Rir antes de tudo

Em sua passagem pelos picadeiros cariocas, o catalão Tortell Poltrona, um dos dez melhores palhaços do mundo, fala sobre o poder transformador do riso

Entre os dias 3 e 9/12, o Rio é a lona oficial do 11º Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro, um dos maiores eventos do gênero no mundo. O festival recebe mais de 90 palhaços, entre eles o catalão Tortell Poltrona, um dos artistas pioneiros na renovação do circo e considerado um dos dez melhores palhaços do globo em atividade.

Tortell é o nome artístico de Jaume Mateu Bullich, criador do famoso circo espanhol Circ Cric e da ONG Palhaços sem Fronteiras, fundada em 1993 com o objetivo inicial de divertir refugiados de guerra. Ao respeitável público carioca, o palhaço de 57 anos apresenta Post-Classic (dia 5, às 20h), espetáculo recheado de esquetes históricas que simbolizam a essência do palhaço.

Você tem mais de quatro décadas de circo. Acredita que o humor mudou ao longo dos anos?

O homem sempre está mudando a sua forma de estar no mundo. Nos últimos seis mil anos, pelo menos, mudamos toda uma rede de comunicação, que passou pela criação do jornal, da televisão e da internet. Mas, na essência, não mudamos nada. Sabemos que estamos aqui para viver, progredir e ter filhos. A comicidade se mantém muito unida a esses princípios fundamentais. É claro que existe uma comicidade local: se contamos uma piada carioca em São Paulo, ela não será compreendida. Mas existe uma comicidade universal, que nos une e que faz qualquer um soltar um sorriso.

E o palhaço também se transformou? Ele está mais mímico ou mais falante? Mais próximo ou mais distante do público?

Existe uma grande diferença entre o cômico e o palhaço. O cômico usa muito a expressão oral e fala de temas próximos, como sexo, política e religião. Já o palhaço se utiliza mais dos recursos físicos, comunicando os conceitos da vida, do amor, da morte, da ternura. O circo já mudou muito, mas está há cerca três mil anos mudando e se adaptando às plateias. Depois da Segunda Guerra, com a chegada dos meios de comunicação audiovisuais, o circo deixou de ser uma potência. Nesse momento, entramos em um estágio mais difícil de relação com o público. Para nos adaptar, passamos a englobar a música, a dança, o teatro, a literatura e até a pintura em nossa arte. O circo muda todos os dias. O dia em que o circo não tiver mais a capacidade de se renovar, ele vai morrer.

Além de popular, você é considerado um palhaço bastante inovador na arte circense. Quais são as características de um bom palhaço. A pessoa nasce palhaço ou é possível aprender a ser palhaço? 

Um palhaço tem que nascer palhaço, mas também tem que crescer como palhaço. Para mim, os maiores palhaços são as crianças porque elas expressam todos os seus sentimentos com o corpo e não são capazes de falar mentiras. Esse é um palhaço que todos temos dentro de nós e que matamos quando ficamos adultos, quando aprendemos a mentir e dissimular. O grande desafio do palhaço é conservar o trabalho diário de voltar a ser criança.

Como surgiu a iniciativa de criar a organização Palhaços sem Fronteiras. Como o grupo seleciona os lugares onde decide intervir?

A ONG foi criada em 1993. Ela nasceu de um convite que recebi para participar de uma festa que meninos de uma escola de Barcelona e meninos de um campo de refugiados da então Iugoslávia fizeram juntos via telemática – um computador conectado a uma linha telefônica. Nesse momento, descobri que os palhaços podiam mudar a realidade de gente que perdeu tudo e lhes dar esperança. Escolhemos lugares para atuar onde existem crianças necessitadas, em situação de refúgio por causa de guerras ou por causa de desastres naturais. Mas não trabalhamos nunca sozinhos, por isso selecionamos nossos destinos em função de outras organizações que nos contatam. Sempre levamos em consideração a proximidade dos lugares para economizar nos custos, já que todos os envolvidos trabalham de forma voluntária. Os Palhaços Sem Fronteiras dos EUA, por exemplo, trabalham mais no Haiti, já os argentinos costumam ir à Colômbia e os espanhóis partem para o Oriente médio e para a África.

O palhaço pode então “salvar” o mundo?

Evidentemente que sim. Vivemos em uma sociedade convulsionada, onde a ditadura do capital já comeu todas as esperanças. Se somos capazes de alterar as nossas realidades mais próximas trazendo a felicidade, que é o que persegue todo palhaço, então podemos mudar o mundo. Eu não vou terminar essa missão, mas meus filhos e netos irão.

Qual foi o momento mais difícil de seu trabalho com os Palhaços Sem Fronteiras?

Todos. Fiz 32 viagens com o grupo, todas para áreas de conflito. Fui ao Sri Lanka uma semana depois do Tsunami para visitar escolas. Fomos a um instituto onde apenas 700 crianças das 2500 que estudavam lá haviam sobrevivido. Uma tarde, chegamos antes dos meninos e fizemos uma apresentação muito bonita. Eles ficaram felizes porque muitos já lhes haviam mandado cadernos, lápis, livros, computadores e comida, mas ninguém lhes havia trazido a vida.

O que você pensa das plateias brasileiras? E como é o espetáculo que vai apresentar por aqui?

O Brasil tem uma qualidade que mesmo o povo não é capaz de perceber porque vive isso todos os dias. Vocês são uma das poucas sociedades do mundo que, quando se cumprimentam, não dão apenas a mão ou um beijo, mas um forte abraço. Para quem se dedica a criar alegria, esse tipo de gesto nos ajuda muito. Sempre que venho aqui, me sinto abraçado. Post-Classic é uma coleção de alguns números de palhaço que venho trabalhando há muitos anos. As rotinas de palhaço são difíceis de preparar e ensaiar porque se realizam em duas partes: uma metade é feita pelos palhaços e a outra pelo público e por suas reações.

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Fonte: http://www.cultura.rj.gov.br/

Fotografia: Tortell: “O dia em que o circo não tiver mais a capacidade de se renovar, ele vai morrer”  (Crédito: Divulgação)

 

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