Guerrilha cultural em debate na UFRJ
Encontro na Escola de Comunicação da UFRJ debate acesso livre ao conhecimento produzido nos centros de ensino e pesquisa
Cultura livre, redes, coletivos e produção colaborativa são expressões e práticas que fazem parte do vocabulário de muitos internautas, produtores culturais, pesquisadores e estudantes. No entanto, a legislação brasileira não incorporou essas expressões aos seus textos e muitas vezes atua no sentido contrário da democratização do conhecimento e da circulação dos saberes. Contra isso, Pablo De Soto, doutorando da Escola de Comunicação da UFRJ, apoiado pelo Pontão da Eco e em parceria com o MediaLab.UFRJ, promove nesta quinta, dia 9 de maio, a Chamada à Guerrilha do Acesso Aberto!, a partir das 18h.
O objetivo do encontro é responder à chamada lançada por Aaron Swartz no seu Manifesto da Guerrilha do Acesso Aberto, escrito em 2008. Vários sites passaram a republicar o manifesto de Aaron depois de sua morte, em janeiro desse ano. Estudante do Massachusetts Institute of Technology (MIT) , Aaron baixou arquivos do JSTOR, plataforma online que reúne o acervo de milhares de bibliotecas e periódicos acadêmicos, entre 2010 e 2011. Foi multado (em 1 milhão de dólares), processado, enfrentando uma série de pressões que culminaram em seu suicídio.
Responsável por projetos como o Open Library, que pretende catalogar e digitalizar todos os livros já publicados ao redor no mundo, e o sistema de feeds de RSS, Aaron foi acusado de fraude eletrônica e obtenção ilegal de informações antes mesmo de divulgar o material baixado. Outros hackers do conhecimento aberto encontram-se atualmente presos, como Bradley Manning, soldado norte-americano que divulgou documentos sigilosos ao wikileaks, e os criadores do The Pirate Bay.
O encontro na Escola de Comunicação propõe um debate sobre como a condição desses jovens afeta os pesquisadores, internautas e cidadãos brasileiros. “Queremos criar uma situação onde possamos pensar coletivamente e trocar experiências a respeito”, diz o pesquisador Pablo De Soto. A ideia é promover um ato público para discutir os desafios envolvidos e trocar saberes e ferramentas que permitam conectar as pesquisas científicas ao conhecimento comum. “Felizmente a questão já está posta na esfera pública digital, por isso é tão importante que o âmbito universitário tome uma posição mais ativa”, diz Pablo.
Recentemente, um professor da Eco recebeu uma notificação da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), entidade civil criada por autores e editores para tutelar os direitos autorais de suas obras literárias, por disponibilizar um arquivo de texto em pdf em seu blog para seus alunos. Na ocasião, Ivana Bentes, diretora da Escola, chamou atenção para a necessidade de se fazer uma articulação dentro da universidade: “Temos urgentemente que nos organizar para regularizar e reconhecer o uso livre e gratuito de todo e qualquer conteúdo para uso educacional, cultural e sem fins lucrativos. E também começar a disponibilizar Recursos Educacionais Abertos (REA) através das Editoras Universitárias, Banco de dados abertos, Plataformas livres, etc”.
Pablo, que é espanhol, destaca que a questão não se resume mesmo ao cenário norte-americano: “Não tenho TV, mas há hackers do conhecimento em todos os lugares geográficos do mundo. Posso mencionar os hacktivistas.net, o X.net e o lorea.org, da Espanha; os iniciadores do software Ushaidi no Quênia… Aqui no Brasil há o coletivo hacker Puraque, que tem um ponto de cultura em Santarém, no estado de Pará, e estão há quase 10 anos expandindo o software e o conhecimento livre”, diz Pablo. “No cenário atual do Brasil, acho fundamental para o presente a aprovação pelo governo do Marco Civil de Internet, para garantir a saúde da inteligência coletiva no futuro”, acrescenta.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: O hacker Aaron Swartz e seu Manifesto da Guerrilha do Acesso Aberto motivam debate na Escola de Comunicação da UFRJ. (Crédito: Divulgação)