Caminhos fluminenses de Nelson Rodrigues

Novas Cenas, programa de fomento à produção de grupos amadores de teatro, chega à 3ª edição homenageando o mestre da dramaturgia nacional

A obra de Nelson Rodrigues tem seis características principais, segundo o escritor José Castello: “A primeira é a imaginação, a segunda é a modéstia, a terceira é a obsessão – com um valor positivo – a quarta é a amizade, a quinta a serenidade e a sexta é a transcendência”. Todas são imprescindíveis para os que quiserem se aventurar pelos palcos e coxias, o que mostra que o mestre da dramaturgia brasileira tem muito a ensinar aos atores – os jovens ou nem tanto.

O criador do teatro moderno nacional, com Vestido de Noiva, em 1943, é o homenageado na 3ª edição do Novas Cenas, programa de fomento à produção e à capacitação de grupos amadores de teatro adulto do todo o estado. Na Mostra Nelson Rodrigues de Teatro Amador, 15 grupos de diversos municípios fluminenses vão encenar textos rodriguianos no Teatro Glaucio Gill, de 3 a 7 de abril. Além disso, os grupos circularão com os espetáculos por mais duas cidades, inclusive seu município de origem.

Para Eva Doris, Superintendente de Artes da Secretaria de Estado de Cultura, a escolha do autor foi acertada: “A aceitação dos grupos foi imediata. A escolha do Nelson Rodrigues como homenageado foi quase óbvia, pelo seu centenário e pela sua importância para o teatro brasileiro, e os grupos ficaram muito satisfeitos, pois o texto do Nelson é uma oportunidade de aprendizado contínuo, especialmente da forma como ele é trabalhado no programa, interagindo com outros grupos, debatendo, trocando”.

A mostra no Teatro Glaucio Gill coroa um trabalho que vem sendo desenvolvido desde agosto de 2012, com oficinas sobre o autor (com o Luiz Artur Nunes), de direção e interpretação (com Daniel Hertz), de direção musical (com Lucas Marcier), de iluminação (com Luiz Paulo Nenem), de voz (com Jane Celeste), de corpo (com Márcia Rubim) e de cenário e figurinos (com Flávio Graff).

“A gente encontra no Novas Cenas um lugar de renovação e aprendizado”, diz Ricardo Rego, da Companhia Círculo Teatral, de São João de Meriti, que participa pela primeira vez do programa. “As oficinas são um espaço de aprimoramento e capacitação, onde podemos descobrir novos meios de produção de um espetáculo. Até hoje só havíamos montado textos próprios, seguindo uma prática de teatro colaborativo e coletivo. Foi a primeira vez que trabalhamos com um texto fechado, de um autor universal. Conseguimos fazer isso do nosso jeito, e foi muito importante para a Cia, enquanto grupo, lidar com as novas demandas que esse processo trouxe”, acrescenta Ricardo, que leva aos palcos a Valsa nº6 com sua companhia, que atua desde 2006 na Baixada Fluminense.

Para a Trupe do Descoco, de Angra dos Reis, o programa significou mais do que uma oportunidade de aprendizado e circulação: por causa do Novas Cenas, o grupo não acabou. “Perdemos o patrocínio que possibilitava nossas atividades e foi esse edital que garantiu a permanência do nosso trabalho”, conta Mariana Small, fundadora e coordenadora da trupe. “O que acho mais interessante de termos sido contemplados é o fato de sermos não apenas de uma cidade do interior, mas de uma comunidade super afastada do Centro, sem opções de lazer e cultura”, diz Mariana, atriz e professora de literatura de Vila do Frade, bairro localizado há 40 km do centro de  Angra dos Reis.

“Comecei a dar aula numa escola municipal do bairro, e peguei uma turma considerada “problema”. Decidi fazer uma oficina de teatro que funcionou muito! A turma passou a ser o exemplo para a escola, e o trabalho foi tão legal que os alunos que se formaram (concluíram o 9º ano do Ensino Fundamental) não quiseram deixar de participar. Aí surgiu a Trupe do Descoco, em 2005”, conta a atriz, que dirige o grupo na montagem de A Mulher Sem Pecado. “A Mostra Nelson Rodrigues de Teatro Amador é a nossa primeira vez com o autor, primeira vez na capital e primeira vez num palco, pois até hoje só tínhamos feito teatro de rua. Foi um aviso de que não é hora de parar, e deu um gás na Trupe”.

Experiências diversas, endereços diversos, mas a paixão comum pelo teatro e suas possibilidades. Participam ainda do programa os gruposSomuDRiba, de Rio Bonito, Opção Cia de Artes, de Iguaba Grande,Interferência Companhia Teatral, de Silva Jardim, Alfabeto em Cena, de Nova Friburgo, A Cúpula, de Itaboraí, Látex, de Cachoeiras de Macacu, Comunidade Teatral do Irajá, entre outros.

“Nós temos no estado inúmeros grupos de teatro amador”, diz Eva Doris. “As artes cênicas são uma linguagem que perpassa todo o Rio de Janeiro, e o Novas Cenas é um programa que vai de encontro à política do governo do estado de integrar todo o Rio de Janeiro e conhecer o interior”. “É um desejo e uma necessidade da Secretaria de Estado de Cultura fazer com que as ideias circulem, com que as pessoas circulem. O estado precisa deixar de se ignorar, temos que fazer com que o Rio de Janeiro se conheça mais”, acrescenta a superintendente.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: A Opção Cia de Artes encena Senhora dos Afogados. (crédito: Divulgação)

 

 

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