Viva os Reis
Jornadas e encontros de folias se estendem por todo o Estado até o dia 20 de janeiro
Tradicional festejo de origem portuguesa, a Folia de Reis está diretamente ligada ao culto católico do Natal. A prática da celebração foi trazida para o Brasil no século 18 e ainda segue fortemente ligada às manifestações folclóricas de diferentes regiões do país, sobretudo no interior. Sua peregrinação reproduz a viagem dos Reis Magos a Belém em busca do Deus-Menino. Os grupos compõem-se de “companhias” de doze ou mais foliões, em geral músicos e cantores, aos quais se juntam os palhaços, que representam os soldados de Herodes. Cada grupo adota uma espécie de uniforme militar e seu instrumental é composto de violão, cavaquinho, sanfona, pandeiro, bumbo e caixa. A música, que se chama toada, é de estilo responsorial. Os palhaços, que têm obrigações e proibições específicas, recitam versos tradicionais ou improvisados, as “chulas”, que divertem o público.
No Estado do Rio de Janeiro, o ciclo de apresentação da Folia de Reis, chamado “giro” ou jornada, se estende até 20 de janeiro e é dividido em duas etapas. A primeira, de 24 a 6 de janeiro, quando cantam em louvor aos Reis Magos. A segunda, de 7 a 20 de janeiro, é dedicada a São Sebastião, reverenciado nas cantigas que entoam. Ao encerrar seu ciclo de apresentação, as folias costumam dar uma festa para agradecer as contribuições recebidas. É a “Festa de Remate”, para a qual convidam parentes, amigos e outras folias, que comparecem uniformizadas. A Folia de Reis está presente na maioria dos municípios fluminenses.
Atualmente, Macuco e Duas Barras são cidades que aparecem com destaque quando se fala na tradição da Folia de Reis. Em Macuco, lar da Folia Estrela Guia do Oriente, que tem nada menos que 56 anos, um grande encontro de Folias já é realizado desde 1972. “A tradição aqui é muito forte porque 85% da população é afrodescente, e foram passando a festa de pai para filho”, explica Antônio Carlos Gonçalves, o Carlinhos, presidente da Associação de Folia de Reis da cidade. Em 2013, o encontro acontece dias 26 e 27 de janeiro, na Praça Professor João Brasil, e espera-se reunir por volta de 60 a 70 grupos, da cidade e regiões próximas. Na visão de Carlinhos, manter viva a tradição da Folia é imperativo para prestar uma homenagem às raízes brasileiras. “Quem criou esse país com força? Foram os escravos, também com sua dança, com sua festa, que a gente tem que preservar”.
Outra cidade conhecida pelo grande encontro de folias é Duas Barras, lar da Folia de Reis Estrela do Dia, de Mestre Silvino e sua mulher, Marli. Com mais de 40 anos de fundação, a Folia foi uma herança de família. “Meu pai era reizeiro. Depois que ele faleceu, em 1954, fiquei com a cruz de meu pai”, resume Silvino. Em todos esses anos, essa “cruz” não foi nada pesada. Pelo contrário. Mestre Silvino pode passar horas e horas falando de todos os ganhos que teve graças à Folia, e da extrema dedicação que reserva à prática do reizado – o presépio armado em sua casa, por exemplo, que impressiona pelo cuidado e detalhes, fica armado o ano todo, e é uma das atrações da cidade. Ao mesmo tempo, como há uma tradição de as Folias do Estado se reúnirem em encontros, Silvino teve a oportunidade de andar por quase todo o Rio de Janeiro. “Aonde chamam a gente para ir, a gente vai. Graças a isso, tenho feito boas amizades, e o povo sempre nos recebe com muito carinho”, orgulha-se. Em 2013, o Encontro de Folias de Reis de Duas Barras acontece nos dias 5 e 6 de janeiro, com a reunião de grupos da cidade, de Arraial do Cabo, Campos dos Goytacazes, São Fidélis, da capital e de outros munícipios, totalizando cerca de 60 folias. A festa, que costuma reunir de 5 a 6 mil pessoas por edição, acontece na Praça Getúlio Vargas.
