Ensaios sobre a ameaça
Carmela Gross cria apreensão a partir de inofensivas escadas na Casa França-Brasil
Uma passagem para alcançar alturas sonhadas ou um instrumento que possibilita transgressões e invasões? Em Escadas, mostra individual da paulista Carmela Gross, esse utensílio banal de nosso dia-a-dia ganha novas significações. A exposição será inaugurada no espaço neoclássico da Casa França-Brasil na terça-feira, dia 4/06, com abertura às 19h. A artista conduzirá uma visita guiada no dia.
Carmela, que tem obras em coleções importantes como as do Museum of Modern Art de Nova York, a Pinacoteca, o MAC e o MAM de São Paulo, entre outras, se notabilizou nos últimos anos pelos trabalhos em que brinca com ambigüidades e oposições de ideias, conceitos e sensações. Na instalação que dá nome à mostra e estará montada no vão central da Casa França-Brasil, 13 escadas, algumas com até 10 metros de altura, são dispostas de maneira a criar sentimentos dúbios.
Essa sensação é reforçada pela luz de lâmpadas fluorescentes brancas, dispostas ao longo de seus degraus e traves. Ao mesmo tempo em que as escadas representam “ganhar alturas, ultrapassar barreiras e potencializar o gesto humano de atingir coisas que se deseja com os olhos”, diz a artista, guardam em si um quê ameaçador. “Esse conjunto de escadas por si só constitui um elemento agressivo, e com as lâmpadas se torna visualmente ainda muito mais potente”.
A questão da ameaça e do medo perpassa as outras obras da mostra. Em Escada de Emergência, lâmpadas tubulares verdes e vermelhas formam a ideia de duas escadas, que no entanto não oferecem saída. “Ela fala de uma emergência, um aviso de incêndio, mas as escadas são inúteis, só servem para os olhos, são apenas uma imagem, não um instrumento que te ajude”, explica Carmela. Na sala 3, mais de 300 peças fundidas em latão e banhadas a níquel, em formatos que lembram cobras, preenchem o chão. “Essa não se encontra com as demais obras pelo material, mas sim pelo sentido de perigo. As cobras, como uma força da natureza, são um animal muito ameaçador”. Por fim, o vídeoLuz Del Fuego traz à memória a bailarina e feminista brasileirafamosa nos anos 40 e 50, mas se prova mais um ensaio sobre medos e receios do mundo moderno. “Reuni imagens de incêndio, brigas de rua e tudo que tenha fogo”, conta a artista.
Vandalismo
Em suas últimas exposições, a Casa França Brasil tem dado liberdade ao artista principal para convidar um nome de sua preferência para ocupar o Cofre, pequeno espaço de exposições anexo ao salão principal. “É uma estratégia que tem dado certo por promover um diálogo interessante entre as obras e as trajetórias dos artistas. Assim foi com José Rufino e Efrain Almeida, com Laércio Redondo e Daniel Steegmann e será, agora, com Carmela Gross e Marcelo Cidade”, diz Evangelina Seiler, diretora da Casa França-Brasil.
Marcelo Cidade mostra o vídeo Quase Nada (2008), que dialoga diretamente com os temas tratados por Carmela através de suas montagens com escadas. “Ele mostra, por exemplo, pichações clandestinas em trens de metrô de São Paulo, e a violência urbana”, diz a artista. Com seu vídeo, Cidade questiona o valor e o entendimento de registros documentais de atos de vandalismo.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Escadas que não levam a lugar nenhum dão a sensação de apreensão (crédito: Divulgação )