Da floresta para a cidade
A exposição ‘Amazônia, ciclos de modernidade’ convida a uma reflexão sobre a cultura da região.
Com uma rica biodiversidade e características culturais únicas, a Amazônia é assunto de discussão em todo o mundo. Buscando despertar uma reflexão ainda maior no público e conectar a sociedade atual com as raízes do lugar, a mostra Amazônia, ciclos de modernidade, que vai estar presente no circuito dos chefes de estado da conferência Rio+20, apresenta um painel abrangente da história da região.
Ocupando dez salas e o térreo do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio até 22 de julho, a mostra conta com a curadoria de Paulo Herkenhoff e é composta por cerca de 300 peças. As diferentes facetas e particularidades da região são apresentadas através de fotografias, pinturas, aquarelas, desenhos, esculturas, objetos e vídeos. Dividida por períodos, que abrangem desde o século 18 até os dias atuais, a exposição resgata grandes períodos históricos, como o iluminismo, o ciclo da borracha, o modernismo e a contemporaneidade.
“A exposição tomou forma a partir dos conhecimentos que acumulei, desde 1983, com trabalhos e estudos sobre a Amazônia. Ela veio para concretizar e articular um diálogo sobre os conflitos dos períodos amazônicos, com destaque para a barbárie moderna do encontro entre a sociedade ocidental e a indígena”, descreve Paulo Herkenhoff.
A primeira sala desperta, no público, um peculiar estranhamento provocado pela floresta: em um ambiente escurecido, o visitante se depara com os gritos incessantes proferidos pelo artista Rodrigo Braga, em meio à mata fechada, no vídeo Mentira repetida. No mesmo espaço, o índio Ymá Nhandehetama discursa sobre a situação indígena no Brasil. “A ideia do estranhamento surgiu para colocar o espectador numa crise de referências: o que se sabe sobre a Amazônia e o que não se conhece sobre ela”, explica o curador da exposição.
Estão presentes ainda uma pintura de Emmanuel Nassar e uma escultura de Frans Krajcberg, que apontam para as aflições da natureza, e uma imagem de Serra Pelada, clicada por Sebastião Salgado, que apresenta a exploração do ouro. Com destaque, a impactante fotografia de Berna Reale cria uma metáfora para a exploração do trabalho e as relações de subalternidade na região: na imagem, a artista apresenta-se nua, deitada em um local aberto, enquanto aguarda que urubus devorem os pedaços de carne dispostos sobre seu corpo.
Catequese e antropofagia
Passando pela sala do estranhamento, a exposição apresenta aos visitantes temas como a catequese e a antropofagia. Nas paredes desta segunda sala, estão dispostas as palavras proferidas no sermão do Padre Antonio Vieira para os jesuítas, antes de se aventurarem na selva: conhecido por expressar uma opinião política favorável aos direitos humanos, o trabalho de Padre Vieira representou uma importante luta contrária à escravidão indígena na época. Objetos variados, imagens e documentos raros, como uma gravura do Padre Vieira e um desenho original de Antonio Landi, completam o ambiente.
Seguindo o trajeto histórico apresentado pela exposição, o visitante se depara com a sala do iluminismo, que apresenta cerca de 100 obras do acervo da Fundação Biblioteca Nacional. Entre as peças, estão mapas raros, desenhos originais de Alexandre Rodrigues Ferreira e Antonio Landi, além de maquetes do Museu Naval e obras de Adriana Varejão e Marcone Moreira.
Causando uma significante transformação na região, o ciclo da borracha ganha destaque na história amazônica. A sala correspondente apresenta para o público as questões científicas e industriais, do colonialismo e do neocolonialismo, exibindo o cenário de semiescravidão capitalista que assolava os seringais, provocado pelo desenvolvimento da economia mundial da borracha.
Já na sala da época modernista, obras de reconhecidos artistas e intelectuais como Anita Malfati, Vicente do Rego Monteiro, Giussepe Righini, Teodoro Braga, Raul Bopp e Cassiano Ricardo preenchem o ambiente, revelando como as mudanças culturais influenciaram a região amazônica.
O visitante encerra o passeio na sala da contemporaneidade, na qual artistas expressam as preocupações com a Amazônia no mundo atual. Promovendo também uma reflexão sobre a temática ambientalista, a mostra procura reforçar para o público a importância da preservação da região – assunto que ganha cada vez mais destaque com a realização, no mês que vem, da Rio + 20, a conferência que promove o planejamento de um desenvolvimento sustentável para as próximas décadas.
“A exposição foi escolhida como programa de visitação dos chefes de estado que virão para a conferencia em junho”, conta o curador. “A Amazônia é um tema que faz parte da rotina de todos, por vários motivos. A gente pode pensar num adolescente, que toma açaí para ter energia, ou numa pessoa que desfila no carnaval, onde parte das alegorias são feitas por artesões convidados do Festival de Parintins. Tudo isso é ‘amazônico’, e as pessoas participam a todo momento dessa cultura”.
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Fonte: Cultura.RJ (http://www.cultura.rj.gov.br/) / Fotografia: de Pierre Verger ilustra o porto de Belém (1948) (Crédito: Pierre Verger)