Outra folia que segue forte de geração para geração é a Estrela do Oriente de Rio das Flores. Mestre Joãozinho, que já está há frente do grupo há 21 anos, não consegue precisar a data de fundação. “Isso veio do meus avós, é bem antigo. Quando eu assumi, já era centenário, e eu vou seguindo a tradição”. Desde 2001, a cidade tem uma Associação de Folia de Reis, nascida com o objetivo de ajudar a reativar folias que iam fechando por falta de recursos. “Hoje a gente já tem cerca de nove folias registradas. Então, a gente está sempre melhorando a cultura do reizado, e os mais novos vão se envolvendo. As crianças adoram”, anima-se Joãozinho. Na cidade, o encontro de Folias acontece no dia 6, na Praça Santo Reis, a partir das 8:30h da manhã. Com média de público de 800 pessoas por edição, a festa deve reunir de 12 a 15 folias, da cidade e regiões próximas.
Já Nova Friburgo, onde a tradição das folias tem muita força graças à proximidade com áreas rurais, onde a fé católica surge com destaque, também é realizado um grande encontro entre os dias 19 e 20 de janeiro. Organizado no distrito de Conselheiro Paulino, o encontro já chega a sua 30ª edição, e contará, em 2013, com cerca de 40 folias, sendo 15 de Nova Friburgo e as restantes de cidades como Bom Jardim, Duas Barras, Cordeiro e Miracema. A festa recebe por ano mais de 5 mil pessoas. “A tradição aqui é muito forte, então o pessoal comparece mesmo”, diz o historiador e músico Léo Abelha.
Festa também presente na capital
Com grande força no interior e em cidades de colonização afrodescente, a festa de folia de Reis também tem espaço na capital, com as favelas aparecendo como grandes guardiãs da tradição. Na Zona Norte, aSagrada Família da Mangueira, do mestre Hevalcy Silva, anima o Natal da comunidade descendo o morro batendo de porta em porta. “Nossa fé e devoção são os responsáveis por manter isso, que é uma cultura nossa que vem de séculos passados”, diz Hevalcy. A alegria e religiosidade da Sagrada Família não fica restrita à Mangueira: a Folia também faz cortejos em morros e localidades próximas. Neste domingo, dia 6, a festa começa de manhã na Cidade de Deus, e termina com a apresentação dos foliões na Igreja Sagrado Coração de Jesus, na Glória, às 18h. No dia 20, a Folia encerra seus festejos com a celebração ao Dia de São Sebastião, começando com cortejo no Chapéu Mangueira, no Leme. Depois, a folia volta para a Mangueira, com um “encontro de cumprimento da missão” em sua sede.
Na Zona Sul, a Folia Penitentes do Santa Marta é responsável por celebrar a fé junto aos devotos do morro Dona Marta há mais de 50 anos. Como é comum nesse tipo de grupo, o atual Mestre-Palhaço, Ronaldo Silva, também herdou o posto de seus familiares. “Desde os 9 anos eu participo da folia com o meu irmão, então, é a nossa história, nascemos praticamente dentro de uma folia de reis”. A Penitentes se apresenta na própria comunidade no dia 6, a partir das 9h da manhã, com a descida desde o pico até o pé das escadarias da entrada do morro, seguida de apresentação na sede do grupo ECO. Nos dias 13 e 17, é a Rocinha que recebe a alegria do grupo de mais de meio século de vida, que encerra suas festa no dia 20, mais uma vez em casa. A procissão de São Sebastião também percorre toda a comunidade, de manhã até a tarde. “O pessoal já faz questão de abrir a porta para nós, os devotos gostam muito”, conta Ronaldo.
Outras folias do Estado
Belford Roxo e Volta Redonda também têm tradição em promover encontros de folia. Em Belford Roxo, acontece no dia 13 de janeiro, na Praça do Cruzeirinho, com 10 folias locais inscritas, das 9h às 18h. Já a festa de Volta Redonda, que chega em 2013 a sua 15ª edição, está programada para o dia 12, na Ilha São joão, com 15 folias de Reis da própria cidade e de cidades vizinhas, como Barra Mansa e Barra do Piraí.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: A Folia de Reis Estrela do Dia é uma das mais tradicionais de Duas Barras. (Crédito: Cris Isidoro/Diadorim Ideias)