Do apartheid às pombas no MAM
MAM apresenta a primeira exposição retrospectiva na América Latina do fotógrafo americano Roger Ballen
Sempre com uma câmera Rolleiflex na linha de mira, Roger Ballen capta imagens e organiza composições que passeiam entre o documental, o grotesco e o surrealista. Um dos fotógrafos contemporâneos mais importantes de sua geração, o nova-iorquino radicado na África do Sul ganha, a partir desta quinta-feira, 4/10, a sua primeira mostra retrospectiva na América Latina. Nas dependências do Museu de Arte Moderna (MAM), 111 de seus trabalhos, que datam desde a década de 1960 até os dias de hoje, chegam aos olhares dos cariocas.
Ballen começou a fotografar aos 18 anos e, menos de uma década depois, se mudou para a África do Sul, onde ainda vive. Em 1994, meses antes de Nelson Mandela ser eleito presidente, ele publicou em livro a série Platteland, em que indivíduos fotografados formam um arquétipo de um grupo de pessoas que viviam no interior do país, no período do apartheid. O trabalho atraiu a ira dos setores conservadores do poder, fazendo com que Ballen chegasse a ser preso algumas vezes e sofresse ameaças de morte.
No ano seguinte, o fotógrafo começa a ter reconhecimento internacional, passando a figurar em importantes coleções públicas e privadas. Ele abandona a prática da fotografia documental e se aventura, a partir da série Outland, em uma nova linguagem, fundamentada nas teorias junguianas, onde as fronteiras entre realidade e ficção se confundem. Essa opção artística repleta de ambiguidades e criadora de uma estética do grotesco culmina em séries de força, como Shadow Chamber (2000-2004) e Boarding House (2005-2008).
O registro de uma evolução pessoal
Em sua produção atual, Ballen se mantém distante das manipulações digitais, e todas as suas fotos continuam sendo registradas em preto e branco. “Hoje o seu trabalho está cada vez mais abstracionista. Aos 62 anos, Ballen está se reconciliando consigo mesmo”, observa a curadora de Daniella Géo, especialista em fotografia contemporânea. “As figuras humanas estão começando a desaparecer das composições, e as pombas, que representam a transcendência, aparecem cada vez mais presentes. É uma evolução, não só estética, formal e metodológica, mas também pessoal”.
Carioca radicada na Bélgica, Daniella conta como convenceu Ballen de que era este o momento oportuno de trazer as suas fotografias ao Brasil. “Eu sugeri a retrospectiva por dois motivos. O primeiro deles é que Ballen está em uma fase da carreira em que grandes museus da Europa e dos EUA já começam a homenagear a sua trajetória como um todo. Além disso, é uma forma de introduzir aos brasileiros o olhar particular do fotógrado, pouco conhecido por aqui, mas bastante prestigiado no exterior”, opina Daniella, que já assinou a curadoria de duas mostras coletivas que incluíram peças de Ballen, uma na África do Sul e outra no MAC, em Niterói.
No MAM, as obras que cobrem todas as fases da produção do artista estão dispostas em um espaço labiríntico, projetado pelo arquiteto belga Koen Van Synghel, ganhador do Leão de ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2004. No dia 4/10, às 19h30, Ballen fala sobre o seu trabalho em um debate aberto ao público, no Parque Lage, com introdução da curadora Daniella. A mostra fica em cartaz até 2/12.
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Fonte: Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro (http://www.cultura.rj.gov.br/)
Fotografia: ’Brian with pet pig’, da série ‘Outland’ (Crédito: Roger Ballen)