Uma história universal e atemporal
René Sampaio, diretor do longa Faroeste Caboclo, comenta o processo de adaptação da música da Legião Urbana para as telonas
Ao longo de 159 versos e pouco mais de 9 minutos, o Brasil conheceu em 1987 a saga de João de Santo Cristo. O menino pobre que sai do interior da Bahia para tentar a sorte na capital do país era o anti-herói deFaroeste Caboclo, uma das mais conhecidas canções da Legião Urbana. Agora, a jornada cheia de caminhos tortuosos de Santo Cristo e sua amada Maria Lúcia ganha as telas, na adaptação dirigida por René Sampaio que estreia nessa sexta-feira, 31/05.
No longa, Santo Cristo e Maria Lúcia são encarnados por Fabrício Boliveira e Ísis Valverde. Jeremias, o grande rival dessa literatura de cordel em formato de canção, foi defendido por Felip Abib. Os três são os protagonistas de uma adaptação que buscou fugir do formato de videoclipe. “Tentamos criar uma narrativa cinematográfica com a emoção da canção sem ser algo literal”, diz o diretor.
Na entrevista ao cultura.rj, René Sampaio conta detalhes do processo de adaptação e comemora a boa recepção da empreitada. “Vejo as salas lotando (o filme teve pré-estreias desde quarta-feira, 29/05), com gente voltando para casa por não conseguir ingresso. Não temos o mesmo número de cópias que os grandes lançamentos americanos, mas estamos fazendo bonito, e peço que o pessoal lote as salas nesse fim de semana de estreia”. O longa-metragem tem, entre seus patrocinadores, a Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro.
‘Faroeste Caboclo’ foi lançada em 1987, no disco ‘Que país éeste?’, e sempre chamou atenção pela forte narrativa de 9 minutos. O que a adaptação para o cinema traz de novo para os que já conhecem a história de Santo Cristo, Jeremias e Maria Lúcia? Como foi o processo de passagem da música para as telas?
Eu me interessei pela música também em 87, quando ouvi já achei que daria um filme. Mas era uma coisa de menino que sonhava em ser diretor, jamais poderia imaginar que um dia ia fazer o filme mesmo. A gente procurou ser muito fiel ao espírito da música, até porque sou fã, mas ao mesmo tempo criar uma narrativa cinematográfica para passar a emoção da canção sem ser algo literal – porque aí seria um videoclipe. E uma coisa que tentamos fazer também foi preencher as lacunas da música. Por exemplo, não explica por que a Maria Lúcia ficou com o Jeremias. E a Maria Lúcia mesmo pode ser qualquer coisa, a letra só diz que era linda. Mas para você falar que uma pessoa se apaixona pela outra tem que ir além do prazer estético, para essa história de amor valer não pode ser só porque a menina é bonita, tem que ir além. A gente aprofundou bastante as questões dos personagens para montar essa história, até porque quando você ouve a música, com sua narrativa do estilo de cordel, ela abre janelas para você olhar para onde quiser e imaginar o que quiser. O filme, por sua vez, te leva para outros caminhos, e te libera para pensar no assunto quando a sessão termina. A música abre esses caminhos no momento em que está tocando, o filme tem que te prender de outra maneira, para você pensar mais a fundo depois que sai do cinema. São duas experiências diferentes, ouvir uma música de nove minutos e ver um filme de 100, mas tentamos fazer dessa uma experiência bacana tanto para quem ouve a música quanto para quem não conhece.
A letra da música chama atenção pela crueza das cenas e pela dubiedade de seus personagens – herói da canção, Santo Cristo, por exemplo, se envolve com roubos e tráfico de drogas. O que explica o sucesso de uma obra tão cheia de nuances, e como ela se mantém atual?
Não sei o que explica, e talvez para descobrir isso que eu tenha feito o filme, nessa busca para entender por que até hoje essa música e o filme sejam pertinentes. Acho que dialogam com verdades universais, que não têm muito a ver com um momento político específico – se você tirar essa questão da música, ela continua de pé. Porque lida com temas muito atuais de tolerância e medo, mas, acima de tudo, com a história atemporal de um homem que sai em busca de sua felicidade e de seu destino.
