No Passinho do Bem

Após sucesso nas salas de cinema, a Batalha do Passinho deve ganhar uma versão para os teatros ainda este ano

Uma batalha cujas armas são a criatividade e a coreografia. A segunda edição do concurso Batalha do Passinho, que começa no dia 22/03, vem agitando 16 favelas do Rio com a integração de jovens de diversas comunidades num duelo de passos embalado pelo batidão do funk. Desta vez, o título do concurso não envolve apenas prêmios e reconhecimento:os vencedores poderão ainda participar de um musical desenvolvido pelo diretor e roteirista  Rafael Dragaud.

Dragaud teve a ideia de criar um espetáculo musical sobre a Batalha do Passinho, a partir do desejo de gerar um legado para essa cultura.“O musical acabará sendo um estágio de profissionalização para os meninos, sem que eles deixem de ser apenas garotos dançando em baile. Uma coisa não impede a outra”. O espetáculo ainda não tem um roteiro fechado, mas Rafael adianta que não tem a menor intenção de escrevê-lo sozinho. Para a criação, será estabelecido um fluxo colaborativo, contando com ideias de diversos autores. “As batalhas vão começar e revelar muitos talentos. Todo o processo tem que ser pensado em função desses talentos que ainda vão surgir”, afirma.  O concurso, que oferece prêmios em dinheiro aos três primeiros colocados, também vai dar a oportunidade ao ganhador de cada rodada de estrelar o espetáculo de Dragaud. “Cada um desses garotos já tem um lugar garantido no musical, desde que queira participar e tenha disponibilidade pros ensaios e pro trabalho”, acrescenta.

Criadas em bailes funks, ou mesmo nas ruas, as performances dos meninos foram ganhando cada vez mais espaço. Elas foram parar na rede, em páginas do youtube e vimeo, onde os comentários postados pelos usuários elegem o vencedor da disputa. Nestes sites, existem vídeos postados desde setembro de 2008, mas foi só em 2011 que o Passinho virou febre na internet. O vídeo que começou a popularizar toda essa história nasceu no Morro do Andaraí, na Zona Norte do Rio, e tem a escada que dá acesso a comunidade como pano de fundo para a música “O passinho do menor da favela”, do Mc Sabará. Depois disso, foram aparecendo mais e mais vídeos na web e logo as imagens das coreografias foram se tornando virais.

Não demorou muito para surgir a ideia do concurso e logo o escritor carioca Júlio Ludemir se juntou ao produtor musical Rafael Soares (Nike) e venderam o projeto de competições de “passinho” entre jovens de comunidades pacificadas para o SESC Tijuca. Nasceu aí o concurso Batalha do Passinho, que já reuniu mais de 300 meninos em prol da dança. Rafael Dragaud, que mergulhou nessa cultura como jurado das competições, costuma dizer que o passinho é uma possibilidade de novos rumos para o futuro da cidade: “É uma boa nova, fruto de um cenário mais leve e promissor que a cidade está vivendo e que está possibilitando que os jovens da comunidade se expressem com mais liberdade.”

As inscrições para a segunda edição do concurso já estão abertas no site da Batalha e quem já participou garante que vale a pena. Morador da Gardênia Azul, o estudante João Pedro, o Mister Passista, começou a dançar observando a própria sombra na parede e corrigindo seus “erros”. Quando o concurso de Ludemir e Nike surgiu, o menino não pensou duas vezes e se inscreveu. O resultado do finalista foi bem além das competições e rendeu participações em programas como TV Xuxa, Esquenta e Fantástico e a presença nos palcos nos shows do Mc Menor do Chapa. “Pretendo continuar a investir no passinho pra poder seguir essa carreira”, diz João.

Mas se engana quem pensa que tudo são flores nesse universo. Apesar dos meninos se mostrarem acolhedores em relação a competir com opositores do sexo oposto, muitas garotas ainda tem um certo preconceito com essa dança. Camilla Garcia, que este ano é cabeça de chave do grupo do Cantagalo, é um dos poucos exemplos de talento feminino na Batalha. Para ela, “algumas meninas tem vergonha de estar lá, subir no palco, dançar na frente das pessoas, acham que é coisa de menino”.Mas a jovem que estuda pra ser policia federal não se intimida com essas opiniões, ela garante que cada batalha é uma experiência única e proporciona um sentimento especial.

Essas histórias (e muitas outras) também ganharam as telonas com o documentário “Batalha do Passinho – Os Muleque são Sinistro”. Idealizado por Emílio Domingos, o filme foi lançado em 2012 no Festival do Rio e levou o prêmio de melhor longa-metragem da mostra Novos Rumos. O longa mostra como a cultura derivada do funk se expandiu para além dos bailes, DJ’s e polêmicas já conhecidas, apresentando o cotidiano de jovens que disputam. Segundo Ludemir, ainda é muito cedo para falar do impacto do filme, apesar de estar apresentando uma ótima recepção nas sessões abertas ao público. “No final de fevereiro, o filme reuniu 400 jovens no Morro da Providência. Foi lindo. E os meninos que aparecem no filme vão a todas as sessões abertas com entusiasmo. Acho qeu o Kinho, dançarino da Cidade de Deus, já assistiu cinco vezes”, comemora Ludemir.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Das ruas pros palcos, a Batalha do Passinho reúne centenas de jovens em prol da dança. (imagem capturada do filme http://www.youtube.com/watch?v=3oktcJN8Roc&feature=youtu.be)

 

 

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