Disposição visual
Polo emergente de economia criativa, a Praça Tiradentes vem atraindo galerias, estúdios multidisciplinares e centros de design e arquitetura
A arte visual ocupa um endereço novo e único no Rio de Janeiro. Uma das regiões mais representativas no cotidiano e na formação da personalidade carioca, a Praça Tiradentes vem galgando o status de polo emergente de economia criativa. A ocupação de edifícios históricos por galerias, estúdios multidisciplinares e centros de design e arquitetura aponta para a nova vocação da região, que estava sem perfil definido desde a recente revitalização que retirou as grades que separavam a praça dos pedestres.
No entorno da Tiradentes, empreendimentos como o escritório de designOEstudio, o estúdio multidisciplinar Meio, o Centro Carioca de Designe ateliês de artistas como Bob N e André Alvim abriram as portas nos últimos anos. Nos braços dela, as galerias de arte Barracão Maravilha, na Gomes Freire, e A Gentil Carioca, no Saara, também integram a proposta de dinamização do patrimônio cultural da cidade. A mistura da arquitetura antiga do centro histórico com a produção artística e criativa contemporânea desponta como tendência de perfil urbano para aquelas bandas.
Novas possibilidades para o mercado criativo
Com o projeto de revitalização da praça, concluído em 2010, a área se tornou mais atraente para investimentos, como hotéis, restaurantes, casas noturnas e escritórios. Foram gastos cerca de R$ 3,5 milhões em iluminação, em repavimentação e na retirada das grades da praça. Pontos finais de ônibus foram removidos para ruas próximas à Tiradentes e houve reforço no policiamento. Em meio à especulação imobiliária que assola a cidade, a praça se tornou uma opção mais em conta para quem quer começar ou ampliar um negócio e aposta no futuro cultural da área.
“A retirada das grades da praça, a iluminação e as restaurações ao redor estão fazendo uma grande diferença, e a região é sim uma ótima opção para escritórios com melhores preços”, conta Nina Gaul, sócia do OEstudio, que depois de fechar as portas da filial em Ipanema, em 2011, ganhou um novo lar na antiga Galeria Durex, no número 85 da Tiradentes. “O movimento de revitalização do patrimônio cultural da cidade do Rio de Janeiro especialmente na zona portuária, por interesses maiores que apenas o cultural, tem sido bom, não podemos negar, o espírito de conservação e cuidado com o que construímos é obrigatório, e de alguma forma ele está acontecendo”, completa a moça.
Já o estúdio multidisciplinar Meio surgiu depois que cinco jovens cariocas começaram a dividir uma sala, também no número 85, e a realizar parcerias para a realização de projetos em 2010. O grupo enxerga as transformações recentes da Tiradentes como oportunidade de formação de espaços para a criação e o trabalho que sejam mais dinâmicos e possibilitem a troca entre profissionais. Apesar de atuarem de maneira independente, os jovens unem as forças em projetos grandes que exijam responsabilidade e onde cada membro possa contribuir com seus conhecimentos já estabelecidos.
“Mais do que uma tendência carioca, a formação de estúdios multidisciplinares é uma tendência de pessoas criativas no mundo inteiro. Não está necessariamente relacionado aos custos, mas sim aos desejos de trabalho do jovem, que hoje vê a especialização como uma limitação desnecessária, um fardo. É como se um pensamento pós-moderno fosse se espalhando lentamente e entrando no mercado criativo”, observa o designer Felipe Nogueira, integrante do Meio. “Trata-se de um grupo de especialistas em diversas áreas, que se somam”, acrescenta o rapaz.
Outro espaço de burburinho cultural na região é o Centro Carioca de Design, inaugurado em março de 2010 pela prefeitura como parte do plano estratégico de estimulação do pensamento urbano através do design. Instalado em dois sobrados restaurados do século XIX na Casa de Bidu Sayão, o espaço multiuso recebe exposições, palestras, cursos e lançamentos de livros. O CCD abriga ainda o Studio-X Rio, laboratório de pensamento sobre a cidade, em parceria com a Universidade de Columbia (NY). Criados para pensar o futuro das cidades, esses laboratórios estão estabelecidos também na China, Índia, Nova York, Jordânia e Rússia.
Uma mistura integrada de cultura e boêmia
Apesar da reforma, o potencial da região ainda deve ser melhor explorado para transformar a praça em um polo consolidado de economia criativa. Observar com sensibilidade o que já existe de bom é uma das sugestões do artista Bob N, que mantém seu ateliê há dois anos na área. “Deve haver um planejamento em conjunto com as pessoas de atividades afins, fazendo um esforço para trazer bons negócios da área cultural como cafés e livrarias e dando preferência para a concessão de alvarás para atividades que estejam no perfil. É preciso usar o espaço público com bastante criatividade e critério”, fala Bob. “Também precisamos de mais presença do Centro Municipal de Arte Hélio Oitica, que poderia qualificar ainda mais a região”, ressalta Nina.
Apesar do desenvolvimento da Tiradentes, os designers e artistas não acreditam que a praça esteja se tornando uma nova extensão da Lapa. “Ela se junta pela rua do lavradio à Lapa, que faz uma boa passagem simbólica, mas acho que são coisas diferentes. A Lapa é um polo boêmio, com inserções culturais, e a Praça Tiradentes caminha para uma mistura real e integrada de cultura e boêmia, numa visão mais alinhada e saudável com a que, me parece, desejamos pro Rio pós-Copa do Mundo e Olimpíadas”, reflete Felipe. “O que existe de teatro, música, artes visuais, livrarias deve ser valorizado e incentivado, precisamos perceber um perfil próprio e peculiar que a praça tem e potencializar”, arremata Bob.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Burburinho em exposição no Centro Carioca de Design, instalado em dois sobrados restaurados do século XIX (Crédito: Divulgação)