‘Somos Tão Jovens‘, biografia de Renato Russo, foi a sexta maior estreia do cinema nacional desde a retomada. Faroeste Caboclo, por sua vez, bateu recordes de visualização em 48 horas com o lançamento de seu trailer no youtube, visto por 1, 5 milhões de internautas. A que se deve esse fascínio pelo músico e pela Legião Urbana, quase 20 anos depois de sua morte?
Arriscaria dizer que tem a ver com o fato de ser uma obra atemporal. Alguns artistas fazem sucesso no momento, mas mesma obra não permanece interessante para futuras gerações, talvez porque sejam produtos de massa ligados fortemente ao momento que são lançados. Já grupos como Legião, os Beatles e artistas como Bob Dylan têm um trabalho bem universal, pertinente, e profundo – o que torna a obra permanente. O que o artista mais deseja é a permanência de sua obra, todos buscam deixar uma marca mas podem acabar ficando datados. E é impressionante como a molecada ouve Legião. Ontem fui ao cinema numa sessão normal, eram 210 lugares e nenhum estava sobrando. E só tinha garotada! Não era a galera de 50, 40 anos que viveu aquela época, tinha muita gente de 16, 17 anos, jovens de 14 acompanhados de responsável. É uma loucura.
O sr estreia em longa depois de uma carreira bem sucedida em publicidade, que já lhe valeu o Leão de Prata em Cannes, em 2005. Como a influência da linguagem publicitária aparece em Faroeste Caboclo?
Acho que ela aparece na questão de eu já ter muita experiência de lidar com set, de maneira que pude exercitá-la e trabalhar muito bem com ela. Coisa que para um diretor com menos experiência se torna mais um problema. Eu já sabia lidar com a lógica do dia-a-dia de filmagem e pude dedicar mais tempo a outras questões e desafios que tinham a ver com o longa. Fazer um longa é uma maratona, e um comercial é uma corrida de 100 metros rasos, onde, mesmo que você corra mal, você chega. A diferença é que o cara que ganha a corrida faz o trajeto com perfeição, é um Usain Bolt, onde cada passada é um golpe de gênio e cada microssegundo conta. Eu não dou conta de correr uma maratona e talvez nem o Bolt consiga, porque tem outras preocupações, com ritmo, coerência, milhares de outras questões que não aparecem numa corrida curta. O longa tem isso, são coisas bem diferentes. Com a experiência do comercial, você já tem um preparo físico para enfrentar um longa-metragem, mas precisa ligar outra chave para colocá-lo em movimento.
O sr já tem novos projetos cinematográficos em andamento? Poderia falar um pouco sobre eles?
Tenho, claro. Estou elaborando uma comédia. Ao mesmo tempo, estou fazendo um trabalho muito profundo que já veio dessa experiência do longa. É um filme sobre atores e os dramas da preparação e luta pelo personagem. Vendo a gana, a dedicação com que os atores procuram o personagem e tudo que envolve esse trabalho incrível e difícil de atuar, tive vontade de falar sobre isso. Que também me parece um tema bem universal, todo mundo tem um objetivo, quer alguma coisa, e os atores são só uma das profissões mais visíveis de quem se entrega por algo. Por fim, tenho um projeto maior e ainda embrionário, de um filme sobre a Guerrilha do Araguaia. Ao mesmo tempo, estou aberto para diálogo com novos roteiristas e projetos interessantes, não só para cinema. Tenho um projeto pessoal meu, a produtora Fulano Filmes, com sede em São Paulo e no Rio. Temos uma área de entretenimento para TV, que é um mercado muito interessante, com o objetivo de nos tornamos um dos principais players do mercado de produção cinematográfica e audiovisual. Sobretudo no Rio, que está se tornando um dos melhores mercados para televisão atualmente.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Fabrício Boliveira vive o anti-herói João de Santo Cristo (crédito: Divulgação/Hugo Santarem)