Animação: mil e uma possibilidades

Roteirista e diretor Luiz Bolognesi fala do longa Uma História de Amor e Fúria, animação que percorre 600 anos da História nacional

A história do Brasil é associada, na maior parte das vezes, a grandes e pesados livros didáticos, com textos longos e enfadonhos. E se, por exemplo, a colonização, a escravidão, a proclamação da República e o Regime Militar nos fossem apresentados na linguagem frenética e mágica de uma animação? É o que Uma História de Amor e Fúria, longa nacional que estreia nesta sexta-feira, 5/04, se propõe a fazer: dar à riquíssima história nacional uma roupagem bem além dos velhos livros de escola.

Na trama, um herói imortal passa 600 anos correndo atrás de sua amada Janaína. Neste período, atravessa grandes marcos da história do país. A epopéia surgiu da cabeça de Luiz Bolognesi, roteirista que estreia no papel de diretor. Em seu currículo, destacam-se desde o denso Bicho de Sete Cabeçaspassando pelo sensível Chega de Saudade, até o divertido As Melhores Coisas do Mundo, entre outros trabalhos que o consagraram como um dos grandes roteiristas do atual cinema brasileiro. Apaixonado por boas histórias, Bolognesi escolheu a nova linguagem como suporte para seu primeiro trabalho como diretor por ter certeza das “ilimitadas possibilidades” narrativas trazidas por esse meio, muitas vezes reduzido à produção infantil.

Na entrevista ao cultura.rj, Bolognesi comenta “a dor e a delícia” do lento processo de se criar um filme animado – foram seis anos de produção -, fala sobre a indústria da animação no Brasil e revela projetos futuros.

Em 15 anos, o senhor construiu uma carreira sólida, com vários roteiros que foram sucesso de crítica e de público. O que o motivou a se lançar na aventura inédita de dirigir um filme de animação?

Dois motivos principais: primeiro, porque a história em quadrinhos é uma das expressões artísticas que eu mais gosto, desde a adolescência. Eu sempre quis fazer um trabalho que misturasse grafic novel com animação, contando a história do Brasil. Depois porque o desenho te dá possibilidades de fazer coisas que com o ‘live action’ seria mais difícil, custaria muito dinheiro, seria uma produção bem mais complicada. Imagina fazer um filme que envolve a produção de tantas épocas históricas diferentes… Seria quase inviável.

Fale um pouco sobre as diferenças da produção de um longa animado e de filmes em live-action…

A realização do desenho animado é muito lenta. No live action você tem tudo na sua frente, é só ligar a câmera e rodar. Na animação você tem um papel e tem que desenhar tudo. Para você ter uma ideia, Uma História de Amor e Fúria teve 25 mil desenhos feitos em animação, mais inúmeras ilustrações feitas para os cenário. O filme levou 6 anos pra ser feito, enquanto um live action leva normalmente 10 semanas, no máximo. Tem algumas dificuldades, manter a equipe motivada por muito tempo é bem difícil, mas, por outro lado, é bom porque tudo é feito com mais calma, de um jeito budista. O tempo proporciona grandes soluções criativas e eu adorei trabalhar com essa abertura. Eu sempre brinco que acho mais fácil negociar tempo do que cachê – sempre peço mais tempo pros meus roteiros. A demanda de um filme requer muito tempo, e para mim roteiro é igual a vinho. Me surpreendi porque, ao invés desse processo lento me gerar ansiedade, eu fiquei muito feliz e a equipe também, foi um trabalho colaborativo.

O senhor disse recentemente que a ideia do longa surgiu do desejo de unir a História do Brasil à linguagem das histórias em quadrinhos. Como esse encontro se dá no filme, que pretende mostrar a História do país para além dos livros didáticos?

Eu trabalhei com cinco mestrandos de História, Antropologia e Sociologia. E daí fomos selecionando alguns eventos do Brasil pouco conhecidos, com uma virada legal, porque o cinema americano, por exemplo, usa muito isso e a gente não. E isso se relacionou com o filme porque os quadrinhos gostam muito do fantástico, então criamos a história a partir da mitologia tupinambá. Essa fantasia que tem na mitologia é muito rara aos quadrinhos. É muito curioso, porque Hollywood toda hora mergulha na mitologia. O drama e as tragédias de lá são inspiradas nas tragédias gregas.

Uma História de Amor e Fúria foi o primeiro filme de animação a ser selecionado para a mostra competitiva Première Brasil do Festival do Rio, em 14 anos de festival. O que este reconhecimento de um longa animado representa para o setor de animação brasileiro?

Foi um marco histórico porque, aqui no Brasil, nós não temos essa tradição e normalmente a animação está associada a filmes infantis.Todos os jornalistas falaram sobre isso. E uma coisa legal é que isso é estimulante para a moçada que está fazendo animação aqui. De lá pra cá, nós já fomos selecionados para dois festivais internacionais, o de Miami – em que tivemos duas sessões lotadas – e Holland Animation Film Festival, na Holanda, que tinha10 longas do mundo inteiro. Foi a primeira vez que um filme brasileiro foi para lá. Eu falava: “meu, o que eu tô fazendo aqui?”. Mas, de alguma maneira, eles achavam que eu tinha que estar lá. No mês que vem, vamos pro Festival da Alemanha concorrer com mais oito filmes de vários lugares do mundo.

Como o senhor, que acaba de sair de uma experiência com animação, vê o futuro do setor no país?  

O Brasil já está tendo um forte crescimento das séries de animação para TV. Isso ainda não está acontecendo no cinema, mas acho que a perspectiva é crescer. Temos, porém, um problema, que é a falta de mão de obra especializada. Não tem nenhum curso de animação no Brasil. Nós estamos com uma perspectiva de crescimento enorme e não estamos preparados para isso. A China tem vários cursos, o Canadá e os Estados Unidos, também, a Argentina tem uma escola especializada, mas no Brasil não temos nada. Hoje em dia já estão faltando profissionais na área.

Em Bicho de Sete Cabeças, o senhor mostrou o drama do vício em drogas e dos métodos de tratamento psiquiátrico muitas vezes abusivos, numa trama pesada que contou com a densa atuação de Rodrigo Santoro. Já em As Melhores Coisas do Mundo, as descobertas da adolescência e amadurecimento do jovem Mano são abordadas num filme com uma pegada  mais leve e divertida. Agora parte para um filme de animação. A flexibilidade é uma marca do seu trabalho? 

Eu não tinha pensado nisso, mas agora eu acho que é (risos).

E os planos para o futuro? Já sabe o que vai fazer após o lançamento de Uma História de Amor e Fúria?

Depois do filme, o pessoal da equipe se espalhou por vários lugares, tem gente até fora do Brasil. A gente fica se falando o tempo todo pela internet, e queremos fazer outro desenho animado. Já estamos fazendo uma pesquisa e espero ter um filme daqui a uns cinco anos. Também estou fazendo roteiro para o próximo filme da Laís Bodanzky, já está no segundo tratamento. A gente fez o Chega de Saudade sobre uma geração mais velha e agora vamos fazer um filme sobre a geração que tem 40 anos. E estou escrevendo também o roteiro para o Daniel Resende, que é um montador que fez As Melhores Coisas do Mundo e agora vai dirigir um filme.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: A trama apresenta um Rio de Janeiro futurista e caótico. (crédito: Divulgação)

 

 

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