Os paraísos de Sebastião Salgado
Gênesis mostra imagens do planeta Terra intocado, em grande exposição no Museu do Meio Ambiente, Jardim Botânico
Registros das regiões mais primitivas do globo, reunidas em um dos cenários verdes mais belos do Rio de Janeiro. É isso que traz a mostraGênesis, a mais nova exposição inédita do fotógrafo Sebastião Salgado, resultado de um grande projeto de catalogação fotográfica, iniciado em 2004. Em cartaz no Museu do Meio Ambiente, dentro do Jardim Botânico, a partir de quarta-feira, 29/05, a exposição traz um total de 245 fotografias, dentre as quais 52 expostas em grandes painéis ao ar livre, entre as majestosas palmeiras imperiais do parque.
“Não teria lugar melhor para expor um trabalho sobre o planeta do que no Jardim Botânico, com fotos que se integram à natureza”, diz a curadora Lélia Wanick Salgado e esposa de Sebastião Salgado há mais de 40 anos. As quase 250 imagens foram tiradas ao longo de 8 anos (entre 2004 e 2011) e 32 viagens, em que o fotógrafo visitou ambientes intocados, cuja natureza e habitats permanecem com seu cotidiano tal qual quando do começo do planeta- ou seja, tal qual a sua gênesis. A mesma exposição também está exposta, desde abril, em Londres, no Natural History Museum.
Reconhecido como um dos maiores fotógrafos do mundo por grandes trabalhos em que as conseqüências da vida moderna sobre os seres humanos eram o foco – a exemplo de Trabalhadores (1986-1992) eÊxodos (1994 – 1999) -, agora Salgado decidiu se debruçar sobre um tema inédito em sua trajetória profissional, iniciada em 1973. “Dessa vez, o projeto não seria sobre um só animal que fotografei toda minha vida – nós -, seria sobre todos os outros animais, as paisagens e ‘os nós’ que ainda existimos como há 10 mil anos, como há 50 mil anos. Os nós do início dos tempos”, diz Salgado.
Através de suas imagens, o público pode ver montanhas, desertos, florestas, tribos, aldeias e animais que vivem em seu tempo próprio, longe da aceleração e do desrespeito à natureza da vida contemporânea. São cinco seções no total, divididas no que a curadora Lélia chama de “ecossistemas”, selecionados pela sua proximidade geográfica. Na primeira seção, as fotos do Planeta Sul são reunidas em paredes pintadas de cinza claro, e mostram as paisagens geladas da Antártica, das Ilhas Malvinas e Sandwich, o sul da Georgia e o arquipélago Diego Ramirez. Em Santuários, cuja cor-guia é o azul esverdeado, viajamos para um conjunto de ilhas singulares que reúnem grande parte do ecossistema do planeta, como as Ilhas Galápagos e Madagascar. Encontramos também as populações milenares de Nova Guiné e da Indonésia.
Na terceira seção, dedicada à África, é o vermelho de sua temperatura vibrante e do calor humano de seus habitantes que emoldura as imagens em preto e branco de seus desertos, de suas florestas onde vivem gorilas e tribos tradicionais de Botswana, Sudão e Namíbia, além de comunidades cristãs do norte da Etiópia. Em Terras do Norte, o cinza escuro nos guia pelo Alasca e pelo norte dos EUA e Canadá, além de tesouros da Rússia como o local de reprodução do urso polar e a tribo Nenet, da Sibéria.
Por fim, Amazonia e Pantanal, adornada pelo verde da imensa floresta tropical, tem registros do Brasil e vizinhos como a Venezuela, com destaque para as imagens dos encontros com tribos do alto do Rio Xingu e do Rio Amazonas visto do céu.
Reconciliação com a fotografia
A exposição Gênesis teve sua abertura mundial em abril, no National History Museum de Londres. Para Salgado, apresentar o trabalho no Brasil tem um significado especial, já que foi a partir de um projeto iniciado aqui que o fotógrafo começou a pensar em Gênesis.
