; a franco-iraniana e apaixonada por Vladmir Nabokov Lila Azam Zanganeh; o norte-americano Tobias Wolff; o norueguês Karl Ove Kanusgard; o jornalista e autor inglês Geoff Dyere o editor norte-americano John Jeremiah Sullivan. Entre os escritores brasileiros, destaque para a convergência de gerações. “Começamos pelo Nicolas Behr e o Zuca Sardan, nomes que surgem na década de 70 entre os autores mais importantes da dita ‘poesia marginal’ – mas que até hoje continuam dando contribuições centrais para a literatura brasileira. Depois, temos Milton Hatoum talvez num papel de uma geração intermediária, entre os anos 80 e 90, e finalmente seis autores mais jovens: Alice Sant’Anna, Ana Martins Marques, Bruna Beber,José Luiz Passos, Daniel Galera e Paulo Scott”, enumera Conde.
Homenagens a Graciliano Ramos e destaques da programação
O alagoano Graciliano Ramos foi escolhido o grande homenageado da FLIP, no ano em que são lembrados os 60 anos de sua morte (o autor nasceu em 20 de março de 1953). O autor de Vidas Secas é celebrado logo na conferência de abertura, na quarta-feira, 3/07. IntituladaGraciliano Ramos: Aspereza do Mundo e Concisão de Linguagem,será comandada por Milton Hatoum. “Milton é um leitor apaixonado de Graciliano, e Angústia (romance do alagoano lançado em 1936) foi um livro decisivo em sua formação como escritor. Então, acredito que sua fala combine um pouco de um relato mais pessoal de leitor com uma reflexão sobre a relação da obra de Graciliano com seu tempo, a partir desa dupla figura da concisão e aspereza”, adianta Miguel.
A festa segue com show de Gilberto Gil, que volta à FLIP depois de ter se apresentado na abertura de sua primeira edição, em 2003. Ao lado do paratiense Luis Perequê, Gil promete um show intimista, na base do violão e percussão, em que revisa os maiores sucessos de sua carreira. O cantor volta à tenda principal da FLIP no dia seguinte, quinta-feira, 4/07, na mesa Zé Kléber, voltada para a discussão de políticas públicas. Ao lado da pesquisadora Marina de Mello e Souza, autora do livroParaty, A Cidade e As Festas (2008), Gil discutirá o projeto do Defeso Cultural, criado por Perequê. “Em 2009 a gente fez uma mesa Zé Kléber sobre economia criativa, e foi uma conversa muito impactante para os paratienses. Foi essa mesa que inspirou o Perequê a criar o conceito do defeso cultural. ‘Defeso’ é um termo usado na pesca, em referência ao período de reprodução do camarão”, explica Mauro Munhoz, diretor geral da festa e diretor-presidente da Associação Casa Azul. “Na época de reprodução, o camarão tem uma teia de ovos extremamente delicada, que o caiçara sabe que o remo pode destruir. O Perequê chama então atenção para isso, que a cultura é a mesma coisa, temos que ter o mesmo cuidado”.
A sexta-feira, 5/07, tem dose dupla do autor homenageado, começando pela mesa Graciliano Ramos: Ficha Política. “Obviamente é um título irônico, porque não se pretende chegar a nenhum tipo de veredito oficialesco a respeito do engajamento político do Graciliano. Pelo contrário, a tentativa é reunir críticos com perspectivas distintas a respeito da atuação política dele, que sempre se deu de uma maneira pouco ortodoxa”, conta Miguel Conde, adiantando detalhes da mesa que contará com Randal Johnson, Sergio Miceli e Dênis de Moraes. Mais tarde, Nelson Pereira dos Santos e Miúcha se unem para lembrar a carreira do cineasta na mesa Uma Vida no Cinema. “Será uma conversa sobre a obra de Nelson como um todo, mas com atenção particular a esses dois momentos de relação mais próxima com o trabalho de Graciliano, quando o cineasta adaptou Vidas Secas eMemórias do Cárcere para as telas”.
Ainda na sexta-feira, outro destaque é o encontro de Maria Bethânia e da professora emérita da UFRJ e da PUC-Rio, Cleonice Berardinelli. Na mesa Lendo Pessoa à Beira-Mar, juntam-se as pesquisas de Cleonice, uma das maiores estudiosas de Fernando Pessoa no Brasil e autora da segunda tese no mundo feita sobre o poeta, e a admiração de Bethânia, que ao longo de sua carreira vem constantemente integrando versos do português em seus espetáculos e discos.
Outra mesa aguardada acontece no sábado, 6/07, quando Lydia Davis eJohn Banville discutirão Os Limites da Prosa. Os dois destacados autores contemporâneos chamam atenção pelo ânimo inventivo de sua literatura, que não tem medo de experimentar mesmo numa época em que se diz que “todas as regras já foram transgredidas”.
O último dia de festa volta a lembrar o maior homenageado desta edição com a mesa Graciliano Ramos: Políticas da Escrita. No domingo, 7/07, Wander Melo Miranda, Lourival Holanda e Erwin Torralbdo Gimenez se unem para desmitificar conceitos sobre a literatura de Graciliano, e mostrar como suas preocupações estéticas refletiam um pensamento muito próprio sobre o uso da arte como instrumento de crítica e liberdade.
