Musical pancadão
Pela primeira vez, o funk invade o teatro e tem a sua trajetória recontada
Uma peça, ou um baile, ou uma peça-baile. É assim, tudo junto e misturado, que, pela primeira vez, o funk carioca chega ao teatro – e em um da periferia. Em Funk Brasil – 40 Anos de Baile, seis atores cantam e dançam a trajetória de um dos gêneros musicais mais populares do país, levando à cena figuras como Big Boy, Gerson King Combo, Hermano Vianna, Caetano Veloso, DJ Marlboro, Latino e Claudinho e Buchecha. De 9/8 a 30/9, o Teatro Miguel Falabella, no Norte Shopping, treme ao som do ritmo contagiante do pancadão.
Baseado no livro Batidão – Uma História do Funk, do jornalista Silvio Essinger, o espetáculo inédito percorre toda a história de percalços e sucessos do funk – junto ao público e a mídia –, desde o seu início, nos anos 70, com o “Baile da pesada”, até a febre recente dos passinhos. Escrita por Pedro Monteiro e João Bernardo Caldeira, a peça foi contemplada com o Prêmio Montagem Cênica 2011, com o patrocínio da Petrobras – viabilizado por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro, do Governo do Rio de Janeiro e da Secretaria de Estado de Cultura. A direção é assinada por Joana Lebreiro, que comandou os musicais Meu Caro Amigo, Aquarelas do Ary, entre outros.
O funk entra pela porta da frente do teatro
“A ideia para o espetáculo surgiu em 2007. Durante o festival Rio Cena Contemporânea, assisti a uma performance dentro de um vagão de trem da estação Leopoldina e achei que aquele encenação não tinha nada a ver com a atmosfera do lugar. Tive vontade de criar alguma coisa para as pessoas que frequentavam aquele espaço. O funk então me veio como algo que o pessoal da periferia curtia de verdade”, conta o ator e roteirista Pedro Monteiro, que teve muita influência de Zé Celso para compor a peça. “Não existe quarta parede no espetáculo. Todos estão ligados. A plateia interfere porque sabe que estamos falando para ela”.
O rolé pelo universo do funk tem como ponto de partida a explosão do soul, no anos 70, durante os agitos do Baile da Pesada, no Canecão, comandado pelo lendário Big Boy. Nesse contexto, ao longo dos anos, despontam no cenário da noite o empresário Rômulo Costa – e a sua Furacão 2000 – e o DJ Marlboro – e o seu álbum Funk Brasil (1989), lançamento definitivo para a ascensão do gênero. Ao longo da montagem, são executadas 64 faixas que fazem a chapa ficar quente.
“O objetivo do musical é dançar a história do funk. Tratamos desde a influência do som de James Brown para a composição do gênero até o momento emocionante em que o Rei Roberto Carlos canta Se ela dança, eu danço, do MC Leozinho, em 2006. O público vai à loucura quando tocamos hits, como Rap do Pirão (MC D’Eddy), Melô do Bêbado (MC batata) e Feira de Acari (MC batata)”, comenta Pedro, sobre a pré-estreia realizada na Penha. Sucessos de funkeiros importantes como Tati Quebra Barraco, Gorila e Petro e Mr Catra completam o bonde.
Entre os momentos mais marcantes retratados na peça, estão o “batizado” artístico de Claudinho e Buchecha e um show em um badalado festival no “asfalto”. “Nos anos 90, Marlboro fez Claudinho e Buchecha ficarem de cueca na primeira gravação em estúdio da dupla. O disco vendeu nada menos do que 1 milhão de cópias. Outra história importante foi quando, em 2004, novamente Marlboro fez uma ‘noite funkeira’ no Festival Tim Festival, no MAM. Esse foi um momento-chave para a quebra de preconceito com relação ao ritmo. A partir disso, o Rio de Janeiro se transformou em um verdadeiro baile funk, contagiando até as patricinhas da Zona Sul”, acrescenta o idealizador do espetáculo, que percorreu os palcos do país com seu espetáculo anterior, Os Ruivos.
No elenco de atores/funkeiros/MCs/ mestres de cerimônia, estão Julia Gorman, Cintia Rosa, Alex Gomes, Marcelo Cavalcanti, Dérik Machado (selecionado para integrar o elenco após vencer uma disputa realizada nas comunidades pacificadas, em parceria com o programa UPP Social), além do próprio Pedro, que deixa recado entusiasmado ao público: “Agora, o funk não está mais limitado aos bailes ou a festas de casamento de madame, ele está entrando pela porta da frente do teatro”.
Funk Brasil – 40 Anos de Baile realizou uma pré-estreia, com duas apresentações gratuitas na recém-inaugurada Arena Carioca Dicró, na Penha, nos último final de semana. As sessões tiveram cota de ingressos para os moradores dos recém-pacificados Complexos do Alemão e da Penha, que, é claro, fizeram do espetáculo um grande baile.
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Fonte: Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro (http://www.cultura.rj.gov.br/)
Fotografia: Elenco de ‘Funk Brasil – 40 Anos de Baile’ reunido (Crédito: Divulgação)