Fragmentos de uma crônica urbana
Comandado pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, o elogiado filme ‘O Som ao Redor’ estreia no circuito comercial
Já não é mais nenhuma novidade que uma jovem geração de cineastas pernambucanos tem roubado a cena dos festivais de cinema por onde circulam. Da terra de nomes importantes da chamada Retomada dos anos 90, como Cláudio Assis (Febre do rato), Lírio Ferreira (Árido movie) e Marcelo Gomes (Cinema, aspirinas e urubus), desponta uma safra de novos realizadores empenhados em construir uma linha de cinema autoral – cada um com seu cinema – arriscando linguagens ambiciosas. Em fase atual de transição, essa trupe está deixando a barra da saia dos curtas para encarar o desafio de dirigir longas-metragens de ficção.
Símbolo maior dessa recente linhagem, Kleber Mendonça Filho lança no circuito comercial, nesta sexta-feira, 4/1, o elogiado thriller de realismo social O som ao redor, escrito e dirigido por ele. Longa brasileiro de maior circulação no exterior em 2012, a fita passou por 39 festivais internacionais e teve entrada assegurada no circuito de exibição de Nova York – recentemente o longa foi incluído na lista dos dez melhores filmes do ano do crítico A. O. Scott, do jornal New York Times. Vencedor do Kikito de melhor diretor – além do prêmio da crítica e do júri popular – no Festival de Gramado deste ano, a produção também foi a grande vencedora do Troféu Redentor do Festival do Rio 2012 – além de abiscoitar a láurea de Melhor Filme da Première Brasil, a fita faturou o prêmio de Melhor Roteiro na mostra.
História, violência e barulho
Aos 43 anos, Mendonça fez carreira como crítico de cinema antes de dirigir curtas premiados, como os cultuados na rede A menina do algodão (2003), Vinil verde (2004), Eletrodoméstica (2005), Noite de sexta, manhã de sábado (2006) e Recife frio (2010). Em 2008, o pernambucano registrou depoimentos sobre o jornalismo cinematográfico, revelando o conflito que existe entre o lugares do artista e do observador, no longa documentário Crítico.
O som ao redor é ambientado em um bairro na zona sul do Recife, que toma um rumo inesperado com a chegada de uma milícia que oferece a paz de espírito da segurança particular. Guiados por câmeras, grades e seguranças, acompanhamos o dia a dia dos moradores desse bairro, que serve de espelho para os principais vícios e paranoias da classe média brasileira: do pavor da violência à hipocrisia acomodada, passando pelo coronelismo. O que se apresenta na tela é um retrato sutil de uma sociedade em meio a uma rápida transformação social, ainda assombrada pela crueldade do passado feudal.
Celeiro de transgressão estética dessa geração, Recife é o cenário de uma reflexão fílmica sobre história, violência, barulho. “A arquitetura feia dos grandes centros é muito fotogênica para o cinema”, brincou Mendonça em entrevista concedida ao Cultura.rj durante o último Festival do Rio. A falta de segurança, a reunião de condomínio, o Fiat Uno branco e o cachorro do vizinho compõem fragmentos de uma crônica urbana. “O filme fala mais de um estado de espírito do que uma realidade absoluta. Ele quase chega na linha do gênero do terror, mas não atravessa esse limite”, acrescentou o cineasta, fã do mestre do horror John Carpenter.
Animado com o momento promissor vivido pelo cinema pernambucano, Mendonça comentou a relação com a “patota” de realizadores conterrâneos, como Gabriel Mascaro, Daniel Aragão, Leonardo Sette, Renata Pinheiro, Camilo Cavalcante, Leonardo Lacca e Tião. “A gente troca muitas ideias, dá pitaco no filme do outro e faz muitos intercâmbios dentro das equipes. Estamos vivendo uma fase extremamente feliz no cinema de Pernambuco, com trabalhos pessoais que não querem unicamente conquistar o mercado. Não vemos uma comédia romântica em Recife, por exemplo”, provocou o diretor.
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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/
Fotografia: Kleber Mendonça Filho (esquerda) e o ator Irandhir Santos durante filmagens (crédito: divulgação)