FLIP Mais: programação paralela e novas chances de encontro
Criada com o objetivo de permitir novas oportunidades de participar da programação de alta qualidade da Festa, a FLIP Mais planeja uma série de atividades paralelas na Casa da Cultura e na tenda do telão. São no total 19 eventos, que acontecem entre quinta-feira, 4/07 e sábado, 6/07.
Graças à FLIP Mais, o público poderá se encontrar com nomes como Ruy Castro, renomado biógrafo que, com o lançamento de Morrer de Prazer, se lançou no desafio de escrever sobre sua própria vida. Ruy conversa com o jornalista Paulo Werneck sobre a empreitada na quinta-feira, 4/07. O dia conta ainda com a exibição de Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos.
Honrando a propensão da FLIP de ser uma festa agregadora, no dia seguinte, 5/07, a Casa da Cultura recebe o músico Lobão e o crítico André Barcinski na mesa Rock, MPB e Cultura Popular. Um dos destaques da programação desse ano, Lydia Davis é convidada da mesaTraduzir Flaubert, em que encontra o também apaixonado pelo escritor francês Samuel Titan Jr, em conversa mediada por Guilherme Freitas. “É outra oportunidade de ouvir Lydia falar, já que ela também está na programação principal. E Samuel Titan Jr é hoje o maior estudioso da obra de Flaubert em língua portuguesa. Então, é uma chance valiosa de ver dois grandes intelectuais discutindo a obra de um dos mais importantes escritores modernos”, comenta Conde.
No sábado, 6/07, o argentino Eduardo Sacheri discute as interações entre cinema e literatura a partir do livro e do roteiro de sua autoria que deram origem ao premiado longa O Segredo Dos Seus Olhos. Na mesma vibede convergência de mídias, a apresentação Poesia em Performancecombina dança e música ao tradicional recital de versos. A britânica Malika Booker e a brasileira Roberta Estrela D’Alva serão as responsáveis por esse encontro.
Dentro da programação da FLIP Mais, estão inclusas também as atividades das Festas de Paraty. Resgatando a tradição folclórica da cidade da Costa Verde, foram convocados grupos de dança, música típica, forró e exposições de artistas locais. Entre os convidados, estão o Grupo Chama Maré, a banda Randhale, os Blocos de Bonecos Arrastão do Jabaquara e Assombrosos do Morro e a Banda Santa Cecília, com apresentações noturnas na tenda da Flipinha. Além disso, três exposições mostram a cara da arte local: na Praça da Matriz, estarão os Bonecos na Praça, feitos em papel machê. Na tenda dos autores, ficam as pinturas em guache de Julio Paraty. E, na Praça da Santa Casa, estarão as criações de Dalcir Ramiro (cerâmica), Patrícia Sada (madeira) e Milton Mota (ferro), na mostra Artistas de Paraty.
Mesas extras
Atentos às manifestações que vêm sacudindo o país nas últimas semanas, os organizadores da FLIP planejaram três mesas extras, com o intuito de melhor entender esse momento. “Seria inevitável que esse tema acabasse aparecendo, já que, até pela homenagem a Graciliano Ramos, há uma presença muito forte de temas políticos na programação. Mas queríamos além disso abrir um espaço para discutir os protestos com mais profundidade, num momento em que todo mundo tem ainda um pouco de dificuldade para analisá-los. Buscamos a diversidade de pontos de vista, tentando pensar o tema de ângulos variados”, explica Miguel Conde.
A primeira delas acontece na quinta-feira, 4/07, e faz parte da programação da FLIP Mais. Marcus Vinicius Faustini (escritor e diretor teatral, criou a Agência de Redes para a Juventude), Pablo Capilé (coordenador da rede Fora do Eixo), Fabiano Calixto (organizador de um ebook de poesias baseadas nas manifestações) e Juan Arias (correspondente do jornal espanhol El País) revisarão os inúmeros e diversos relatos sobre as manifestações que pipocam das mais diferentes mídias, abrangendo do ativismos social à grande imprensa.
Os outros dois encontros acontecem no sábado, 6/07. Intitulada Da Arquibancada à Passeata, Espetáculo e Utopia, a mesa reúne T.J. Clark, Tales Ab’Saber (autor de A música do tempo infinito) e Vladimir Safatle (autor de A esquerda que não teme dizer seu nome e colunista da Folha de S.Paulo) e faz parte da programação principal da festa. Os três pensadores, mediados por Mário Sérgio Conti, discutirão os contrastes na relação da sociedade com o futebol, num momento em que os jogos da Copa das Confederações se tornam ponto de atração de protestos em diferentes cidades brasileiras. Por último e voltando à FLIP Mais, O Povo e O Poder no Brasil coloca em pauta as insatisfações que levaram à onda de manifestações. André Lara Resende, ex-presidente do Banco Central e do BNDES, e Marcos Nobre, professor da Unicamp e estudioso da cena política brasileira, tentam responder questões latentes surgidas com os protestos, auxiliados pela mediação do jornalista William Waack.
A FLIP tem ainda atividades voltadas só para crianças (a Flipinha) e só para adolescentes (a FlipZona). Confira todos os detalhes em nossa programação cultural: FLIP 2013 (programação principal), FLIP Mais,Flipinha, FlipZona e Festas de Paraty.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Gilberto Gil toca com o paratiense Luis Perequê no show de abertura da FLIP 2013 (Crédito: Divulgação )