Salgado lembra que, nos anos 90, logo depois de terminado os 5 anos dedicados a Êxodos, questionava os rumos de sua profissão. “Quando fiz esse trabalho, terminei muito marcado pelo que eu vi na África, pela violência e brutalidade total do que presenciei. Estava mal, psicológica e fisicamente, e não tinha condições de fotografar mais. Coincidentemente, foi o momento que meus pais ficaram velhinhos e resolveram transferir, para mim e Lélia, uma fazenda,onde eu e minhas irmãs crescemos.” A localidade, em Minas Gerais, estava em sua memória como um paraíso, mas não foi esse cenário que o fotógrafo encontrou. “Quando a gente recebeu essa terra, ela estava tão doente quanto eu. A terra estava morta, como todo o Vale do Rio Doce”, recorda. Foi a partir daí que Salgado e sua esposa se jogaram numa jornada de reconstrução, com reflorestamento total da propriedade, que deu origem ao Instituto Terra. “No final do ano passado, chegamos a 2 milhões de árvores plantadas. Estamos recuperando um ecossistema fabuloso, que na realidade é muito melhor que o paraíso onde eu cresci. Estamos com onças que já estão voltando, mais de 170 espécies de pássaros, praticamente toda a linha de mamíferos da Mata Atlântica hoje nós temos, além de abrigarmos o maior viveiro de plantas nativas do Estado de Minas Gerais”, comemora.
Foi a partir dessa experiência, levada a cabo com apoio de instituições como a Vale, a Natura e o Fundo Brasileiro da Biodiversidade, que o fotógrafo recuperou seu encanto pela sua eterna paixão. “Vendo a floresta voltar, a vida voltar e a água renascer, foi renascendo a vida dentro da gente e a vontade de fotografar”.
Parente animais e humanos de milênios atrás
Em sua jornada para registrar o 46% da área do planeta que se mantém como no dia do Gênesis, Salgado passou por várias situações complicadas – afinal, uma das razões que explica o estado intocado dessas regiões está em sua dificuldade de acesso. Para chegar a um parque na Etiópia, teve que caminhar por 55 dias a pé, em trilhas montanhosas precárias por mais de 850 km. Na Sibéria, o transporte é feito por trenós puxados por mais de 7 mil renas, num frio extremo que transformou um rio de 47 km de largura numa placa de gelo. “Fotografar e viver nessa temperatura não é fácil. Passei 47 dias sem tomar banho, porque não sobra água”, recorda.
Dessa experiência, ficou um repensar de sua própria vida. “Vendo uma população gravitando dentro do clima extremo e com o mínimo de bens que você possa imaginar, fiz uma autocrítica muito grande. A gente vai comprando, acumulando coisas que não têm serventia nenhuma . E esse pessoal tem o que pode colocar num trenó, se não cansa demais as renas, é o que eles têm. Ali eu vi o conceito de essencial. E vivem tão felizes quanto nós vivemos”, conta Salgado, que percebeu ainda uma identificação muito forte com essas comunidades afastadas, independente das diferenças à primeira vista. “O amor que eu tenho pelos meus filhos, é o mesmo amor que as comunidades indígenas dos primórdios têm pelos filhos deles. O senso comunitário, de solidariedade, eles já têm. Mesmo os medicamentos. Eles têm os antibióticos próprios, têm antiinflamatório, têm uma ideia perfeita de conservação do solo, muito melhor do que o que nós temos. Um índio quando lança uma flecha é uma lição de balística perfeita. É um cálculo matemático intuitivo, onde nós só colocamos números. Todos esses foram momentos fantásticos de reencontro com nós mesmos de há 5 mil, 10 mil anos. Não evoluímos nada, no que diz respeito ao que é essencial na vida. Tudo nós já tínhamos”.
A partir das fotografias reunidas em Gênesis, o fotógrafo espera que o público sinta a mesma relação com a Terra que ele sentiu em contato com os “parentes” mais inusitados. “Quando fui fotografar uma iguana em Gualápagos, pensei que esse animal não tinha nada a ver comigo, é muito mais próximo de um dinossauro. Mas quando botei uma lente macro na pata da iguana, eu vi a mão de um guerreiro da Idade Média, com as luvas de metal para se proteger na luta. Até as angulações que eu tenho na mão, ela tem igualzinha, os cinco dedos, tudo certinho. Ai você vê que a iguana é minha prima, eu descobri um parente, porque nós todos viemos da mesma célula. A gente tem que entender essa relação, aprender a ver e a viver menos rápido, a observar tudo no planeta, e fazer esse retorno em direção à natureza. Senão, corremos o grande risco de perder esse elo, essa ligação, e depois não ter mais direito de voltar atrás”.
———-
Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Comunidades primitivas também foram clicadas (Crédito: Projeto Gênesis/Sebastião Salgado )