Quando vida e arte se confundem

Seis mil girassóis artificiais inundam o espaço cênico de ‘A Gaivota’, peça do russo Tchekhov repleta de reflexões sobre a criação

Depois de passar por uma reforma, no ano passado, o teatro Gláucio Gill ganhou uma nova configuração entre o palco e a plateia, que pode mudar de acordo com a concepção de cada espetáculo. Diante dessa chance, Bruno Siniscalchi não titubeou em explorar o espaço cênico de sua primeira direção solo, uma nova versão do clássico A Gaivota, do russo Anton Tchekhov. Em cartaz a partir desta sexta-feira, dia 31/8, a montagem destrona o público de sua posição habitual, deslocando-o para as coxias fora de cena. No lugar das poltronas, seis mil girassóis artificiais espalham-se pelos assentos e pelo chão.

Encenada pela primeira vez em 1896 – recebida debaixo de vaias pelos espectadores do Teatro Alexandre, em São Petersburgo –, A Gaivota foi, ao longo das décadas, se tornando um dos textos mais montados de toda a história da dramaturgia ocidental. A peça apresenta um labirinto de citações e reflexões em torno da criação e do fazer artísticos. No tablado, os atores encarnam personagens que se apresentam como fragmentos de sua própria individualidade. Os diálogos, todos inacabados, alcançam completude na relação com o que não está dito.

 

Revisão da história da arte

Diretor assistente de Bia Lessa em diversos projetos, incluindo Il Trovatore, de Verdi, que reinaugurou o Theatro Municipal do Rio em 2010, Siniscalchi está mergulhado no texto de Tchekhov desde julho de 2011. “Escolhi estrear na direção com essa peça porque fiquei louco quando a li pela primeira vez”, confessa o debutante. “Ela é repleta de referências, que perpassam toda a história da arte. Um das suas maiores belezas está em fragmentos inacabados nos quais tudo se diz”.

Traduzido por Rubens Figueiredo, o texto brinca com as especificidades do teatro e do cotidiano das figuras que perpassam a trama. “Em A Gaivota, arte e vida se confundem. Dar uma cara nova ao espetáculo é o movimento natural do trabalho do diretor, que consiste em revelar algo que o texto por si só não poderia dizer. Em outras palavras, sublinhar as passagens mais importantes e escolher os caminhos a seguir”, observa Siniscalchi.

Assim como outros diretores de sua geração, o jovem enxerga no processo de produção teatral um espaço aberto de criação coletiva. “O que me interessa no ator é a opinião dele. Posta a cena, o que daqui lhe interessa destacar. O ator é também um criador, e o teatro é feito de inventar o homem. Isso só se dá encontrando parceiros”, enfatiza o rapaz, que ensaiou com o elenco durante três meses.

Em cena, estão Carla Ribas (Arkádina), Gabriel Pardal (Trepliov), Julia Lund (Nina), Karine Teles (Macha), Ricardo Gonçalves (Trigórin), Thales Coutinho (Miedviediênk) e o cantor e compositor Ivor Lancellotti (Sórin), que se aventura pela primeira vez na carreira como ator. Domenico Lancellotti, filho de Ivor, assina a trilha sonora; Paulo Medeiros, em parceria com o ator Thales Coutinho, comanda a iluminação; e Maíra Senise é a responsável pelo figurino. A cenografia do espetáculo é de Carla Juaçaba, em colaboração com o próprio Siniscalchi.

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Fonte: Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro (http://www.cultura.rj.gov.br/)

Fotografia: O texto de Tchekhov é um dos mais montados de toda a história da dramaturgia ocidental  (Crédito: Divulgação)

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